Dez anos de episcopado de D. Nuno Brás: “Quem me tem ajudado é o Espírito Santo”

Foto: Duarte Gomes

Foi no dia 20 de novembro de 2011, Dia da Solenidade de Cristo Rei, que o padre Nuno Brás foi ordenado bispo pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa D. José Policarpo. A cerimónia, que começou às 16 horas, no Mosteiro dos Jerónimos, teve ainda como bispos ordenantes o presidente do Conselho Pontifício para Promoção da Nova Evangelização, D. Rino Fisichella e D. Manuel Clemente, bispo do Porto. 10 anos depois, em entrevista ao Jornal da Madeira D. Nuno Brás fala deste percurso que já conta com quase três anos na Diocese do Funchal e diz que quem o tem ajudado neste seu episcopado é o Espírito Santo. Quanto ao futuro diz fará aquilo que a Igreja lhe pedir e enquanto Nosso Senhor me der forças e capacidade para isso. Quando deixar de ter essas capacidades e essas forças logo se vê, na certeza de que “temos de ir vivendo o dia a dia, de acordo com o que Nosso Senhor quer e Ele vai conduzindo a história, a nossa e a Dele”.

Jornal da Madeira – Não vamos começar esta entrevista com uma pergunta, pelo menos não da forma tradicional. Vamos sim recuar no tempo, até ao dia 20 de novembro de 2011. Estamos no Mosteiro dos Jerónimos, são quase quatro da tarde e está prestes a ser ordenado bispo, o que é que está a sentir?

D. Nuno Brás – Ai… não faço ideia. Não me recordo, sinceramente… O D. Manuel Clemente é que diz que estes dias são dias sem pés nem cabeça: uma pessoa chega ao fim já não sente os pés e não sabe onde é que põe a cabeça. Não foi, absolutamente, um dia normal. Eu creio que a ordenação de um bispo, isto de passarmos a fazer parte do grupo dos apóstolos é sempre qualquer coisa de muito especial, no sentido de que Deus olhou para nós, em primeiro lugar, e escolheu-nos. É o reviver, de uma forma contemporânea se quisermos, aquela passagem de Jesus que passa por aqueles pescadores e lhes diz segue-me e eles deixaram tudo e seguiram Jesus. Viver este momento acaba por ser qualquer coisa de único na nossa vida. Foi um bocadinho isso, à mistura depois com muitos abraços, muitos beijos muitas felicitações, muita gente que quer falar connosco. 

Jornal da Madeira – A família toda presente? Os pais contentes e aflitos ao mesmo tempo…

D. Nuno Brás – Isso já não sei… Mas contentes certamente. A família toda presente, a celebração correu toda muito bem. Foi, de facto, uma celebração magnífica nos dois sentidos. Seja no sentido das expressões formais, seja no sentido da interioridade espiritual. Correu de facto muito bem.

Jornal da Madeira – Uns dias antes da sua ordenação D. Rino Fisichella dizia, numa entrevista, que o padre Nuno era «um sacerdote com grandes dotes (…) e sobretudo com uma grande preparação teológica» e que era «um comunicador bem preparado», isso tem-no ajudado a ultrapassar os desafios ao longo destes 10 anos?

D. Nuno Brás – Eu acho que quem me tem ajudado é o Espírito Santo, ponto final! Depois claro que o facto de ser teólogo marca uma vida e marca a maneira da pessoa reagir aos problemas.  O facto de ter alguma preparação no campo da comunicação ajuda, de certa forma, a estar mais à vontade. Ainda agora, nestes dias, encontrei uma senhora que vinha da África do Sul e que dizia: o senhor não sabe, mas entrava na minha casa todos os domingos porque eu via a missa que celebrava na televisão. De facto, o estar habituado à televisão, à rádio, ao jornal, a estes meios de comunicação facilita e dá possibilidades que eventualmente eu não teria se não estivesse isto. Agora aquilo que eu tenho percebido é que o Espírito Santo está muito presente, isso sim, com certeza.

“a ordenação de um bispo, isto de passarmos a fazer parte do grupo dos apóstolos é sempre qualquer coisa de muito especial, no sentido de que Deus olhou para nós, em primeiro lugar, e escolheu-nos”.

Jornal da Madeira – Agora a pergunta que todos esperavam que fosse feita logo no início: como é que têm sido estes 10 anos de Episcopado quase três deles passados na Diocese do Funchal?

