A história de Jeraiva, um jovem num campo de refugiados na Nigéria

Foto: AIS

Um milagre na desgraça

Jeraiva não consegue esquecer o dia em que a sua aldeia, na Nigéria, foi atacada por terroristas. A violência foi tal que teve de fugir para se salvar. Tinha apenas 14 anos. Agora, já com 22, vamos encontrá-lo a milhares de quilómetros de distância, num campo para deslocados internos em Benin. Para Jeraiva, ter conseguido chegar ali com vida foi um milagre. Um milagre na desgraça…

São mais de três mil pessoas. Muitos são jovens ainda. No campo de deslocados em Benin, no sul da Nigéria, todos têm alguma história dramática para contar. Jeraiva passou os últimos oito anos neste campo. Até parece que sempre viveu ali, mas não. A sua vida mudou quando tinha 14 anos. A aldeia onde vivia foi atacada por homens armados. Foi um dos muitos ataques da autoria dos terroristas do Boko Haram. Desde 2009 que já lançaram centenas de ataques, raptaram milhares de pessoas, mataram e destruíram. Dezenas de aldeias foram quase riscadas do mapa. A aldeia onde vivia Jeraiva foi uma delas. As casas foram assaltadas e queimadas. Jeraiva fugiu. Imagine-se o terror que terá sentido. Era apenas um rapaz de 14 anos. Segundo ele, os terroristas queimaram as casas mesmo com pessoas lá dentro. Dois dos seus irmãos não terão conseguido escapar… Jeraiva fugiu. “Pouco tempo depois, ouvi dizer que raptaram a minha mãe e alguns dos meus irmãos e levaram-nos para a floresta de Sambisa…” Para Jeraiva aqueles foram seguramente os dias mais difíceis da sua vida. “Não conhecia ninguém, tudo o que encontrasse para comer, comia, onde pudesse dormir, mesmo que estivesse no mato, dormia.” Jeraiva contou a sua história a Johan Viljoen, director do Instituto de Paz Denis Hurley, da África do Sul, que esteve recentemente em Benin, na Nigéria, a recolher testemunhos de deslocados, de vítimas da violência dos terroristas do Boko Haram, mas também dos pastores muçulmanos Fulani, que têm vindo a transformar-se numa das principais ameaças à comunidade cristã neste país africano. Jeraiva estava sozinho, sem dinheiro, desesperado. “Vi muito, especialmente cadáveres… fiquei muito traumatizado. Na verdade, pensei que ia enlouquecer…” 

Sobreviver ao medo

Ainda hoje é assaltado com toda a violência por essas memórias. “Acordo à noite e tenho ‘flashbacks’, recordações do que vi, deixando-me com muito medo.” Sozinho, sem notícias da família, Jeraiva ouviu falar num campo para deslocados gerido por um Pastor, um homem da Igreja. O campo pareceu-lhe, pelo que contaram, um local onde poderia estar a salvo não só dos terroristas mas também dos seus medos e angústias. Não foi fácil chegar a Benin, ao campo de deslocados internos junto a esta cidade no sul do país. Mas conseguiu. Jeraiva diz que ter conseguido chegar ali com vida foi um milagre. De tal forma que nunca mais se esqueceu da data: dia 10 de Outubro de 2014, fez agora precisamente sete anos. Por ali vivem mais de três mil pessoas. Por ali não há a ameaça dos terroristas mas falta quase tudo. “Os nossos grandes problemas são a alimentação, o financiamento escolar e as instalações sanitárias. Temos milhares de pessoas aqui, e as pessoas adoecem com malária e febres, porque com todos os mosquitos que temos ao redor do acampamento, há uma alta taxa de malária…” Há muitas pessoas infectadas com malária e apenas um pequeno centro de saúde. Um centro de saúde onde faltam os medicamentos… Para Jeraiva, que já se habituou de alguma forma a viver por ali, é urgente tratar das questões da saúde. “As crianças mais pequenas, as mulheres e os jovens adoecem e não temos nada. Precisamos de um hospital e precisamos de profissionais que venham tratar de nós…” 

Paulo Aido

A Fundação AIS apoia projectos de ajuda aos refugiados e deslocados internos em vários países do mundo. Ajude a AIS nesta missão junto dos que perderam tudo o que tinham, como Jeraiva. Ajude a dar-lhes um futuro.