D. Nuno Brás: A evangelização é tornar o ‘agora’ de Jesus presente na vida de cada ser humano

A mensagem foi deixada pelo bispo do Funchal, na homilia da Eucaristia que celebrou na Ponta Delgada, no encerramento da Assembleia do Clero.

Foto: Duarte Gomes

Foi com uma Eucaristia, presidida por D. Nuno Brás, que se encerrou na quinta-feira, dia 14 de outubro, a Assembleia do Clero que decorreu durante toda a manhã, na paróquia da Ponta Delgada. 

Na homilia da celebração, centrada na frase «Manifestou-se agora a justiça de Deus» (capítulo 3 da Carta aos Romanos), o bispo do Funchal começou por sublinhar que “é este ‘agora’ da justiça de Deus que nós, sacerdotes, somos convidados a tornar presente, não apenas durante o ‘profissional tempo de serviço’, mas em toda a nossa vida”.

Este ‘agora’, explicou D. Nuno Brás, “não é determinado pelo movimento dos relógios nem pelo agir humano. Não somos nós quem o decide, quem verifica a sua oportunidade ou o provoca”.

De resto, continuou, “o ‘agora’ existe na história porque Deus, no seu desígnio de salvação, assim o determinou. E existe em cada preciso momento em que um ser humano se deixa envolver por ele. O ‘agora’ é determinado por Jesus Cristo, pela encarnação do Verbo. É o agora do Deus connosco!”.

É “a fronteira entre um antes da Antiga Aliança e o tempo novo inaugurado pelo acontecimento da manifestação de Deus na carne humana: é a fronteira entre um antes marcado pela Lei de Moisés e um tempo novo, marcado pelo Homem Novo que é Cristo ressuscitado, em quem cada um de nós subsiste desde o momento do batismo”.

É esta novidade, frisou, que “constitui o cristianismo” e é ela que “dá sentido a quanto fazemos e vivemos” e que “há-de estar presente nas nossas palavras e ações de ministros, de servos da nova Aliança inaugurada no mistério pascal de Cristo”.

Mais adiante o prelado diria mesmo que “é esta novidade manifestada no ‘agora’ de Jesus (que é o de cada um de nós quando se deixa transformar e envolver por Ele) que precisamos urgentemente de tornar presente nesta nossa sociedade madeirense, nas nossas comunidades e grupos”.

A evangelização, sublinhou D. Nuno Brás, “é tornar o ‘agora’ de Jesus (o ‘agora cristão) presente na vida de cada ser humano e, assim, oferecer-lhe um outro modo de viver”.

Só a partir dele, disse, “podemos perceber o Evangelho. Só a partir dele podemos perceber a felicidade que constitui a vida cristã. Só a partir dele a cruz, a Páscoa, faz sentido. Só a partir dele a vida eterna deixa de ser um sonho e se torna uma realidade. Só a partir desta novidade que o mundo não entende porque não O conheceu (1Cor 2,8) — só a partir desta novidade se torna sensata e plena a vida cristã”.

“Claro que é mais fácil, é mais prático, funciona mais e melhor deixarmo-nos vencer pelo velho esquema da Antiga Aliança, e oferecê-lo, embrulhado com uma aparência de novidade, aos que nos vêm pedir a graça a bom preço”, constatou. Porém, não é isso o que Deus quer ou espera de nós, nem tão pouco “do presbitério do Funchal”.

«Não entrais, nem deixais entrar!», disse D. Nuno, é também uma frase que se coloca ao presbitério do Funchal, que não a pode ignorar, mas antes se interrogar como pode encontrar formas de “ajudar uns aos outros a exercer o serviço pastoral de quem franqueia as portas da Vida aos irmãos, e os acompanha no caminho”.

Aliás, esta interrogação, que o prelado diz estar “cheia de consequências para a nossa relação com Deus, para a nossa vida pastoral, para a nossa vida de presbitério, não deixará de estar sempre presente na nossa oração!”

