Solenidade de Cristo Rei: D. Nuno Brás exorta fiéis a deixar que Cristo seja cada vez mais Rei dos seus corações

Foto: Duarte Gomes

Este ano, devido à chuva que se previa cair à hora da celebração e também à pandemia, a peregrinação anual promovida pelo Conselho Central do Funchal da Sociedade de São Vicente de Paulo ao monumento do Cristo Rei, no Garajau, não se realizou. 

Em vez disso, cumprindo o que estava previsto, a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo foi assinalada este domingo, dia 21 de novembro, com uma Eucaristia na igreja do Caniço, presidida por D. Nuno Brás.

Logo no início da celebração, o prelado exortou os fiéis a deixar que “Cristo seja, cada vez mais, Rei dos nossos corações, Ele que “está no início da criação, que estará no fim quando a criação estiver completa e está hoje, agora, connosco a ajudar-nos, a encorajar-nos a caminhar ao seu encontro”, a ajudar cada um a dar “mais um passo na sua conversão em direção a este Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo”.

Na homilia o prelado lembrou as palavras de Jesus quando este disse que o ‘seu reino não é deste mundo’, frisando que “o próprio Jesus toma, igualmente, distância do modo como os reis deste mundo exercem a autoridade”. 

“O reino de Jesus distancia-se, assim, dos reinos políticos, dos Estados com fronteiras geográficas, da sua organização e do domínio de quantos neles exercem o poder: ‘Sabeis que os governantes das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve’ recordou.

Neste contexto, D. Nuno Brás frisou logo depois que “o reino de Jesus não é, por exemplo, como o reino da ciência, o reino dos livros, o reino da pintura ou da música, o reino dos sentimentos. E, muito menos, é o reino da fantasia e do sonho, onde tantas vezes nos refugiamos para esquecer ou fugir da dureza da realidade. O reino de Jesus é um reino real, visível, palpável”.

Além disso, prosseguiu as suas normas e leis do reino de Jesus “não são aquelas que habitualmente são usadas para estabelecer as regras de convivência entre os seres humanos”. No reino de Cristo, acrescentou, “a lei maior é a caridade, quer dizer: o amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos habita”.

Por isso mesmo, “o reino de Cristo não é o reino da aparência simples e superficial, que procura enganar”. No reino de Cristo, “tudo é iluminado pela Verdade que é o próprio Deus”. Nele, assegurou, “não existem sombras, lugares obscuros. Aliás, cada um aparece não apenas como é, com a sua verdade de criatura, mas revestido da verdade bondosa de Deus, que dá sentido e torna verdadeira toda a existência”.

No reino de Cristo, “a atitude fundamental é a obediência”, frisou D. Nuno Brás, para logo constatar que “o modo de viver neste reino é o serviço” se assim não for, “afastamo-nos” porque “no reino de Cristo, tudo é preocupação pelo outro, pela sua vida, pelo seu bem. É o esquecimento de si para o serviço do próximo até ao fim, até à entrega da própria vida em favor dos irmãos.”

Depois de “afirmar que o reino de Cristo jamais poderá ser imposto pela força”, o bispo do Funchal explicou que isso “torna-nos livres de qualquer dependência, de toda a sujeição terrena, de qualquer prisão que não seja única e exclusivamente a Deus e às formas que Ele escolheu para estar presente na nossa vida”.

“Nós cristãos não temos outro Senhor, não dobramos o joelho diante de quem quer que seja; não obedecemos a mais ninguém senão a Deus ou a quantos têm por missão, por serviço, torná-Lo presente. E isso faz-nos os mais livres de todos os homens, sublinhou.

Assim sendo, “o reino de Jesus começa já aqui a ser vivido e a realizar-se aqui e agora” porque desse reino “fazem parte aqueles que, vivendo já por Cristo, com Cristo e em Cristo, vão semeando, pelo seu viver, no ambiente em que vivem, a presença da vida luminosa e bela de Deus”. 

“É o reino de que fazem parte aqueles que, já neste mundo, se vão deixando transformar por Deus e, consequentemente, vão transformando o mundo à sua volta”, explicou para logo acrescentar que é o reino dos que vão impregnando a vida e o mundo daqueles momentos em que percebemos Deus ao nosso lado, e a felicidade do Céu como possível e concreta, experimentada na vida humana que se vai transformando à imagem de Cristo”.

