Pe. Sérgio Leal: “A sinodalidade, mais do que um conjunto de eventos, é um estilo de ser Igreja”

Foto: Duarte Gomes

O padre Sérgio Leal, 36 anos, sacerdote da Diocese do Porto, foi o orador convidado para a Assembleia do Clero realizada no dia 14 de outubro na paróquia da Ponta Delgada, sobre o tema: “Uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. Em 2019, participou no Sínodo da Amazónia no Vaticano, como colaborador da secretaria geral. Nesse contexto, conversou com o Papa Francisco e recorda o momento em que o convidou para ir almoçar ao Colégio Português. O Papa respondeu: “Se houver vinho da Madeira, eu vou!”.

O Jornal da Madeira falou com o padre Sérgio que, nos seus estudos académicos em Teologia Pastoral, tem refletido sobre a sinodalidade no magistério do Papa Francisco e no ministério pastoral.

Como é que surgiu o tema da sinodalidade nos seus estudos?

Padre Sérgio Leal – Mais do que escolher, comecei por ser escolhido para este tema. Quando o sr. D. António Francisco, que era bispo do Porto ao tempo em que eu fui estudar, me pediu que desenvolvesse estudos na área da Teologia Pastoral, ele tinha em mente uma renovação pastoral da Diocese e também um sínodo diocesano que gostaria de concretizar, ainda não sabia bem como, e propunha que a minha tese de licenciatura fosse para preparar o caminho desse sínodo, ou seja, um contributo para esse sínodo, na perspectiva da renovação pastoral da Diocese. Estava eu a iniciar esse trabalho e o sr. D. António partiu para o céu. Em conversa com o meu orientador, sugeriu-me ele que não ficasse preso ao sínodo, mas que respeitasse esta intuição da sinodalidade e propôs-me a sinodalidade no magistério do Papa Francisco. 

Na continuidade ao doutoramento, o D. Manuel Linda, chegado à diocese há pouco tempo, deu-me liberdade de continuar este estudo da sinodalidade ou abrir outra perspectiva. Pareceu-me interessante, em conversa com o meu orientador, que pudéssemos aprofundar alguma dimensão que fosse necessário, neste contexto da sinodalidade, e pareceu-nos que o ministério pastoral, ou seja, como ser pastor numa igreja sinodal, era uma reflexão muito necessária. Como fica o ministério do pastor? É um ministério indicativo? Relativiza-se o ministério do pastor, uma vez que se quer valorizar todo o povo de Deus? Então, traçar aqui um perfil de pastor que é promotor de sinodalidade e de comunhão. É este o contexto do meu estudo, quer para licenciatura, que foi apresentado em 2018, e que está a ser agora o processo de doutoramento.  

“Verificamos as resistências de quem se apega à doutrina e esquece a realidade, mas também de quem olha a realidade e desvaloriza as perspectivas da doutrina”

Como foi a sua experiência na participação do sínodo da Amazónia e a conversa com o Papa Francisco? 

Padre Sérgio Leal – A participação no sínodo foi um momento muito especial. Tinha acabado de entregar a tese de licenciatura sobre a sinodalidade e poder vê-la num evento sinodal colocada em prática era um grande desafio, e uma oportunidade. Estive como colaborador da secretaria geral do sínodo. Para o evento sinodal, convocam um conjunto de pessoas. Naquele caso concreto, como dizia respeito à região amazónica, tínhamos a língua portuguesa, pelos bispos do brasil, e depois a língua espanhola, e portanto pediram a colaboração de padres, quer do brasil, quer de outros países de língua portuguesa, e foi nesse contexto que eu participei. 