Depois de citar Santo Agostinho, que dizia que «as minhas ovelhas ouvem a minha voz e seguem-Me», o bispo do Funchal desejou que “não queira Deus que nos faltem agora bons pastores, não permita Deus que venham a faltar-nos; a sua misericórdia os faça germinar e os consagre para que apascentem o rebanho”, lembrando ainda que “se há boas ovelhas, há também bons pastores, porque é das boas ovelhas que se formam os bons pastores. Mas todos os bons pastores estão num só, são um só”.  

Concluiu citando Albert Camus, que nos anos 60 do século passado clamava em Paris: «Sejam realistas: peçam o impossível!», desejando que “sejamos também nós capazes de ser realistas, disponíveis para pedir do Senhor a graça de viver o que hoje parece ser impossível, mas que Ele não desiste de nos oferecer!”

O bispo do Funchal, que na abertura dos trabalhos horas antes explicou que convocou a Assembleia do Clero porque entendeu que “valia a pena juntarmo-nos, olharmos nos olhos uns dos outros” e “retomarmos esta noção de que somos presbitério”, terminou a Eucaristia agradecendo ao Pe. Sérgio Leal pela sua vinda, ao grupo coral e “a todos os que quiseram acompanhar-nos”. Desejou ainda que “verdadeiramente o Senhor Bom Jesus nos ajude a todos a vivermos assim o seu ministério o seu sacerdócio, nos ajude a torna-lo presente, salvador, vivo com abundância da Graça de Deus”.

“Nesta Eucaristia tive presente todos os sacerdotes da nossa diocese que já partiram, aqueles que estão com dificuldades de saúde e aqueles que não quiseram estar nesta nossa assembleia”, disse ainda o prelado que desejou que “o Espírito Santo nos ajude a discernir a sua vontade, nos ajude a abraçar esta sinodalidade, que é desde sempre o nome da igreja, sendo o louvor do Senhor e ajudando outros a louvá-lo e a dar-lhe glória”.

Leia na Integra a homilia do bispo do Funchal:

ASSEMBLEIA DO PRESBITÉRIO

Ponta Delgada, 14 de Outubro de 2021

“Manifestou-se agora a justiça de Deus”

1. “Manifestou-se agora a justiça de Deus”: nesta frase do capítulo 3 da Carta aos Romanos, que acabámos de escutar, se encerra não apenas o anúncio da Boa Nova cristã, como igualmente o apelo à conversão, dirigido a quem se deixa interrogar pelo Evangelho de Jesus. 

Se virmos bem, é este “agora” da justiça de Deus que nós, sacerdotes, somos convidados a tornar presente, não apenas durante o “profissional tempo de serviço” mas em toda a nossa vida, pois que ele transforma radicalmente o nosso ser — como baptizados (mergulhados, envolvidos nesta nova realidade que é Cristo ressuscitado), e como sacerdotes em Cristo (anunciadores, Sua presença sacramental).

Este “agora” não é determinado pelo movimento dos relógios nem pelo agir humano. Não somos nós quem o decide, quem verifica a sua oportunidade ou o provoca. O “agora” existe na história porque Deus, no seu desígnio de salvação, assim o determinou. E existe em cada preciso momento em que um ser humano se deixa envolver por ele. O “agora” é determinado por Jesus Cristo, pela encarnação do Verbo. É o agora do Deus connosco!

É um “agora”: momento histórico, transitório e passageiro, limitado, como é limitada a carne humana. Mas é um “agora” que faz a diferença, que qualifica toda a história — a história de cada homem e a história da inteira humanidade: no meio, por entre as velharias temporais, irrompe a novidade da graça! É a fronteira entre um antes da Antiga Aliança e o tempo novo inaugurado pelo acontecimento da manifestação de Deus na carne humana: é a fronteira entre um antes marcado pela Lei de Moisés e um tempo novo, marcado pelo Homem Novo que é Cristo ressuscitado, em quem cada um de nós subsiste desde o momento do baptismo.

