Carta Pastoral do Bispo do Funchal sobre as Relíquias

D.R.

As relíquias dos santos, monumentos da fé

Há 500 anos, os nossos antepassados, deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, quiseram entregar os destinos das suas vidas e da vida da nossa diocese à protecção do Apóstolo São Tiago Menor. Do próximo dia 17 de Outubro e até ao dia 6 de Novembro, as relíquias deste Apóstolo, veneradas em Roma na Basílica dos Santos Apóstolos, irão percorrer os arciprestados da nossa diocese, possibilitando, desse modo, uma proximidade singular com o nosso padroeiro.

No entanto, não poucos são aqueles que se interrogam acerca deste gesto. Com efeito, na linguagem corrente, uma “relíquia” é uma “coisa velha”, “sem interesse”, que se guarda por sentimentalismo: ninguém quer ser “uma relíquia”!

Ainda hoje, muitos são os que não se conseguem desligar seja da exagerada importância que, em tempos passados, foi dedicada às relíquias, seja da crítica acesa e cheia de escárnio que lhes foi movida pelo Iluminismo ateu e racionalista. Por isso, podemos e devemos interrogar-nos se hoje faz ou não sentido a veneração das relíquias dos santos, a sua guarda e o lugar de destaque que a Igreja lhes continua a oferecer.

Tomamos aqui como relíquia a totalidade ou um pedaço do corpo de um santo. Claro que devemos também considerar as relíquias da Santa Cruz e o Santo Sudário (este último objecto de estudos científicos que atestam a sua autenticidade), bem como as chamadas “relíquias de contacto” (objectos usados ou que estiveram em contacto com o corpo de um santo).

Depois de olharmos as razões que nos levam a acolher neste momento as relíquias do Apóstolo S. Tiago Menor, nosso padroeiro, faremos uma referência ao modo como, enquanto seres humanos, tratamos os restos e os objectos que trazem à nossa memória os nossos antepassados, para depois percebermos a forma como os cristãos olharam para as relíquias dos santos, em particular dos mártires.

1. A peregrinação das relíquias de S. Tiago Menor pela nossa diocese

Nas próximas semanas, vamos receber na nossa diocese as relíquias de São Tiago Menor, nosso Padroeiro há 500 anos. Será um momento para renovar e revigorar a nossa fé.

Em primeiro lugar, será um momento para tomarmos consciência de que é dos Apóstolos que recebemos a fé que hoje vivemos nas nossas ilhas. Não somos nós que hoje inventamos a fé, ou que a adaptamos àquilo que outros pensam só porque é mais fácil ou “moderno”. Aqueles que começaram a colonizar as nossas ilhas eram cristãos e trouxeram consigo a fé apostólica: foi dos apóstolos que já os seus antepassados tinham recebido a fé; foi nesta mesma fé dos apóstolos que os nossos pais viveram, trabalharam, lutaram e quiseram morrer, transmitindo-a às gerações futuras, a nós. E nós queremos continuar a viver nessa fé, e não noutra.

Por isso, a fé cristã deve confrontar-se diariamente com a doutrina que os Apóstolos nos transmitiram. De um modo particular, deve confrontar-se com toda a Sagrada Escritura, sobretudo com os evangelhos e escritos apostólicos, e ainda com o modo como a Igreja universal acolheu e viveu ao longo dos tempos esse legado de Jesus que é a Sua própria vida connosco e em nós.

O Apóstolo São Tiago Menor é autor de um dos escritos do Novo Testamento, dirigido a toda a Igreja, quer dizer: também a nós. Não deixaremos de ler e meditar a sua carta, verdadeiro desenvolvimento das bem-aventuranças.

Esta peregrinação das relíquias de S. Tiago será ainda um momento para reforçar a nossa comunhão como Igreja Diocesana, de que o bispo é o garante e o sinal visível. A nossa Diocese do Funchal está dividida geograficamente em paróquias e em outras comunidades cristãs. Por vezes, vivemos isolados uns dos outros, como se a nossa paróquia fosse tudo. No entanto, como nos recorda o Código de Direito Canónico, citando o Concílio Vaticano II, é apenas na comunhão diocesana e, por meio dela, na comunhão da Igreja universal, que nos é dado viver o todo da Igreja de Jesus.

