“Sinto uma particular missão em relação aos extremos da vida: as crianças, os velhinhos e os doentes”

O padre Alexandre Jorge, franciscano, celebra neste domingo 31 de outubro, 50 anos de ordenação sacerdotal

Foto: Jornal da Madeira

O Padre Alexandre Henriques Jorge (ofm), nasceu a 29 de janeiro de 1945, no Casal de Fonte Lima, Santa Bárbara e foi batizado na igreja paroquial da Lourinhã no dia 22 de fevereiro de 1945. A 31 de outubro de 1971 é ordenado presbítero em Moçambique, onde se encontrava em missão, pelo bispo franciscano D. Ernesto Gonçalves Costa na igreja da Polana, em Lourenço Marques (Maputo). Ao Jornal da Madeira disse que “este dia da minha ordenação tornou-se inesquecível e maravilhoso, senti-me muito feliz, porque comecei a percorrer o caminho do meu ideal sacerdotal”.

Como surgiu a sua ligação aos franciscanos? 

Padre Alexandre Jorge – Começou pela própria família. A razão do meu querer ser franciscano e missionário residiu, em grande parte, no facto de minha mãe pertencer à Ordem franciscana secular (OFS) e também o de ser zeladora das Missões franciscanas. À noite rezávamos sempre o terço. Tínhamos um oratório onde estava também a imagem de São Francisco. Em minha casa ouvia-se falar com muita devoção de S. Francisco de Assis, que exerceu em mim um verdadeiro fascínio pelo carisma franciscano. 

Depois, a influência dos franciscanos que iam, de vez em quando, pregar à minha paróquia e entre eles um frade, o célebre Frei Manuel da Freixianda, que não era padre, era irmão e que foi uma figura extraordinária de franciscano. Esse fradinho itinerante de Varatojo percorria com o seu hábito, as aldeias todas anualmente. As crianças gostavam de ir atrás dele. Simpático, simples, humilde, pobre e alegre, muito próximo das pessoas, com comunicação fácil e apaixonada, quando falava de Jesus e de Francisco de Assis. Este irmão visitava periodicamente as famílias da freguesia de Santa Bárbara a pedir esmolas para o convento. Para mim era um encanto, quando ele se alojava na minha casa. O seu estilo de vida cativou-me para sempre e ajudou-me a abraçar a vocação franciscana. Aqui está a influência do bom testemunho.

Lembro-me uma vez, tinha eu seis anos, agarrei-me às pernas de um padre que foi lá pregar e disse-lhe: “Eu quero ser como tu!”. Engraçado, desde aí, senti um forte impulso interior para ser padre franciscano e missionário e, apesar das oscilações psicoafetivas e espirituais inerentes ao meu crescimento etário, este chamamento nunca esmoreceu. 

Como começou o seu percurso vocacional nos franciscanos? 

Padre Alexandre Jorge – A minha aventura franciscana começou, realmente, aos doze anos quando entrei no colégio de Montariol, Braga, para iniciar os estudos preparatórios. Em 15 de agosto de 1963 dei entrada no noviciado no convento de Varatojo, em Torres Vedras. No ano seguinte, ingressei no curso de filosofia no nosso convento em Leiria. Após três anos de filosofia, segui para o Seminário da Luz, onde cursei teologia, no Centro de Estudos Eclesiásticos. Findo o curso, houve um ano de pastoral. Nós optamos pelas missões. A 19 de outubro de 1970, rumei às missões de Moçambique, onde fui colocado na grande missão de Amatongas, aqui iniciei o meu ano pastoral, visitando e trabalhando nas comunidades cristãs espalhadas pelas aldeias. Esta experiência foi de uma riqueza espiritual e humana extraordinária e marcante.

“Lembro-me uma vez, tinha eu seis anos, agarrei-me às pernas de um padre que foi lá pregar e disse-lhe: “Eu quero ser como tu!”. Engraçado, desde aí, senti um forte impulso interior para ser padre franciscano e missionário e, apesar das oscilações psicoafetivas e espirituais inerentes ao meu crescimento etário, este chamamento nunca esmoreceu”.

Sentiu-se bem na missão em Moçambique?

