Jornada dos Leigos: Igreja não é um “fornecedor de bens religiosos” – diz D. Nuno Brás

Foto: Duarte Gomes

Realizou-se durante a manhã de sábado, dia 20 de novembro,no colégio de Santa Teresinha, a Jornada Diocesana dos Leigos. A abertura dos trabalhos, que decorreram sob o tema da Sinodalidade, esteve a cargo do bispo do Funchal, que lamentou o facto de ainda não ter sido possível uma participação alargada neste evento, devido ainda a questões ligadas à pandemia.

Seja como for, aos cerca de 40 e poucos leigos presentes neste evento, organizado pelo Secretariado Diocesano de Pastoral, D. Nuno Brás falou da importância da realidade da sinodalidade, referindo que “a realidade da comunhão, que é a Igreja, que vive-se e exercita-se na sinodalidade”.

Aliás, disse o prelado, ao “não vivermos a sinodalidade, não vivemos efetivamente a comunhão”, ou seja, a comunhão não passaria de palavras, “a sinodalidade é a comunhão vivida, é a vida da Santíssima Trindade posta em prática por todos”.

Neste contexto, o prelado defendeu que “a Igreja não é assim uma espécie de supermercado. Eu às vezes tenho essa sensação. A imagem que eu muitas vezes tenho é esta: cada um tem necessidade de se salvar, para se salvar tem de fazer umas quantas coisas religiosas, para fazer umas quantas coisas religiosas existe a Igreja, que é assim uma espécie de fornecedor de bens religiosos e nós vamos buscar lá os bens religiosos que nos interessam”.

A realidade da comunhão que é a Igreja, prosseguiu, “exige vida comunitária, exige sinodalidade”, exige que “caminhemos em conjunto porque é em conjunto que chegamos a Deus, é em comunidade que nós chegamos a Deus”, quer dizer, “é vontade de Deus que cada um se salve em comunidade, sobretudo diocesana, que chegamos à salvação, é o caminho que o Senhor quer, é o caminho que o Senhor propõe, é o caminho que havemos de seguir”.

Expressão concreta da comunhão

Após a intervenção de D. Nuno, o Cónego Vitor Gomes fez uma apresentação sobre a sinodalidade, focando os principais aspetos que se pretende com este caminho que se quer feito em conjunto por toda a igreja.

Assim explicou, por exemplo, que este sínodo de 2023, com o tema «Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão», “tem como finalidade viver os temas dos outros sínodos que já foram tratados anteriormente, como os jovens a família a palavra de Deus…”.

Lembrou também que o papa diz que “a sinodalidade é um modo de ser igreja hoje”, que resulta “da escuta e do discernimento do Espírito Santo”, e que é “o grande desafio para o terceiro milénio”, embora reconheça que “caminhar juntos é fácil de exprimir em palavras, mas não é tão fácil de pôr em prática”.

Explicou depois os passos dados e a dar desde que foi apresentado o Documento Preparatório, que tem como objetivo ser um instrumento de apoio à primeira fase de auscultação e consulta do Povo de Deus nas Igrejas locais de que vão resultar vários documentos que vão passar para as conferências episcopais, daí resultando outros documentos que serão enviados para Roma e aí analisados e debatidos resultando deles um novo instrumento de trabalho, um texto prévio à realização do sínodo dos bispos em outubro de 2023.

Para além de conhecer o que é, disse ainda o Cónego Vitor, pretende-se “viver a sinodalidade, expressão concreta, como já vimos, da comunhão” e como missão, não apenas de alguns, mas de todos os batizados”.

O processo sinodal “é não apenas um ponto de partida, mas é também um ponto de chegada do povo de Deus, explicou ainda o cónego Vitor, para logo acrescentar que “a consulta das dioceses é realmente fundamental” e que “a Igreja sinodal não é a de amanhã, nem é só a de hoje, mas já foi a do passado”. Na verdade, acrescentou “já caminhamos juntos”, mas precisamos perceber, discernir, como é que hoje “esse caminhar juntos se realiza hoje na nossa igreja particular”.