Assim, este momento em que estamos mais próximos do nosso padroeiro diocesano deve ser uma oportunidade para tomarmos consciência de que, reunidos pelo Espírito Santo, somos nós hoje, nestas nossas ilhas, unidos uns aos outros, o corpo de Cristo, procurando cuidar mais uns dos outros no crescimento da fé e na evangelização e presença a quantos ainda não acreditam.

Por fim, não podemos esquecer que é de Roma, de junto do Papa, que nos vêm as relíquias de São Tiago Menor, Apóstolo. Por isso, este será também um momento para reforçar a nossa comunhão com a Igreja universal, de que o Papa Francisco é o garante e o sinal visível. Ao estarmos unidos ao Papa, estamos também unidos aos cristãos do mundo inteiro, onde quer que eles estejam. Queremos escutar cada vez mais e melhor todo o ensinamento do Santo Padre. Queremos corresponder, concretamente, ao apelo que o Papa Francisco nos faz para caminharmos mais em comunhão uns com os outros e com todos, em particular cuidando dos mais pobres e fracos.

2. Rodeamos de cuidados os corpos dos defuntos

a) O ser humano não existe sem o passado

Nenhum ser humano existe sem o passado. À partida e em geral, o passado constitui o melhor ponto para iniciarmos a construir o significado da nossa existência, para nos construirmos como pessoas e como sociedade. Mesmo aqueles que se dizem “absolutamente revolucionários” necessitam, por exemplo, da língua que aprenderam dos seus antepassados para se expressarem e fazer essa “revolução” pela qual lutam.

O que chamamos de “passado” é constituído, em primeiro lugar, pela síntese dos caminhos percorridos por aqueles que viveram antes de nós e se enfrentaram com problemas semelhantes ou mesmo iguais aos nossos. É um conjunto acumulado de sabedorias, de caminhos percorridos. Seria uma loucura ignorar esse caminho já percorrido, apenas para pretendermos ser originais.

Mas as nossas questões são as questões do presente. Não são as do passado. As novas questões que se nos deparam não podem, sem mais, ter as mesmas respostas com que os nossos antepassados enfrentaram a sua história. Contudo, a partir das respostas que eles deram aos seus problemas, é-nos mais fácil encontrar e percorrer novos caminhos. Retirar ao ser humano o seu vínculo com o passado (ainda que este nem sempre seja edificante), significaria obrigá-lo a deixar de ser quem é. Significaria retirar-lhe uma boa parte das coordenadas da sua existência. Obrigaria a que cada ser humano tivesse que inventar por si próprio a roda ou o fogo. Tornaria impossível qualquer civilização, qualquer progresso.

O passado chega-nos a partir daquilo a que chamamos “testemunhos” ou “monumentos”. Em primeiro lugar, o testemunho de quantos viveram imediatamente antes de nós e que, por meio da educação, nos transmitiram a sua forma de viver: os nossos pais, os nossos amigos, os educadores da escola, a sociedade em que nascemos. Mas o passado também nos chega por meio de objectos que, por nos falarem da vida daqueles que nos precederam, guardamos e procuramos preservar com todo o cuidado: os objectos mais ou menos valiosos da nossa família, ou os monumentos e lugares classificados de interesse regional, nacional ou mundial.

É assim o ser humano: espírito incarnado, para quem alguns objectos passam a adquirir cargas de significado que nos fazem guardá-los como realidades preciosas, parte integrante da nossa própria identidade. Assim, por exemplo, o relógio que o avô ofereceu ao nosso pai, e que este, por sua vez, nos transmitiu: poderá atrasar-se na contagem dos minutos, mas será sempre guardado, com todo o carinho, porque nos traz à memória aqueles que por ele orientaram o seu viver no tempo, tudo quanto eles representam para nós, e a própria história familiar, com os dramas e alegrias de que aquele objecto foi testemunha.

