A pequena chama

D.R.

No alto de uma montanha, a mil metros de altitude, entre o rebuliço de um rebanho de cabras que corre de um lado para o outro, uma menina liga o seu portátil colocado em cima de uma mesa de madeira, abre o livro e o caderno e assiste às aulas.
No início deste ano, face ao aumento do número de casos de covid-19, as escolas foram fechadas. A menina Fiammetta Melis, 10 anos, começou assim a ter aulas à distância nas montanhas de Trentino no extremo norte de Itália, numa região que fazia parte do Império Austro-Húngaro.

O trabalho dos pais impedia-os de permanecer em casa para acompanhar Fiammetta nos seus estudos. Em plena pandemia, a mãe, uma assistente social, estava na linha da frente no apoio às comunidades mais fragilizadas. O pai, pastor e produtor de queijos de cabra, não podia abandonar os animais. Já que Fiammetta não podia ir à escola, então era preciso trazer a escola até onde ela estava: no meio da montanha.
Estudar na montanha “é bom, dá-me inspiração para escrever e torna-me mais feliz e interessada”, disse a menina.

O seu pai partilhou com um importante jornal italiano que “Fiammetta é muito inteligente na escola e o ambiente montanhoso ensina-a sobre a importância de se adaptar”.
Todos os dias a menina acompanhava o seu pai e participava nas aulas, com recurso ao telemóvel para a ligação à internet. E nos tempos livres ajudava a tratar do rebanho com 350 cabras.

Para o pai, tanto o estudo como o contato com o rebanho, “são duas ferramentas de aprendizagem muito diferentes, mas ambas úteis para o crescimento de uma criança”.
No dia 30 de outubro, Fiammetta encontrou-se com o Papa Francisco. “O que fizeste Fiammetta, para mover o mundo com a tua maneira de ser?”, perguntou Francisco, acrescentando: “És uma menina muito sortuda”. No encontro, o Papa disse-lhe: “Ontem conheci Biden, o presidente dos Estados Unidos, hoje o primeiro-ministro indiano e agora é a tua vez, que és a princesa das famílias”.

A menina Fiammetta tornou-se um exemplo do poder de adaptação e uma pequena chama, “símbolo de resistência e resiliência”, diante das circunstâncias difíceis em tempos de pandemia.