Paróquia do Monte: Novo livro dá a conhecer património móvel e integrado

Foto: Duarte Gomes

Foi apresentado no passado sábado, dia 9 de outubro, o livro intitulado ‘Paróquia de Nossa Senhora do Monte, Património Móvel e Integrado’. 

O evento teve início pelas 14:30 horas, na igreja paroquial de Nossa Senhora do Monte e contou com a presença do bispo do Funchal, do Pe. Estêvão Fernandes, que está a estudar na Faculdade de História e Bens Culturais da Igreja, da Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma e é vice-reitor do Pontifício Colégio Português naquela cidade e também do pároco do Monte, Pe. Vitor Sousa.

A abrir a cerimónia o pároco do Monte partilhou com os presentes a “alegria deste dia, com o concretizar de mais este passo do projeto de valorização dos bens culturais da paróquia de Nossa Senhora do Monte”.

Lembrou ainda que “a Igreja Católica tem vindo a dar cada vez mais atenção ao cuidado do seu património”, frisando ainda que esta é “uma exigência e perante uma responsabilidade diante de uma preciosa herança das gerações que nos precederam”. Acrescentou ainda que este património “urge ser conservado”, não só, mas também para honrar a memória dessas pessoas. 

Referindo-se em concreto ao livro agora apresentado disse que o mesmo é “fruto de um exaustivo trabalho de inventariação do património desta paróquia”, tendo agradecido “o trabalho desenvolvido pelo fotógrafo David Francisco, com a colaboração de Francisco Corte, Victor Ferreira, Daniel Sousa e Rui Abreu”.

O Pe. Vitor disse ainda que o livro agora apresentado resulta de “uma parceria entre a paróquia de Nossa Senhora do Monte e o Secretariado Diocesano de Educação Cristã (SDEC), a quem agradeceu na pessoa do Pe. Héctor Figueira”, também presente. 

Além disso, a obra constitui “mais um passo no projeto de valorização dos bens culturais da paróquia”, tendo frisado que tal projeto “só tem sentido quando partilhado”, frisando que é fundamental o estabelecimento de parcerias entre instituições para essa conservação. Pelo que terão de ser “encontradas soluções para conservação e restauro das peças”, mas também para a “reabilitação de espaços que permitam dignas condições para a permanência do património móvel e integrado, em segurança”. Referia-se à própria igreja do Monte, que necessita “de uma intervenção, bem como da reconstrução e reabilitação da casa do Romeiro”.

Comunidade cristã é liga que contextualiza e vivifica estes bens 

Seguiu-se, como previsto, a intervenção do Pe. Estevão, que assina a introdução do livro, cujo prefácio, é da autoria de D. Teodoro de Faria, Bispo emérito do Funchal. 

Na oportunidade e como o próprio fez questão de esclarecer procurou fazer durante a sua exposição “eco daquilo que na introdução escrevi, mas a partir deste “evento” – a inventariação e publicação do património móvel e integrado da paróquia do Monte, abrir a uma visão integral do reconhecimento e conservação, da valorização e inspiração criativa dos Bens Culturais da Igreja”.

De acordo com o Pe. Estêvão, “quando folheamos o livro, vemos um conjunto de peças – Escultura – Pintura – Mobiliário e Talha – Pedra – Cerâmica e Vidro – Têxteis – Livros – Ourivesaria – organizados por tipologia, mas de valor histórico artístico diverso”.

De acordo com o sacerdote, “o ponto medular que liga, contextualiza e vivifica todos estes bens é a comunidade cristã e local do Monte. Este é o primeiro dado a relevar: neste trabalho – simples e singelo – conta-se a história da comunidade do Monte, em todas as suas dimensões! Por isso reafirmo aquilo que já escrevi – é um livro em que a comunidade reconhece a sua história e o seu percurso de fé – e sem este contexto global é impossível compreender a dimensão criativa, histórica e vital de cada um dos elementos que aqui são apresentados”.

À primeira vista, disse ainda o Pe. Estêvão, “o livro pode causar um certo descontentamento pela escassez de aparato crítico, uma vez que tem apenas os dados mínimos do que podemos chamar um inventário básico. Idêntico processo fez a Diocese do Funchal, no fim da década de 90, inventariando todos os bens móveis das paróquias. Constitui-se um instrumento interno fundamental e absolutamente basilar quer para a salvaguarda e tutela, quer para a conservação e valorização do património, pois em boa verdade, não podemos conservar, estudar e valorizar o que não conhecemos”.