Por isso mesmo, uma sociedade não pode descurar o seu património cultural, sob pena de, um dia, acordar completamente desenraizada, à mercê de uma qualquer outra força estranha. Esse é o destino daqueles que esqueceram quem são: facilmente se tornam objecto dos que têm sede de domínio e que não olham a meios para escravizar o próximo.

b) O corpo humano tem uma dignidade própria, mesmo depois de morto

Todo e qualquer ser humano não se resume à matéria. Não somos apenas um conjunto de átomos, de moléculas, de energias. Somos seres espirituais. Mas é através do corpo que expressamos quem somos. O corpo não é um objecto que temos, mas uma importante dimensão do que somos. É verdadeiro lugar de comunicação, de encontro com o próximo e com o mundo, e por meio do qual oferecemos o nosso contributo para o bem comum. Para além disso, é por meio do corpo que acolhemos a expressão daqueles que nos rodeiam (e também daqueles que, tendo já partido, deixaram a sua marca mais ou menos indelével neste nosso universo): o que fazem, como fazem, como solicitam a nossa colaboração e empenho.

É por isso que cuidamos dos nossos cemitérios. Não é necessário ser um perito para perceber que esta palavra tem a mesma raiz da palavra “semente”. Os nossos cemitérios são “sementeiras”. O nosso modo cristão de viver expressa-se também aqui: acreditamos que aqueles que ali repousam hão-de ressuscitar para a vida eterna.

Não é pois sem razão que mesmo os não crentes rodeiam de cuidados os seus defuntos: prestam-lhes honras fúnebres, recordam as datas importantes da sua vida e da sua morte, guardam os objectos que os seus antepassados usaram, cuidam dos monumentos, respeitam os cemitérios.

3. O dado da fé

O cristianismo vem de mais alto e vai mais longe que estes dados antropológicos, já por si significativos. Na sua Páscoa, Cristo renova e eleva os dados humanos.

A afirmação central da nossa fé é a de um Deus que, por nosso amor, se humilhou, a ponto de não desdenhar assumir a nossa carne humana, a nossa condição existencial de servos; a ponto de, na cruz, viver a morte para a derrotar e nos dar a vida eterna (cf. Filp 2,6-11). Como diz o Concílio Vaticano II: “na sua encarnação, o Verbo de Deus como que se uniu a cada homem” (GS 22).

É este dado da encarnação (cf. Jo 1,14: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós”) que faz com que o cristianismo não possa ser entendido como um espiritualismo inconsequente. O cristianismo tem sempre uma dimensão social, de construção do mundo.

Ao contrário, por exemplo, do que propõe o budismo ou o yoga, o cristianismo não é uma fuga do mundo, uma tentativa de esquecer a matéria e a carne humana para nos refugiarmos no espiritual, no imaterial. Pelo contrário: a carne de Jesus de Nazaré é o lugar onde se manifesta o Verbo de Deus. E, em consequência, também a carne do cristão, o seu corpo mortal, é o lugar onde se manifesta o mistério de Deus connosco e em nós, o mistério da Igreja, “corpo de Cristo”.

Jesus Cristo é um acontecimento da história. O Apóstolo S. João refere-o de um modo muito claro no início da sua Primeira Carta: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e o que as nossas mãos tocaram sobre o Verbo da Vida, […] o que vimos e ouvimos, isso vo-lo anunciamos, para que estejais em comunhão connosco” (1Jo 1,1.3).

Mas Jesus de Nazaré não é um simples um homem. Ele é o próprio centro da história: é Deus que se faz homem e que, desse modo, nos mostra a meta da nossa existência (ou seja: fazer-se o homem Deus), ao mesmo tempo que nos revela o rosto do Pai (que o mesmo é dizer: o rosto do Pai é o rosto divino e humano de Jesus de Nazaré que, vencendo a morte, se faz presente em todos os tempos e lugares).

Este Jesus, verdadeiramente morto na cruz, não permanece apenas como um exemplo distante no tempo e na geografia, e de que apenas podemos fazer memória. Ele ressuscitou, é Alguém que é presente a todos os tempos e lugares (que o mesmo é dizer: a todas as culturas) e que, por meio do seu Mistério Pascal, constitui um novo corpo que é a Igreja, incorporando a si todos os baptizados. Deste modo, em cada cristão se expressa também o mistério de Deus. Deus quer falar hoje na vida de cada baptizado. Quer estar hoje presente no mundo por meio da existência de cada cristão, verdadeira carne do Senhor no mundo contemporâneo.