Padre Alexandre Jorge – Gostei imenso das missões porque levamos sempre uma igreja, uma escola e um hospital ou enfermaria. A parte espiritual, a parte intelectual e o tratamento das doenças. Eu que era fã de televisão e do futebol, a partir das missões perdi o gosto e não quis retomar. Mas ali pratiquei muito desporto. Na missão, o missionário é padre, é professor, é treinador, é muitas coisas. Exige muita dedicação. Gostei imenso de ajudar as pessoas, principalmente as famílias pobres. Estou a lembrar-me de uma pequenina chamada Butuá que vivia com o avô, não tinha pais. O avô, que não era cristão, era impecável. Essa menina cresceu na missão e o avô ficou muito agradecido. O avô coxeava de uma perna e a menina também, por imitação do avô. Com o tempo a menina melhorou e começou a andar normalmente. 

Fale-nos da sua ordenação, onde foi ordenado sacerdote? 

Padre Alexandre Jorge – Em Moçambique professei solenemente na ordem franciscana, em 16 de janeiro de 1971, ao emitir os votos perpétuos de pobreza, obediência e castidade. A 31 de outubro do mesmo ano, na famosa igreja franciscana da Polana, em Lourenço Marques (Maputo), fui ordenado presbítero pelo bispo franciscano e grande missionário, D. Ernesto Gonçalves Costa. Este dia da minha ordenação tornou-se inesquecível e maravilhoso, senti-me muito feliz, porque comecei a percorrer o caminho do meu ideal sacerdotal. Celebrei missa nova na minha paróquia de Santa Bárbara, quase um ano depois, a 22 de julho de 1972. Permaneci cinco anos em Moçambique, onde assumi várias tarefas pastorais: reitor do pré-seminário, professor, animador de centros de catequese e visitado de doentes na área da nossa missão de Amatongas. Vivi o dia-a-dia missionário de uma forma alegre e apaixonante. Contudo, por motivos de ordem política e social, que não convém neste momento destrinçar, regressei a Portugal no dia 19 de maio de 1975. No mês seguinte, integrei a comunidade de Varatojo, Torres Vedras, onde assumi o cargo de mestre de noviços. 

E nunca mais regressou às missões? 

Padre Alexandre Jorge – Não, porque fui ameaçado de morte! Eu estava à frente do seminário. Acontece que a Frelimo, que me tratava sempre como “ó camarada padre Alexandre”, num domingo à tarde, disseram que precisavam de mim para ir levar duas pessoas para serem  interrogadas pelo chefe. Entretanto anoiteceu e eles espancaram com violência os dois jovens que tinham sido denunciados por andarem a falar mal deles e já não era preciso levá-los ao chefe. Quando eu estava a defendê-los, apontaram-me uma metralhadora à barriga e disseram-me: “O camarada padre ou se cala ou acontece-lhe o mesmo”. Pedi para vir embora porque eles já tinham matado um padre madeirense, tinham perseguido alguns colegas meus. Por isso vim, mas fiquei com muita saudade.  

“Gostei imenso das missões porque levamos sempre uma igreja, uma escola e um hospital ou enfermaria. A parte espiritual, a parte intelectual e o tratamento das doenças”.

Regressou então a Portugal. E como veio bater à Madeira?

Padre Alexandre Jorge – Seis anos depois de ter regressado a Portugal, o meu Padre provincial convidou-me a fazer parte da comunidade franciscana de Penha de França no Funchal. Ao princípio custou-me muito porque é uma ilha. Mas depois com o trabalho e a simpatia dos madeirenses, passados dois meses já estava a gostar muito da Madeira. Eu fui muito bem acolhido. Gosto da paisagem e particularmente da temperatura. Na bela ilha da Madeira dediquei-me intensamente à pastoral diocesana: assistente espiritual de Equipas de Nossa Senhora, orientador de retiros, pregador e assistente regional da OFS e professor. Após nove anos de permanência na Madeira, fui nomeado em 1990 para mestre de estudantes de teologia, no nosso Seminário da Luz, em Lisboa.