D. Nuno Brás – Devo dizer que nem dei por eles. O ritmo tem sido tanto, graças a Deus e mesmo com a pandemia, que não há grandes hipóteses de andar a pensar como é que foi e como é que não foi. Foi muito no serviço do povo de Deus. Isto significa que eu fazia habitualmente em Lisboa 30 mil quilómetros por ano. Aqui não sei quantos faço, um bocadinho menos, creio que o carro neste momento anda à roda dos 25 mil. As distâncias aqui não são tão grandes. A Diocese de Lisboa vai de Lisboa à Nazaré e eu durante alguns tempos, nos meus primeiros anos de bispo e depois nos últimos, tive precisamente a responsabilidade daquela zona da Nazaré. Ora, para ir e vir são quase 300 quilómetros. Mas como eu já disse, este tempo foi muito no serviço do povo de Deus, muito no acompanhamento das comunidades, dos sacerdotes. É um bocadinho aquilo que eu faço aqui, ou pelo menos procuro fazer aqui, obviamente com as diferenças dos lugares. Por exemplo, aqui é impensável marcar-se uma reunião para as nove da noite, lá era raro o dia que eu não tivesse uma reunião às nove e meia da noite. São maneiras de estar e de viver completamente diferentes.

Jornal da Madeira – Mas essa não deve certamente ter sido a única diferença que encontrou…

D. Nuno Brás – Vamos lá ver, é óbvio que o estar em Lisboa, onde tudo acontece, digamos, embora eu nunca estivesse responsável direto pela cidade de Lisboa, mas sim mais ligado às periferias com a responsabilidade do termo oriental, cheguei a ter a responsabilidade por uma zona que tinha mais de um milhão de habitantes. Aqui são 255 mil habitantes, a dimensão é mais pequena não há tantos movimentos para acompanhar há mais a realidade paroquial, mas de resto é tudo a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo com as suas particularidades.

Jornal da Madeira – Considera que tem conseguido gerir essas particularidades sem grandes dificuldades?

D. Nuno Brás – Não é sem grandes dificuldades! É umas vezes com mais dificuldades, outras vezes com menos. Um ano muito feliz foi, de facto, o meu primeiro ano aqui. Depois foram surgindo as dificuldades do dia a dia. Depois veio a pandemia que trouxe outro tipo de dificuldades, não só à diocese do Funchal, mas a todas as outras.

Jornal da Madeira – Como membro da Comissão dos Episcopados da União Europeia (COMECE), o senhor bispo tem também contacto com testemunhos de outras realidades, nomeadamente a questão dos migrantes, da pobreza que grassa pela Europa e a outras realidades que se agravaram com a pandemia. Sei que estas realidades o preocupam a si e certamente aos seus pares. O que é que se pode fazer para resolver estas questões, sabendo-se que não há varinhas mágicas que mudem o mundo de um momento para o outro?

D. Nuno Brás – É verdade não há varinhas mágicas. Vamos lá ver, nós vivemos num continente, Europa, que foi construído pelo cristianismo, não só obviamente, mas de uma forma muito clara tem uma raiz cristã muito clara, muito óbvia. Isso fez com que a Europa seja aquilo que hoje é e isso faz com que à porta da Europa venham bater muitos povos. Por um lado, devemos orgulhar-nos, no sentido de que de facto conseguimos construir uma sociedade onde todos gostam e querem viver porque aqui têm trabalho, são respeitados os valores, é respeitada a sua dignidade, apesar de tudo, o que não quer dizer que não exista um caso ou outro em que não é assim, aqui há assistência Social, aqui há férias pagas, há cuidados de saúde. Portanto, de facto, o sonho de muita gente é viver na Europa, porque aqui se vive de uma forma que, infelizmente, nos seus países não é assim. Isto dá-nos de facto uma responsabilidade muito grande que é a responsabilidade do acolhimento de todas estas pessoas que querem. É preciso perceber como é que acolhemos, que condições é que temos para acolher… Mas depois dá-nos a responsabilidade de sermos missionários até neste aspeto, ou seja, nós levamos e muito bem o Evangelho à América Latina, à Africa, Ásia com ele levamos também muito daquilo que é também o respeito pela dignidade humana, disso não tenhamos dúvidas, mas agora era necessário levar também esta forma de viver em sociedade. Vamos lá ver, não ir impor o nosso modo de ser Europeu, mas trata-se de ajudar os países destes continentes a desenvolverem as suas capacidades em termos económicos, modos de pensar que façam com que lá passe a ser bom viver também.

“é muito a missão da Europa ajudar os outros países, países de outros continentes, a desenvolverem-se de tal forma que não precisem de vir para cá”.