Se o túmulo de Jesus estava vazio, isso não significa qualquer desprezo pelo corpo humano. Bem pelo contrário: quer antes dizer que também o nosso corpo, que no sono da morte aguarda o dia da ressurreição, se destina a ser assumido plenamente pelo Senhor e, assim, a participar plenamente na glória da vida eterna (como já aconteceu com Nossa Senhora, que foi “assumida” por Cristo “em corpo e alma”, como celebramos na solenidade da Assunção).

O corpo do cristão não é pois um mero “invólucro descartável” de uma alma eterna, espiritual. É templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 6,19). Não é sem razão que, nos funerais cristãos, o corpo do defunto é honrado, podendo ser aspergido com água para recordar o seu baptismo (por meio do qual se tornou membro do corpo de Cristo), e incensado (para manifestar a reverência que lhe é devida como presença de Deus).

Assim, não espanta que desde o início (já no próprio Novo Testamento, na sequência do Antigo Testamento) tenhamos sinais de uma veneração do corpo e dos objectos que os apóstolos e os mártires tocaram ou usaram, como realidades que nos recordam o seu testemunho de fé. No Livro dos Actos dos Apóstolos, S. Lucas diz-nos: “Pelas mãos de Paulo, Deus operava milagres não comuns. Bastava, por exemplo, que sobre os enfermos se aplicassem lenços e roupas que tivessem tocado o seu corpo; afastavam-se deles as doenças, e os espíritos maus saíam” (cf. Act 19,11-12).

4. Testemunhas da vitória de Cristo

a) O cristianismo é marcado pelo testemunho

Como sucedeu com S. Paulo (cf. Filp 3,9), aquele que foi encontrado por Jesus não pode deixar de mostrar a sua conversão, e de assegurar, diante a todos, com palavras e vida, a verdade de Jesus, em particular a verdade do acontecimento da ressurreição. À sua volta, as opiniões são muitas vezes contrárias, recusando esse testemunho e perseguindo o novo modo de vida que decorre do Evangelho, tal como sucedeu nos tempos do Império romano e sucede ainda hoje. Com efeito, mesmo no nosso meio, aqueles que procuram viver plenamente a vida da fé continuam a ser olhados com estranheza. São, não raras vezes, considerados “loucos” ou, no mínimo, “ingénuos”. E com frequência são perseguidos.

Sabemos como, nestes dois mil anos de cristianismo, com não pouca frequência, a perseguição foi e é levada até às derradeiras consequências. Foi assim com Jesus, morto na cruz (no ano 33), logo seguido por S. Estêvão (martirizado entre os anos 33 e 40), por S. Tiago Maior (martirizado no ano 44) e por S. Tiago Menor (martirizado em Jerusalém no ano 62).

A lista dos mártires cristãos é grande, e continua, infelizmente, a aumentar nos nossos dias. São homens e mulheres que não hesitam em mostrar que a vida que vivemos só faz pleno sentido quando é vivida com Jesus; que negar a fé em Jesus é pior que perder a própria vida; e que, terminada a vida nesta terra, adquirimos uma habitação junto de Deus (2Cor 5,1). Por isso, diante da tentativa de quantos os querem fazer calar, usando mesmo para isso a violência até à morte, os mártires cristãos não deixam de continuar a proclamar a ressurreição de Jesus e a vida eterna. Mesmo depois de mortos, o corpo já sem vida dos mártires continua a testemunhar a fé na vida eterna.

Todo e qualquer cristão não pode deixar de ter o martírio no seu horizonte. Jesus disse-o em várias ocasiões: “Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Tende cuidado com os homens: hão-de entregar-vos aos tribunais e açoitar-vos nas suas sinagogas; sereis levados perante governadores e reis por minha causa, para dar testemunho diante deles e dos pagãos” (Mt 10,16-18). E acrescentou ainda: “Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. Quem não tomar a sua cruz para me seguir, não é digno de mim” (Mt 10, 37-38).