Nesses anos assumiu a paróquia da Sagrada Família… 

Padre Alexandre Jorge – Sim, em setembro de 1992, voltei à Madeira com a missão de orientar a paróquia da Sagrada Família, Funchal. Durante quinze anos, além do exercício paroquial, exerci a capelania do Hospital Central do Funchal, fui professor de religião e moral e, no campo sócio-caritativo, com a colaboração do Governo Regional recuperamos o Jardim de Infância do “Patronato de São Pedro” e construímos o “Lar de São Francisco”, ambos situados no Funchal. Foram anos inesquecíveis e magníficos de intenso trabalho pastoral e pedagógico. 

Trabalhar no hospital foi das coisas extraordinárias. Como estava dentro da psicologia ajudava espiritualmente e psicologicamente os doentes. Recordo-me de uma senhora descrente, ateia. Quando me aproximei dela estava muito fria comigo, meti conversa e começamos a falar. Ela começou a desabafar. E no fim disse-me que não sabia o que era a confissão. Eu perguntei se era batizada, ela disse que sim. Disse-lhe “vou dar-lhe a absolvição. Significa que você fica com mais paz”. Dei-lhe a abolvição e fui-me embora. No dia seguinte dirigi-me à mesma enfermaria e ela já não lá estava. Tinha morrido. Na véspera ela tinha dito: “Agora posso morrer”. Outra experiência aconteceu quando vi um casal a chorar no corredor do hospital. Eu falei com eles e disse que podia visitar a pessoa doente, eles disseram que não, porque associavam à morte. Eu expliquei que não. Disse: “Vou só falar com a tua mãe”. Quando eu entro, para espanto de todos, a senhora doente disse: “Olha o padre Alexandre. Ainda bem que veio visitar-me”. Era uma senhora da minha Equipa de Nossa Senhora. Ela ficou tão contente. No fim falei com a filha e disse-lhe: “Afinal a tua mãe fazia partes das Equipas”. Ela não sabia. Foram experiências que não esqueço. Também foram 15 anos. 

Foto: Jornal da Madeira

Como é que foi a construção do Lar de São Francisco? 

Padre Alexandre Jorge – Tínhamos um terreno espetacular. Surgiu a ideia de construir uma capela e um lar. Mas não tínhamos dinheiro. Entretanto numa festa em que estava o Alberto João Jardim falamos deste projeto. Ele disse-me “conte comigo”. Fiquei contente. Deu-me segurança. No ano seguinte, estava construído. Tudo foi pago. E até deram-nos uma carrinha. A inauguração aconteceu a 16 de abril de 2008.

Após esta atividade socio-pastoral fui colocado no Convento de Varatojo, durante oito anos, assumindo a pastoral da pregação e assistente de duas Equipas de Casais e capelão do Hospital de Torres Vedras. Quando me despedi de D. António Carrilho ele disse-me “Só tenho a agradecer o que fez e como fez e oxalá que volte outra vez à Madeira”. Por acaso voltei. 

Depois regressou à Madeira pela terceira vez?

Padre Alexandre Jorge – O sr. bispo D. António disse que precisava mesmo de mim na Madeira e pediu que viesse. Eu respondi que estava disponível, porque gostava muito da Madeira. Em 2017, regressei para assumir a paróquia da Encarnação, Covão, Estreito de Câmara de Lobos. As pessoas são muito generosas. Com a ajuda do povo estamos a fazer obras na igreja.

“O sacerdote é uma obra prima de amor. Se alguém tem que amar é o sacerdote. No estar com o outro, o dar as mãos. Colocar-se no lugar do outro, na situação do outro”.

Como carateriza o ministério sacerdotal?

Padre Alexandre Jorge – Em primeiro lugar o sacerdote tem que ser um homem de Deus. Viver a sua fé com entusiamo. Um homem, irmão dos irmãos. É seguir a Cristo, com os nossos limites, é claro. Ser próximo das pessoas. O sacerdote é um irmão por natureza e deve identificar-se com todos os homens, até com os pecadores. São Francisco considerava-se o maior pecador do mundo. O sacerdote é uma obra prima de amor. Se alguém tem que amar é o sacerdote. No estar com o outro, o dar as mãos. Colocar-se no lugar do outro, na situação do outro. Dar exemplo em todo o sentido, mas mais na pobreza. Ser pobre é ser rico, quanto mais eu vivo a pobreza, menos dou importância às coisas e aí surgem duas qualidades formidáveis: o desprendimento das coisas e o despojamento de si próprio, sente-se irmãos de todos, sempre disponível. A pobreza conduz à disponibilidade. Não estás a reservar para ti.