Jornal da Madeira – Se assim fosse eles não tinham de vir bater à nossa porta…

D. Nuno Brás – Não tinham e não tinham de deixar a sua cultura o seu país a sua terra porque aqui é melhor do que lá. Eu vejo isso muito como missão da Europa. Digo em termos de política geral, política internacional que é muito a missão da Europa ajudar os outros países, países de outros continentes, a desenvolverem-se de tal forma que não precisem de vir para cá. Claro que isto é uma coisa ideal, claro que é um desejo, um sonho, mas não é irrealizável. É para aí que temos de caminhar.

Jornal da Madeira – E há ainda uma outra realidade que não podemos ignorar é que a Europa também não tem capacidade para acolher toda a gente…

D. Nuno Brás – É. De facto, também não é comportável acolhermos todos os migrantes que nos batem à porta. Temos de ser realistas! Embora, obviamente, precisemos da mão de obra, dos trabalhadores, muitas vezes, mão de obra especializada. Penso que neste momento, infelizmente, a Europa tem estado a cair numa espécie de demência coletiva de muita realidade que quase parece aqueles jovens gordos e anafados que estão sentados diante do ecrã da televisão ou do computador e que já não sabem o que hão-de fazer e, portanto, fazem disparates. A Europa é muito assim. Uma carrada de velhos anafados que, em termos de mentalidade, já não sabem o que hão-de fazer e fazem os disparates todos que lhe vêm à cabeça, porque têm de se divertir. Caímos nestes disparates, nestas loucuras insanas de às vezes os animais terem mais direitos do que as pessoas, da vida humana não ser respeitada, tudo isso, que me parece, obviamente muito triste, mas pronto é como é.

Jornal da Madeira – Nesta Europa e neste mundo a caminhar a várias velocidades vai ser fácil fazer o caminho Sinodal que nos propôs o Papa Francisco? 

D. Nuno Brás – Não sei se é fácil. Vamos lá ver, eu creio que o objetivo do Papa Francisco, muito mais do que os resultados diretos do Sínodo de 2023, que são importantes, é a forma de viver que oferece a todos a sinodalidade. Ou seja, no fundo uma Europa e um mundo ocidental individualista, egoísta em que as pessoas estão fechadas sobre si mesmas, vivam outra realidade. No fundo o que o Papa Francisco nos pede é que a Igreja seja o fermento de uma sociedade mais comunitária, em que olhemos mais para o outro antes de olharmos para nós mesmos. No fundo, o Papa quer é que demos esta forma comunitária a uma sociedade de individualistas e egoístas. Este, creio que é o grande projeto. O projeto pastoral do Papa Francisco é este, não tenhamos dúvidas. Todos aqueles sínodos que ele fez sobre a família, em que andamos entretidos com questiúnculas, muito mais do que isso, o objetivo do Papa Francisco é este: dar uma forma comunitária a uma sociedade que é cada vez mais individualista. Se nós formos ver os documentos e as iniciativas do papa Francisco vão todas nesta linha. Isto significa que a coisa não fica resolvida de um dia para o outro, antes ficasse, mas trata-se de uma forma de ser que nós vamos procurando dar a esta sociedade e isso vai ter resultados, não para já, mas a longo prazo.

“No fundo o que o Papa Francisco nos pede é que a Igreja seja o fermento de uma sociedade mais comunitária, em que olhemos mais para o outro antes de olharmos para nós mesmos”.

Jornal da Madeira – Voltando ao tema central desta nossa conversa, o que é que vai fazer para assinalar estes 10 anos de episcopado?

D. Nuno Brás – Não vou fazer nada de especial. Vou trabalhar. Vou celebrar a Eucaristia, ligar aos meus pais como o faço todos os dias… nada de especial.

Jornal da Madeira – E quanto ao futuro? Costuma pensar muito nele ou nem por isso?

D. Nuno Brás – Nem por isso. Este ministério aceitei-o porque não era depois de 24 anos de ter sido ordenado sacerdote, de ter dito sim àquilo que a igreja me pedia que ia dizer que não. Não há-de ser agora, estes anos todos depois que eu vou dizer que não. Aquilo que a Igreja me pedir eu faço enquanto puder, enquanto Nosso Senhor me der forças e capacidade para isso. Quando deixar de ter essas capacidades e essas forças logo se vê. Quando perguntaram a São João Paulo II se ele escrevia um diário, ele respondeu que vai ter a eternidade toda para o escrever, de maneira que não vale a pena estarmos a olhar muito para trás nem muito para a frente. Temos de ir vivendo o dia a dia, de acordo com o que Nosso Senhor quer e Ele vai conduzindo a história, a nossa e a Dele.