Há uma experiência de perceber como se desenvolve um caminho sinodal. Depois de todo o processo de escuta que houve, não tão alargada como neste sínodo, foi interessante perceber como numa aula sinodal se discutem os principais temas. A experiência do sínodo em primeiro lugar foi isto. A riqueza das intervenções, que não são ainda conclusões, o que cada um vai pensando sobre o que o Espírito nos pede hoje, com as potencialidades que isso tem, de perceber como quem está no terreno traz a realidade, quem está nos órgãos da cúria romana traz a doutrina, e o sínodo tem de fazer este trabalho. Verificamos as resistências de quem se apega à doutrina e esquece a realidade, mas também de quem olha a realidade e desvaloriza as perspectivas da doutrina e o esforço de criar caminho conjunto como ali aconteceu, muito motivado pelo Papa, que tinha uma participação muito ativa no sínodo. Ativa, não porque falava muito, mas porque ouvia muito. Tirava notas, alguém intervinha e ele tinha necessidade de escrever. O Papa estava numa escuta verdadeiramente ativa. Se no final do dia fazia uma intervenção, era uma intervenção breve, a guiar o caminho, a dar alguma perspetiva e isso era muito interessante. 

Depois, a variedade. Acompanhei um dos grupos de trabalho onde havia um pastor protestante e ele dizia “Eu não estou aqui para dizer o que é melhor para a igreja protestante. Estou aqui para dar o meu contributo para aquilo que será melhor para a igreja católica, como ela pode descobrir o seu caminho, em comunhão com todos, que acreditam no mesmo Jesus Cristo”. Este espírito sinodal foi muito interessante. 

As mulheres reclamavam um papel mais ativo. Quando no grupo se votava, porque os grupos têm algumas votações e as mulheres não tinham o direito de voto, e como algumas religiosas reivindicavam isso, pela relevância do seu trabalho, mas muito em comunhão, diziam como era importante o rosto feminino da igreja amazónica, uma igreja samaritana. 

Depois, a variedade dos indígenas que traziam cor e música e poesia ao sínodo. É esta riqueza de caminho que depois tem de desembocar em conclusões e indicações práticas. O sínodo realiza-se e acontece de verdade quando terminar o evento sinodal e começar a aplicação desse sínodo. E creio que é um longo caminho que a igreja amazónica tem a percorrer.

Neste contexto, encontro-me com o Papa. O primeiro encontro com o Papa foi muito fugaz porque estou a sair da aula sinodal a passo apressado para ir almoçar, tinha de passar por Santa Marta [residência do Papa Francisco], dava um acesso mais rápido ao colégio [Pontifício Colégio Português], ao ultrapassar o Papa eu digo-lhe: “Santo Padre bom almoço, bom dia”. Ele perguntou-me de onde era, eu disse: “Portugal”, e por brincadeira disse-lhe, “se quiser acompanhar-me ao Colégio Português, pode almoçar connosco”, e a resposta dele foi: “Se houver vinho da Madeira, eu vou”. Eu respondi, se o Santo Padre lá for, haverá vinho da Madeira, do Porto, do Alentejo…” e desejei-lhe bom almoço. E segui para o colégio. 

Nessa tarde, em que regresso para o sínodo, ao passar junto de Santa Marta, olho para diante e vejo o Papa a caminhar sozinho em direção à aula sinodal. Ao passar por ele, estabeleceu-se um diálogo, sempre muito à vontade, como o Papa nos coloca. O facto de ele caminhar devagar e a sua dificuldade em respirar, que o faz parar várias vezes, fez prolongar e saborear a conversa com ele. Começamos por falar sobre o que eu estava a estudar. Então, brinquei com ele porque disse “bem, eu fiz uma tese sobre a sinodalidade no magistério de um Papa, não sei se já ouviu falar, o Papa Francisco”, ele sorriu e disse-me “tenho falado muito sobre isso”, eu disse, “sim eu sei, a tese ficou com duzentas páginas”. Achei curioso porque me pediu a tese, “gostava de ver isso”. Respondi, “Santo Padre, sinto-me muito pequenino ao trazer-lhe isso, mas trago”. Aí ele me diz: “olha, não te digo que vou ler, mas alguém vai ter que ler isso, porque o próximo sínodo será sobre a sinodalidade”. Isto ainda não era público. É curioso que depois, durante o sínodo, quando ele me encontrava, não sabia o meu nome, mas sabia dizia-me: “olha, tu, da sinodalidade”, fiquei com o rótulo da sinodalidade. Muitas vezes ele tinha necessidade disto. Lembro-me que uma vez, ao sair da aula sinodal, ele chamou-me e disse “olha, lembras-te das duas intervenções desta manhã, daquela religiosa, … isto é muito importante teres em conta na tua tese. Lembras-te daquela pessoa que disse que é tempo da igreja fazer isto…, isto não é sinodalidade. Não somos nós que marcamos o tempo, é o Espírito Santo que nos indica o ritmo em que devemos caminhar”. Era muito curioso como ele sempre que me encontrava, rotulava-me com a “sinodalidade”. 