No domingo passado celebramos o Dia Mundial das Missões…

Padre Alexandre Jorge – A missão é o ADN de todo o cristão, é tudo. “Ide por todo o mundo”, está tudo dito nesta frase. Ide e evangelizai. A missão é dentro de casa. É enviar. Como é que o pai envia o filho? É através da educação integral. Inclui sempre o alimento das três dimensões: psico-fisico, psico-afetivo e relacional ou espiritual. O equilibrante é o espiritual. 

Como vê a Igreja na atualidade e o que pensa sobre a questão da sinodalidade?

Padre Alexandre Jorge – A igreja é fundamental porque a igreja está voltada não só para Deus, mas para o irmão. A igreja, pelo que vi nas missões e pelo que tive experiência, está sempre ao lado do povo. Sempre! Até daqueles que a criticam. Cá está o que o Senhor diz, “amai os vossos inimigos”. A igreja tem uma sensibilidade que não há forças políticas que a tenham, porque a igreja atinge o total do ser humano, e as políticas não, é a parte social e mal. A Igreja é também a parte invisível, que é determinante para a felicidade da pessoa. Podes ter tudo em casa e não te sentires feliz. Estou a lembrar-me de uma senhora idosa, estava eu numa paróquia do continente, quando a fui visitar. Ele vinha sempre à missa e depois deixou de aparecer. Estava doente. Quis ir visitá-la. Chego lá e faço uma carícia na cara e pergunto como é que ela estava. Entretanto depois de falar um pouco com ela, despedi-me para ir celebrar a missa das 11 horas. Desejei as melhoras e prometi ir visitá-la outra vez. Fiz-lhe uma carícia e vim embora. Ia fechar a porta, quando ela disse: “Ó senhor padre, venha cá mais vezes, quanto mais não seja para fazer uma carícia”. Ao fim de 15 dias, morreu. Via-se que o que ela precisava era o carinho. Hoje noto isso também em muitas situações. 

“A igreja é fundamental porque a igreja está voltada não só para Deus, mas para o irmão. A igreja, pelo que vi nas missões e pelo que tive experiência, está sempre ao lado do povo. Sempre!”.

O sínodo é isso mesmo. Falamos muito em teologia, mas temos de fazer como o Senhor fazia. Pessoa a pessoa. A sinodalidade é também ir ao encontro da pessoa. Levar o todo da nossa vida, a parte espiritual, a parte afetiva, tudo; o ser humano. A sinodalidade é uma caminhada em relação a alguém que precise de nós. Graças a Deus, há muita gente que vem à igreja, mas temos de ir ao encontro daqueles que não vão. Se formos acolhedores, simpáticos, se formos humanos, compreensivos e tolerantes, é uma evangelização. Em África alguém perguntou a um padre: “porque é que fazes isto tudo”. Ele respondeu: “porque sou cristão”. Essa pessoa, que pertencia ao grupo dos que eram chamados de “gentios”, tornou-se cristão por causa desse testemunho. Mahatma Gandhi, em 1945 dizia em Paris: “A Europa está a morrer porque renegou a Cristo”. Ele era hindu embora dissesse que tinha o coração de cristão. “Eu não sou cristão ainda, por causa do mau exemplo dos cristãos”, dizia ele. A sinodalidade é todos os dias. 

Como se sente ao celebrar as suas bodas de ouro sacerdotais? 

Padre Alexandre Jorge – Sinto-me muito feliz por ter doado a minha vida a Cristo e aos irmãos. Dou graças a Deus por me ter chamado a ser sacerdote franciscano, a viver na consagração a Jesus Cristo ao jeito de Francisco de Assis, apesar das minhas imperfeições e limitações. 

Sinto uma particular missão em relação aos extremos da vida: as crianças, os velhinhos e também os doentes. As crianças e o desafio do seu crescimento; os velhinhos, que precisam de atenção e carinho, principalmente os que foram abandonados e os doentes porque estão fragilizados. Os outros têm maior capacidade de superação.