2. É esta novidade que constitui o cristianismo. É ela que dá sentido a quanto fazemos e vivemos. É ela que há-de estar presente nas nossas palavras e acções de ministros, de servos da nova Aliança inaugurada no mistério pascal de Cristo.

Trata-se de uma verdadeira novidade. Se é certo que a luz julga a escuridão, tudo colocando à vista de todos; se é verdade que o amor julga o ódio, denunciando toda a sua insensatez e desumanidade, toda a morte que ele traz consigo — se tudo isso é verdade, é ainda bem mais verdadeiro que a justiça de Deus, manifestada em Jesus Cristo, longe de condenar, envolve o pecador que a ela se confia, transformando-o, convertendo-o, tornando-o radicalmente um homem novo. Aos Zaqueus fá-los descer da árvore; aos pródigos que regressam pedintes, oferece a festa do perdão; aos velhos irmãos irritados porque nada correu como tinham pensado, convida a entrar no dinamismo da vida nova; aos pecadores faz-lhes compreender a grandeza do amor e provoca neles as lágrimas da vida. Não esconde ou ignora o pecado, mas salva o pecador na raiz da sua existência.

Estávamos habituados a comparecer perante o juiz, esperando o merecido castigo para as nossas culpas. E eis que o juiz nos transforma, nos converte, de tal modo que o pecado (qualquer que ele seja) deixa de fazer sentido: passa a ser o sem-sentido! 

Estávamos habituados ao esquema, tão humano, da culpa e do proporcional castigo. Estávamos habituados ao esquema, tão humano, da Lei e da punição daquele que a infringe. Estávamos habituados ao esquema, tão humano, de progressista e conservador; de rigorista e de laxista; de moderno e tradicionalista; de idealista e de realista… Poderíamos continuar com tantas destas dicotomias, que mais não são que diferentes declinações da velha Lei de Talião, mas que não hesitamos em usar, mesmo para falar de Jesus Cristo e da vida cristã!… E até estávamos habituados — como nos habituámo-nos! — àquela outra “terceira via” do equilíbrio e do bom senso; do “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, em que nós, portugueses (e nós, eclesiásticos) parecemos ser especialistas.

Como é difícil abandonar estes esquemas humanos! A eles regressamos quase involuntariamente, viciados que estamos nesta natureza humana, e até justificados teologicamente pelo axioma segundo o qual “a graça não destrói a natureza”. Certamente: a graça não destrói, não faz desaparecer a natureza. Mas eleva-a. Que o mesmo é dizer: transforma-a, converte-a, dá-lhe novas e surpreendentes capacidades, nunca antes sonhadas nem presentes na simples realidade natural — oferece-lhe um outro ponto de vista, um novo modo de ser e de viver: o olhar de Deus, o coração de Deus!

É esta novidade manifestada no “agora” de Jesus (que é o de cada um de nós quando se deixa transformar e envolver por Ele) que precisamos urgentemente de tornar presente nesta nossa sociedade madeirense, nas nossas comunidades e grupos. A evangelização é tornar o “agora” de Jesus (o “agora” cristão) presente na vida de cada ser humano e, assim, oferecer-lhe um outro modo de viver. 

Só a partir dele podemos perceber o Evangelho. Só a partir dele podemos perceber a felicidade que constitui a vida cristã. Só a partir dele a cruz, a Páscoa, faz sentido. Só a partir dele a vida eterna deixa de ser um sonho e se torna uma realidade. Só a partir desta novidade que o mundo não entende porque não O conheceu (1Cor 2,8) — só a partir desta novidade se torna sensata e plena a vida cristã.

Não a entende o mundo, porque este “agora” não o consegue reduzir aos seus esquemas. É o mundo que se recusa a sair dos seus clichés, dos seus tabus, do seu modo velho de existir; que insiste em classificar, em dar rótulos; em condenar, em afastar, ou até em domesticar. E a nossa tentação — sempre presente — é a de reduzir o Evangelho a essa dicotomia de conservadores e progressistas, de seguidores estritos da lei ou de laxistas sem normas. É a tentação de tudo reduzir ao prático e eficaz “Grande Inquisidor” de Dostojevski, ou à “graça vendida a preço de saldo” denunciada por  Bonhoeffer.