Há uma conversa um bocadinho mais longa, que é essa que fica nas fotos que foram até divulgadas. Foi a única vez em que me senti mais nervoso. Ele parou e me perguntou: “Eu gostava de saber a opinião de um jovem pastoralista sobre o que está a acontecer aqui. O que para ti é mais relevante neste caminho sinodal? Aí estabelecemos uma conversa muito interessante sobre aquilo que era a minha perceção do caminho sinodal. É um homem atento, com sentido de humor. Ele perguntou-me porque tinha estudado a sinodalidade. Respondi que foi por causa de um bispo que já partiu. Um pastor próximo, atento, com cheiro a ovelha. E disse-lhe que foi pena que esteve pouco tempo na nossa diocese. Eu não tinha dito qual era a diocese, ele disse: “tu és do Porto”. Eu fiquei perplexo. Ele disse-me: “olha, o único motivo pelo qual pensei que fosse o Porto é porque quando chega a notícia da morte de um bispo, vou ver quem é o Papa que o nomeou (e naquela fase, normalmente ou eram nomeados por Bento XVI, ou por João Paulo II), foi dos primeiros bispos que tinham sido nomeados por mim, e por isso percebi que tinha estado muito pouco tempo na Diocese”.

Registo outra coisa que me fica para a memória porque lhe disse: “Sabe, Santo Padre, se calhar, até Nosso Senhor já esteja arrependido de o ter levado porque ele faz-nos falta”. Brincava eu com ele. Ele disse-me: “Sabe melhor Deus o que faz, que tu o que dizes”. Esta expressão ficou-me.

“Seremos capazes de habitar o sentido do humano, de encarnar o evangelho em cada tempo e em cada lugar, se formos capazes de escutar os homens e mulheres do nosso tempo”.

O Papa Francisco disse que “o caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio”. Como vê esta afirmação?  

Padre Sérgio Leal – A sinodalidade traz aquilo que a Igreja é, na sua identidade e na sua ação. A sinodalidade recupera a identidade da Igreja, recupera uma Igreja que é povo de Deus, recupera o dinamismo evangelizador de Jesus que falava às multidões porque queria chegar a todos, que se encontrava com cada um porque queria escutar as suas necessidades e anseios, e que à luz do Espírito Santo procura cumprir a vontade do Pai. É assim também a Igreja primitiva, que diante das dificuldades e desafios da missão, procura na decisão conjunta, à luz do Espírito Santo e da palavra, apontar os caminhos novos da evangelização. É uma igreja que caminha em conjunto. Os padres, os bispos, os religiosos, os fiéis leigos caminhando em conjunto. É difícil de colocar isto em prática, por isso é bom que seja o caminho para o terceiro milénio, porque temos muito tempo para aprofundar este modo de ser. A sinodalidade, mais do que um conjunto de eventos, é um estilo de ser Igreja. Na linguagem do Papa é a dimensão constitutiva da Igreja, que moldando a sua identidade, tem de moldar também o seu agir. É esta Igreja que caminha à luz da Santíssima Trindade, como diz a Lumen Gentium, n.º 4: “povo que caminha na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Com isto, não se relativiza o ministério ordenado nem a hierarquia da Igreja. A sinodalidade acontece, como diz o documento da comissão teológica internacional, no contexto de uma Igreja hierarquicamente organizada, não relativiza o ministério ordenado, não há uma secularização dos padres e uma clericalização dos leigos. Existe uma complementaridade e circularidade entre esta diversidade de ministérios e serviços na Igreja. 