Na realidade, “o reino de Jesus, é a Sua centralidade na existência concreta de cada um de nós: dele fazem parte quantos se deixaram encontrar pelo Senhor no concreto da sua vida; que olham para Ele não apenas como um “inspirador” longínquo de ideias, mas que O percebem como presença transformadora, que conduz a novas atitudes e que oferece um novo modo de viver, afirmou.

No final da celebração coube ao cónego Rui Pontes, pároco do Caniço, agradecer ao bispo diocesano pela presença, mas também a todas as conferências espalhadas pela região que, frisou, comungam “deste bem fazer” e que mantêm “esta proximidade com aqueles que, muitas vezes, precisam de uma palavra de algo para as suas casas, de algo para dar de sustento aos seus”.

“Um bem-haja por todo o vosso trabalho, todo o vosso empenho, toda a vossa entrega diária, semanal, mensal”, fez ainda questão de frisar o pároco do Caniço.

Quanto a D. Nuno Brás, antes da bênção final, fez suas as palavras do cónego Rui a quem agradeceu, bem como ao Pe. Afonso Rodrigues e ao Diácono Alberto Fernandes, que o acompanharam também nesta celebração, e a todos os que estão envolvidos nas Conferências de São Vicente de Paulo que são sinal que o reino de Jesus Cristo anda por aí”.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:

SOLENIDADE DE CRISTO REI
Caniço, 21 de novembro de 2021 (Ano B)

“O meu reino não é deste mundo”

Jesus é rei. Di-lo claramente diante de Pilatos. Naquele momento, no final da sua vida terrena, perante o governador romano da Judeia, representante do Imperador, Jesus — que sempre tinha fugido de uma proclamação real (cf. Jo 6,15: “Jesus, porém, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou-se de novo, sozinho na montanha”) — não apenas aceita o título de “rei” (βασιλεύς), como até o reivindica: “Sou rei (βασιλεύς εἰμι). Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade”.

Contudo, ao mesmo tempo que reivindica a sua condição real, Jesus afirma também: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam”. Que significa isso? Em que consiste, afinal, o seu reinado?

Ao dizer que o seu reino não é deste mundo, Jesus diz-nos que ele se distingue claramente dos reinos a que estamos habituados. E, deste modo, o próprio Jesus toma, igualmente, distância do modo como os reis deste mundo exercem a autoridade. 

O reino de Jesus distancia-se, assim, dos reinos políticos, dos Estados com fronteiras geográficas, da sua organização e do domínio de quantos neles exercem o poder: “Sabeis que os governantes das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve” (cf. Mt 20,25).

Mas o reino de Jesus não se distancia apenas dos Estados. Distancia-se, igualmente, de outras realidades a que tantas vezes nos referimos como “reinos” por analogia. O reino de Jesus não é, por exemplo, como o reino da ciência, o reino dos livros, o reino da pintura ou da música, o reino dos sentimentos. E, muito menos, é o reino da fantasia e do sonho, onde tantas vezes nos refugiamos para esquecer ou fugir da dureza da realidade. O reino de Jesus é um reino real, visível, palpável. É vida que já se encontra no meio de nós — e percebem-no aqueles que lhe pertencemos, porque este reino traz consigo exigências concretas e, ao mesmo tempo, a fruição duma felicidade igualmente concreta e palpável, a felicidade plena que é fruto da vida de Deus em nós.

O reino de Jesus não é deste mundo também porque as suas normas e leis não são aquelas que habitualmente são usadas para estabelecer as regras de convivência entre os seres humanos. Com efeito, no reino de Cristo, a lei não se limita a dar a cada um aquilo a que tem direito por natureza: oferece, antes, a cada um o que lhe é necessário para a salvação, de acordo com as suas necessidades. No reino de Cristo, a lei maior é a caridade, quer dizer: o amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos habita.