Relativamente ainda aos objetivos do Sínodo, o cónego Vitor Gomes disse à assembleia que o primeiro é “fazer memória, porque sem memória não há presente nem há futuro, depois viver o processo eclesial participativo e inclusivo, a seguir reconhecer a riqueza e variedade dos dons e carismas que o Espírito dá à Igreja e também experimentar formas participativas de exercer a responsabilidade do anúncio do Evangelho, depois examinar como são medidos na igreja a responsabilidade e o dever, o diálogo social que procura, quando é necessário a reconciliação”, entre muitos outros.

Quanto a ideias chave para esta Igreja sinodal, a primeira a ser apontada foi “escutar os outros para escutar o Espírito Santo”, no contexto espiritual, “não se pode separar o espírito sinodal da vivência de comunhão que passa pela palavra de Deus, pela Eucaristia e pela nossa oração”. 

Anunciar o Evangelho e através dele dar resposta a problemas sociais atuais, “imaginando um futuro diferente” onde cada um “assuma a missão de levar o Evangelho aos outros, Evangelho que é encontro, são outros dos propósitos deste caminho proposto pelo Papa que quer ainda que se reflita sobre questões, como o relacionamento entre a Igreja e as outras confissões.

Depois da intervenção do cónego Vitor, os participantes foram divididos em núcleos de trabalho e distribuídos por salas. a fim de refletirem sobre um tema e de responderem a um questionário que lhes era proposto.

No plenário que se seguiu, cada grupo, através de um representante, explicou as conclusões a que chegou.

Não sonhar cada um com uma igreja

No final do plenário, D. Nuno Brás agradeceu o trabalho dos vários grupos, sublinhando que “a grande questão é Cristo hoje, quer dizer, Como é que vamos mostrar este Cristo que nos encontrou a cada um de nós, este Cristo que nós encontramos no caminho da nossa vida como salvador, não apenas nosso, mas salvador de todos”.

O prelado alertou ainda para uma realidade que pode ser perigosa que é a de cairmos na tentação de sonhar com uma igreja. Isso não interessa nada. Na verdade, o que importa é a Igreja que Jesus Cristo sonha, é a Igreja que Jesus Cristo quer”. De resto, explicou, “é por causa disto que existe a sinodalidade”. Ela existe para “nos ajudarmos uns aos outros a perceber a Igreja que o Espírito sonha”. 

E não é fácil perceber isso, confessou D. Nuno Brás, para logo acrescentar que é aqui que entra o discernimento, que só se faz com Jesus Cristo a acompanhar-nos no caminho e sendo, cada um de nós, testemunho deste Jesus presente na nossa vida e na vida de todos”. É por isso que ninguém é imprescindível, mas todos somos indispensáveis, porque “o testemunho que eu dou de Jesus Cristo na minha vida, ninguém o pode dar por mim”. Por isso, “o meu testemunho é indispensável para os leigos e para o bispo e para o papa”. Ficamos todos a perder quando o testemunho de cada um fica guardado”. Nós que vivemos esta felicidade “temos pena que haja tanta gente que não conheça, que não encontrou ainda Jesus Cristo”. 

Antes do encerramento dos trabalhos e porque neste dia D. Nuno Brás assinalava 10 anos da sua ordenação episcopal, houve ainda tempo para assistir a um pequeno vídeo da sua ordenação e o presentear com flores e duas garrafas de vinho com 10 anos, uma para beber com a família diocesana e outra para partilhar com a família de sangue que o têm acompanhado neste percurso. Gestos que D. Nuno Brás agradeceu, dizendo que “é nestes momentos que percebemos a presença do Espírito Santo na nossa vida”, e “quase me sinto a tocar Jesus Cristo ressuscitado”.

“Muito obrigado por me ajudarem, por serem esta companhia tão importante no meu caminho de cristão”, disse ainda o prelado a concluir.