3. Claro que é mais fácil, é mais prático, funciona mais e melhor deixarmo-nos vencer pelo velho esquema da Antiga Aliança, e oferecê-lo, embrulhado com uma aparência de novidade, aos que nos vêm pedir a graça a bom preço. Afinal, compra-se e vende-se, é de justiça. Ninguém oferece, ninguém serve, ninguém fica a dever — sobretudo, ninguém fica a dever a Deus, que é feio ficar a dever a Deus! As contas ficam saldadas. E julgamos que Deus fica satisfeito: também Ele recebeu o que lhe é devido, que pode Ele protestar ou exigir?

“Não entrais, nem deixais entrar!”. Esta acusação do Senhor é dirigida ao sistema do Antigo Testamento na sua totalidade, incapaz de compreender a novidade de Jesus, a novidade da graça, a novidade cristã. Aqui são os escribas e fariseus, doutores da Lei; mas, noutras passagens, são também os mercadores do Templo ou todos quantos recusam sair do seu pedestal de juiz, que a todos classificam, e condenam ou absolvem. 

Mas é também uma palavra que nos é dirigida, a todos e a cada um: “Não entrais, nem deixais entrar!”. Como poderemos nós, presbitério do Funchal, ignorá-la, como se não nos fosse dirigida? Como podemos nós, presbitério do Funchal, ajudar-nos uns aos outros a exercer o serviço pastoral de quem franqueia as portas da Vida aos irmãos, e os acompanha no caminho?

Esta interrogação, cheia de consequências para a nossa relação com Deus, para a nossa vida pastoral, para a nossa vida de presbitério, não deixará de estar sempre presente na nossa oração!

Bons pastores! Escutemos Santo Agostinho: “Diz o Senhor: As minhas ovelhas ouvem a minha voz e seguem-Me. Aqui vejo todos os bons pastores, identificados com o único Pastor. Não faltam bons pastores, mas estão num só. Se não estivessem num só, estariam divididos. Mas aqui fala-se de um só, porque se recomenda a unidade. Se não fala de diversos pastores mas de um só, não é porque o Senhor não tenha encontrado ninguém a quem confiar as suas ovelhas, pois quando encontrou Pedro confiou-as ao seu cuidado. Mas na própria pessoa de Pedro, Ele recomendou a unidade. Eram muitos os Apóstolos, mas só a um foi dito: apascenta as minhas ovelhas. Não queira Deus que nos faltem agora bons pastores, não permita Deus que venham a faltar-nos; a sua misericórdia os faça germinar e os consagre para que apascentem o rebanho. Sem dúvida que, se há boas ovelhas, há também bons pastores, porque é das boas ovelhas que se formam os bons pastores. Mas todos os bons pastores estão num só, são um só. Quando apascentam, é Cristo que apascenta” (Sermo 46, 29-30; LH IV,337).

S. João Crisóstomo, ao comentar o primeiro versículo do salmo 149, dizia: “Que o seu louvor ressoe na assembleia dos santos. Estas palavras encerram ainda um outro ensinamento. Mostram a necessidade dos louvores unidos a outros louvores, hinos que se elevam em coro, que formam um concerto. Com efeito, a Igreja é um corpo onde tudo se realiza; o seu nome é assembleia, sínodo” (S. João Crisóstomo, Exp. In Psalm 149,1). 

Seja este louvor, esta sinfonia eucarística, que ressoe aqui nesta nossa celebração; e que ressoe sempre, como presbitério, em toda a nossa vida. 

Nos anos 60 do século passado, Albert Camus clamava em Paris: “Sejam realistas: peçam o impossível!”. Sejamos também nós capazes de ser realistas, disponíveis para pedir do Senhor a graça de viver o que hoje parece ser impossível, mas que Ele não desiste de nos oferecer!