“Um deslizamento de terra”

D.R.

É estranho que, entre todas as festas cristãs, duas solenidades chamaram particularmente a atenção das culturas seculares: o Natal e o Dia de Todos os Santos, nascimento e morte.  Este último tendo tomado o lugar das multidões de santos que são celebrados no Dia de Todos os Santos.  Um “deslizamento de terra” ocorreu, do ponto de vista pagão, da bem-aventurança ao túmulo, da festa de todos os santos à festa de todos os mortos, da esperança do paraíso à angústia do túmulo.

Também podemos perguntar sobre a relutância que surgiu nos primeiros anos da invasão do Halloween.  Os cristãos, com razão, desejaram reivindicar os atributos deste feriado, mas, por fraqueza ou por amor – como diz a canção – eles não puderam resistir aos mendigos por doces, disfarçados de fantasmas que batiam à sua porta ao anoitecer todos os dias 31 de outubro.

De nabos a abóboras e passando pelos truques do fantástico, o negócio desenvolveu uma gama de “horror” em todos os aspectos do mau gosto – ser cortês.  Na linha de visão: as crianças.

É assim que podemos entender melhor porque é o Natal perdeu o frescor dos pequenos santos e o Dia de Todos os Santos se agarrou às teias de aranha.

O objeto de toda esta luxúria é a criança.  É ele quem puxa a mão dos pais.  É uma fatia de mercado continuamente explorada.

A escuridão naturalmente engendra o medo e ainda, nas sociedades modernas que se gabam de ser do Iluminismo, a noite da dúvida perdura e não apaga os terrores noturnos da infância.

Esse medo cria monstros, que chama, e teme.  Para finalmente santificar as suas ansiedades crendo, desta forma, controlá-las.

Mas quando “os cães são soltos”, quando a paixão dá lugar à razão, quando os fantasmas se disfarçam de conceitos e destroem a razão, então os dias passam na névoa e o mundo oscila entre o imaginário e o real.  A imaginação coletiva desviante.  Os ritos primários substituem outros ritos, desdenhando.  E o mundo virou de cabeça para baixo: a princesa de conto de fadas tornou-se bruxa.

Certamente poderíamos continuar a questionar sobre a demonização da morte, a paganização de nossa sociedade, o selo do angelismo que marca os espíritos e gera fraqueza onde esperaríamos forças, a ponto de acreditar mais no Diabo do que no Deus.  Pode-se desesperar com esta farsa mercantil que consegue conformar uma nova religiosidade.

Isso é sem contar com o que faz o grande homem, que desde o início dos tempos, nunca deixou de aprender a levantar-se.

Joëlle Belloir – Pedagoga