Esta publicação, acrescentou “retoma não só localmente aquele processo, mas diferencia-se pela opção de tornar público, em livro, aquilo que hoje, em muitos lugares, está em sistema informático. E este é um virtuosismo que podendo parecer, à primeira vista dispensável, abre a possibilidade a uma dimensão que hoje é fundamental: a reativação da relação nevrálgica entre a comunidade e o seu património”.

Depois de sublinhar que “o principal destinatário de tudo o que fazermos em relação aos bens culturais que possuímos não é o turismo, mas é a própria comunidade”, o Pe. Estêvão defendeu que se deve “reativar esta capilaridade local [este tecido capilar local] “, pois ela é “fundamental quer para a conservação, quer para a valorização, quer até por uma questão de defesa da identidade cultural local, na qual toda a comunidade se sente protagonista e não apenas usufrutuária”.

Não é catálogo histórico-crítico

Nos últimos séculos, frisou, “no âmbito da conservação e da valorização dos bens culturais, tem-se acentuado aquilo a que podemos chamar uma tendência “seletiva”, em contraponto com aquela mais “extensiva”. A primeira tende apenas a conservar e valorizar as obras histórico-artísticas mais significativas, enquanto a segunda olha para os bens culturais como ‘património integrado’, interessando-se por todos eles, independentemente do valor dos seus elementos constitutivos”.

Esta segunda acrescentou, “parece-me ser a via de futuro, porque não parcializa o património, olhando apenas para aquele “emerso” ou conhecido, deixando de lado o património “submerso”, ainda desconhecido”. Esta linha, explicou, “recusa uma conservação e valorização fragmentaria e parcial dos bens culturais, tende a uma reconstituição progressiva e integral da identidade histórica e cultural da comunidade”.

Neste contexto, sublinhou, “a opção da Paróquia do Monte e do Secretariado Diocesano de Educação Cristã, aponta nesta linha. Não se fez um catálogo histórico-crítico com as peças cultural e historicamente mais emblemáticas, o que poderia ser uma via! Tornar público todo este património permite revelar a totalidade dos bens e oferecer assim a possibilidade de criar e compreender relações e interações com outras obras e ambientes”.

“Se por um lado esta publicação tende a reativar localmente e a nível paroquial o sistema nevrálgico de relação entre a comunidade e o seu património, por outro lado é um processo que será tanto mais eficaz cultural e pastoralmente, se extrapolar a perspetiva particularista/local, tendendo para uma dimensão mais integrada e difusa, hoje fundamental na conservação e valorização dos bens culturais, sejam eclesiásticos ou não”, disse ainda o sacerdote que defendeu que este trabalhos, numa ótica de “democratização do acesso à cultura”, devem “extravasar o próprio território local”.

Na verdade, “estes simples projetos, como aquele que hoje aqui apresentamos, se multiplicados e aliados a jornadas de estudo, e ou a itinerários temáticos ou artísticos, como também aos âmbitos pedagógicos e educativos locais, podem de facto constituir um processo importante que desenvolve três dimensões essenciais dos bens culturais da Igreja – a sua dimensão humana, histórica e pastoral”, defendeu. 

A fruição difusa por toda a capilaridade do território, disse, “só é possível porque as referências eclesiásticas lá existem, e porque a grande maioria dos bens culturais da Região Autónoma da Madeira são bens culturais da Igreja ou bens culturais de interesse e âmbito religioso”. É neste contexto que “me permito fazer uma referência especial ao Museu de Arte Sacra e também aos museus no geral. A fruição estruturada, difusa e integral dos bens culturais, articulando o tecido eclesial das dioceses, só é possível com uma ligação e entre ligação eficaz e competente, que não tende a substituir os contextos de sentido e compreensão dos respetivos bens, mas que os complementa e capacita, anima e valoriza”.

Nos tempos presentes é impossível falar de cultura e fruição dos bens culturais, sem falarmos em articulação e cooperação, em formação e competência, explicou ainda o sacerdote, para logo acrescentar que “só somos dignos da memória que recebemos se respeitarmos a sua identidade e a dimensão poliédrica dos bens que temos o dever de conservar e transmitir às gerações futuras”

E tudo isto apenas se “realiza na mútua articulação e cooperação onde mais do que estar em jogo os habituais problemas da jurisdição ou propriedade, no respeito destes, porque elementos essenciais da identidade e história de cada um dos bens, cooperamos de modo a servir a conservação, a transmissão e a fruição integral dos bens que recebemos”. 

Formação é fundamental

Obviamente, sublinhou, “nada disto se faz sem formação e competência, elementos essenciais para valorizar qualquer um dos bens, cultural e eclesialmente”.