Quando se fala de uma Igreja sinodal coloca-se necessariamente também uma Igreja da escuta, uma igreja humilde que se põe a caminho com todos. A Igreja do terceiro milénio é capaz desta proximidade e encontro, desta escuta ativa para conhecer, de verdade, as necessidades, anseios, desejos da humanidade, para poder corresponder. Por isso, ainda que se diga que a sinodalidade nasce da igual dignidade de todos os batizados e a primeira condição sinodal é a nossa condição batismal, aqueles que devem ser ouvidos não são apenas os baptizados. O Papa sublinha isto: de ouvir a todos. Porque a Igreja constituída por todos os batizados destina-se a todos os homens e mulheres na sua missão evangelizadora. E só seremos capazes de habitar o sentido do humano, de encarnar o evangelho em cada tempo e em cada lugar, se formos capazes de escutar os homens e mulheres do nosso tempo. Até lá, pensaremos que conhecemos as necessidades dos outros. Tempos de estar permanentemente como Jesus, a caminho de Emaús. Sabemos e conhecemos a realidade e a vida das pessoas, porque vivemos no mundo, mas, ainda assim, Jesus perguntou-lhes “o que ides a conversar pelo caminho?”. Quer ouvir da boca deles. 

O dinamismo de escuta não é apenas uma sondagem publica de opinião. É escutar na voz do povo a voz de Deus. É escutar com Deus o grito do povo. Ser capaz de, escutando a todos, procurar o que é que o Espírito Santo nos está a pedir aqui e agora. 

“A sinodalidade recupera a identidade da Igreja, recupera uma Igreja que é povo de Deus, recupera o dinamismo evangelizador de Jesus que falava às multidões porque queria chegar a todos”

Considera que alguns países e dioceses terão mais facilidade em realizar o caminho sinodal do que outros? 

Evidentemente que, em diferentes contextos, este caminho sinodal encontrará diferentes modos de se concretizar. Numa igreja do contexto ocidental europeu, onde nos encontramos, percebemos claramente ainda uma acção pastoral muito centrada a partir do clero, como dizemos muitas vezes, uma ação pastoral clérico-cêntrica, que parte da hierarquia da igreja. Não é apenas por iniciativa do clero. Como já disse o Papa, muitas vezes encontramos leigos que são mais clericais que os clérigos. Mas, neste sentido de uma acção eclesial que é muito centrada no ministério ordenado, admito que possa haver aí resistências naturais desse percurso. Acredito que em lugares de missão, onde o trabalho dos leigos é mais necessário dada a escassez do clero, infelizmente muitas vezes a iniciativa laical, entra pela insuficiência da presença do clero, aí porventura esta escuta da realidade laical possa ter alguma facilidade, mas depois, tendo em conta aquilo que eu dizia, que o caminho sinodal não se faz sem aqueles que têm a missão de em nome de Cristo-cabeça, presidir à comunidade, encontrarão outras resistências e dificuldades. Escutar é sempre difícil. Uma escuta ativa que molde, como diz o Papa, as decisões eclesiais, isso é muito exigente. Porque ouvir o que dizem as pessoas, fazer sondagem, é relativamente simples, e podemos fazer um bonito documento sobre isso. A dificuldade é que isto depois traga conclusões e orientações práticas, concretas e decisivas na vida da Igreja, e, portanto, cabe ao caminho sinodal escutar a todos, na elaboração da decisão, evidentemente que a decisão é de caráter ministerial.