Por isso, o reino de Cristo não é o reino da aparência simples e superficial, que procura enganar, mostrando aquilo que não somos: o reino de Cristo é, antes, o reino da verdade (“Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”, dizia o Senhor no evangelho). Diante do Senhor, à Sua volta, naquilo que lhe pertence, tudo aparece claro e na claridade — desde a realidade que aparece aos olhos de todos, até ao núcleo mais central, essencial e íntimo da nossa existência. Desapareceu a mentira, o engano. No reino de Cristo, tudo é iluminado pela Verdade que é o próprio Deus. Nele não existem sombras, lugares obscuros. Aliás, cada um aparece não apenas como é, com a sua verdade de criatura, mas revestido da verdade bondosa de Deus, que dá sentido e torna verdadeira toda a existência.

No reino de Cristo, a atitude fundamental é a obediência. Quer dizer: aquela atitude de quem escuta a vontade de Deus e a procura pôr em prática. Para usar uma expressão querida ao nosso Beato Carlos de Áustria (de quem celebrámos no passado dia 19 os 100 anos da sua chegada à Madeira), a atitude fundamental do reino de Cristo é a de “procurar discernir cada vez melhor a vontade de Deus para depois a viver sempre com maior diligência”. É a atitude fundamental de Jesus, vivida de um modo todo singular na cruz, na entrega total e final à vontade do Pai.

O modo de viver neste reino é o serviço. Nele tudo é serviço — e, se assim não for, afastamo-nos do reino de Cristo. Quer dizer: no reino de Cristo, tudo é preocupação pelo outro, pela sua vida, pelo seu bem. É o esquecimento de si para o serviço do próximo até ao fim, até à entrega da própria vida em favor dos irmãos. Por isso, o Senhor afirma: “Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue”. O reino de Cristo jamais poderá ser imposto pela força. É um reino de paz, e é testemunhado e cresce através do serviço a Deus e ao próximo.

O reino de Cristo é ainda o reino da liberdade. Não apenas porque nele ninguém entra forçado, quanto, sobretudo, porque ele nos permite sermos plenamente aquilo para que fomos criados; nos permite ser aquilo para que existimos. E isso torna-nos livres de qualquer dependência, de toda a sujeição terrena, de qualquer prisão que não seja única e exclusivamente a Deus e às formas que Ele escolheu para estar presente na nossa vida. Nós cristãos não temos outro Senhor, não dobramos o joelho diante de quem quer que seja; não obedecemos a mais ninguém senão a Deus ou a quantos têm por missão, por serviço, torná-Lo presente. E isso faz-nos os mais livres de todos os homens. “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”, afirma S. Paulo (Gal 5,1).

O reino de Jesus não é deste mundo porque, de facto, a sua realização perfeita não a poderemos nunca viver na história — no espaço e no tempo desta nossa vida terrena: a realização plena do reino de Cristo só a encontramos naquele lugar de relação perfeita com Deus, na contemplação eterna do Seu rosto de que os santos já gozam — S. Paulo dirá: “quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho [Cristo] se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,28).

No entanto, ainda que não tenha a sua realização perfeita neste mundo, o reino de Jesus começa já aqui a ser vivido e a realizar-se aqui e agora. É o reino de que fazem parte aqueles que, vivendo já por Cristo, com Cristo e em Cristo, vão semeando, pelo seu viver, no ambiente em que vivem, a presença da vida luminosa e bela de Deus. É o reino de que fazem parte aqueles que, já neste mundo, se vão deixando transformar por Deus e, consequentemente, vão transformando o mundo à sua volta. Vão impregnando a vida e o mundo daqueles momentos em que percebemos Deus ao nosso lado, e a felicidade do Céu como possível e concreta, experimentada na vida humana que se vai transformando à imagem de Cristo.

De facto, este reino é, sobretudo, o reino de Jesus, é a Sua centralidade na existência concreta de cada um de nós: dele fazem parte quantos se deixaram encontrar pelo Senhor no concreto da sua vida; que olham para Ele não apenas como um “inspirador” longínquo de ideias mas que O percebem como presença transformadora, que conduz a novas atitudes e que oferece um novo modo de viver. Alguém em quem vivemos, nos movemos e existimos (cf. Act 17,28).

A Ele, a Jesus Cristo, “a Testemunha fiel, o Primogénito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra; Àquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus seu Pai, a Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Ámen”.