Neste contexto partilhou com os presentes que “uma das coisas que me impressiona em muitos ambientes e locais de Itália é a dimensão do voluntariado formado nas áreas dos bens culturais, frisando ser seu entendimento que se pode “desenvolver este aspeto nos nossos âmbitos, bem como interagir com escolas e até grupo de jovens em projetos tão simples como preparar didascálias e sinaléticas para muitas das obras que temos nos nossos espaços de culto espalhados pelo território; bens que, atualmente, apesar de serem figurativos e narrativos, são autenticamente “arte abstrata”, incompreensível no conteúdo para muitos dos nossos contemporâneos”. 

Depois de lembrar que ao longo da história, a Igreja nunca deixou de estar presente e de contribuir para grandes saltos qualitativos, também no âmbito artístico e cultural o Pe. Estêvão defendeu, no entanto que, “não podemos, apenas, ser protagonistas da conservação e transmissão do passado”. 

Na verdade, “é importante não nos colocarmos à margem da dimensão criativa do presente, nem nos limitarmos apenas à arte litúrgica, ainda que importante e necessária. Como também não podemos reduzir os bens culturais da Igreja apenas à sua dimensão pastoral”. 

É importante que os mesmos bens “para além de testemunharem a fé de uma comunidade (dimensão pastoral) se tornem também laboratórios criativos (dimensão humana) onde os artistas e a arte atual encontrem espaço para dizer Deus e o inefável, para dizer o Homem, a sua procura, as suas contingências, as suas alegrias e esperanças, as suas tristezas e angústias (GS1) (dimensão histórica)”.

E ainda que “para os nossos contemporâneos a arte que temos nas nossas Igrejas é em grande medida“ arte abstrata”, impossível de decifrar”, o Pe. Estêvão terminou a sua intervenção citando palavras de São Paulo VI aos artistas no já longínquo ano de 1964: «Nós precisamos de vós. O nosso ministério precisa da vossa cooperação. Porque, como sabeis, o nosso ministério é anunciar e tornar acessível e compreensível e sobretudo comovente, o mundo do espírito, do invisível, do inefável, de Deus. E nesta operação que manifesta o mundo invisível em fórmulas acessíveis, inteligíveis, vós sois mestres. E o vosso trabalho e a vossa missão, a vossa arte é justamente aquela de extrair do céu do espírito os seus tesouros e revesti-los de palavra, de cores, de formas, de acessibilidade. E não apenas uma acessibilidade como a do mestre da lógica ou da matemática, que torna compreensíveis os tesouros do mundo, inacessíveis às faculdades cognitivas dos sentidos e à nossa perceção imediata das coisas. Vós tendes ainda esta prerrogativa: no próprio ato de tornar o mundo do espírito acessível e compreensível, preservar neste mundo a sua inefabilidade, o sentido da sua transcendência, a sua aura de mistério, essa capacidade de alcançá-lo com facilidade e esforço ao mesmo tempo».

Encontros com a realidade da fé

Por último usou da palavra o Bispo do Funchal. D. Nuno Brás começou por frisar que “é importante sublinhar a centralidade do património, porque como diz o Papa Francisco, nós não estamos simplesmente numa época de mudanças, mas numa mudança de época”. 

E estas mudanças tão rápidas a que nós assistimos “e que trazem consigo esta mudança de época, têm necessariamente um perigo de nos esquecermos de quem somos”. Assim sendo, frisou, “este cuidado do património não é apenas um passatempo, uma mania de cuidar de coisas velhas, passadas, ultrapassadas, mas trata-se verdadeiramente de perceber quem somos”. 

E, continuou, “precisamos todos do passado, do património, desta realidade que os nossos pais nos transmitiram”, nomeadamente porque esses objetos que nos chegaram do passado são expressão da fé de um povo e não simplesmente património”. São “encontro com a realidade da fé”.

Depois de sublinhar que “a melhor conservação para uma realidade arte sacra é o seu uso” e não é “ficar fechada a sete chaves, o prelado acrescentou que o não uso faz com que as peças percam o objetivo para o qual foram criadas e percam “esta dimensão da fé”. 

“Para nós cristãos é essencial esta dimensão da tradição, não simplesmente entendida como conceito de folclore, mas entendida como entrega da fé daqueles que vêm a seguir a nós, porque é esta entrega da fé que nos une a Jesus Cristo”.

Referindo-se à obra apresentada, D. Nuno Brás disse que a mesma “é um exemplo de um inventário. 

A terminar de referir que esta cerimónia contou ainda com a presença de D. António Carrilho, bispo Emérito do Funchal e de alguns convidados, nomeadamente, do presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, da secretária da Inclusão Social e Cidadania e a presidente da junta de freguesia do Monte.