O primeiro mártir cristão é, portanto, o próprio Jesus. Nos evangelhos, vemos como Jesus caminha conscientemente para o martírio. Contudo, jamais vemos Jesus a caminhar para a cruz como para um destino sofrido com resignação e sem sentido. Pelo contrário: Jesus caminha para a cruz, coloca no seu horizonte a possibilidade de sofrer a morte violenta, consciente de que, ao viver a morte dava a vida pelos amigos e aos amigos (cf. Jo 15,3). Dava a vida ao mundo inteiro, de todos os tempos. Jesus ama a cruz como lugar e momento de oferecer a sua vida: de a oferecer ao Pai e aos irmãos, num gesto de amor até ao fim, grito de que a vida divina (que o mesmo é dizer: o amor) é mais forte que a morte (cf. Jo 15,13).

Ao morrer na cruz, Jesus assume a sua vida e a sua morte como proclamação até ao fim da presença e da vitória do Reino de Deus. O abandono por Ele gritado como última palavra (cf. Mt 27,46; Sl 21) é a vivência por parte de Deus da derradeira situação do homem abandonado a si mesmo, incapaz de se dar a vida, condenado à morte. Mas, na cruz, esse abandono transforma-se em vida eterna, em ressurreição. Por isso, a cruz deixou de ser sinal de morte para ser proclamação de vida em abundância (cf. Jo 10,10); passou a ser sinal de amor divino até ao fim; sinal do amor que o Pai tem por cada ser humano, indestrutível e único, pessoal.

Também o mártir vive deste modo o momento definitivo. Àqueles que o querem calar, ele dá testemunho da verdade de Jesus, vivendo com amor a morte violenta por causa da fé. Ao escolher o martírio em vez de negar a fé, o mártir proclama que esta não é uma ideologia mas um acontecimento, um encontro com Cristo que deve, por isso, ser correspondido não com simples palavras ou belos pensamentos, mas com a entrega total da vida; e proclama ainda que a fé constitui uma realidade pela qual vale a pena sofrer e dar testemunho. E que a morte constitui a ombreira da vida divina que nos é dado viver.

O testemunho do mártir é, por isso, um testemunho perene, que nem sequer a violência do algoz é capaz de fazer calar. Na morte do mártir e no seu corpo morto, a fé continua a proclamar a vitória de Cristo, a dar testemunho de que o sentido último da nossa vida se encontra no acolhimento da vida de Cristo em nós.

b) O corpo do mártir continua a falar

O corpo do mártir (as suas relíquias) continua, assim, a falar ao longo dos séculos. Fala da felicidade da vida cristã, da felicidade de viver até ao fim as consequências do baptismo. Fala da verdade que a fé oferece. Fala da verdade que sintetiza, une e dá sentido às pequenas e parciais verdades do quotidiano, tudo englobando na Verdade que é o próprio Deus (cf. Jo 14,6: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida).

O corpo do mártir continua hoje a proclamar a vitória da fé. O corpo do mártir continua a anunciar a vida eterna. O corpo do mártir continua a afirmar que o Reino de Deus, não sendo deste mundo, o engloba e transforma: é verdade a vida na carne; é verdade e não aparência o amor do próximo e o serviço aos mais necessitados.

A carne de Cristo encontra a sua verdadeira “extensão” na carne dos cristãos, no corpo eclesial do Senhor e na carne de todos quantos sofrem pela verdade. Por isso, o corpo do mártir continua também a falar da Igreja, o Corpo de Cristo. Fala-nos de nós, os baptizados, aquela Igreja que peregrina na terra, que vive por entre dificuldades e por entre os pecados dos seus membros. Nascida das águas do baptismo, a Igreja é a assembleia viva e concreta, reunida para a Eucaristia. É a “alma do mundo”.

O corpo do mártir fala-nos, igualmente, daqueles cristãos que, apesar de já não exercerem funções nesta terra (“defunto”), continuam a peregrinar em direcção à casa do Pai. E fala-nos, sobretudo, daquela outra dimensão da Igreja que os santos já vivem – eles que, graças à sua indefectível união com Cristo, deixaram que na sua carne brilhasse, de modo excelente, a vida divina e que, por isso, já contemplam a face do Senhor: fala-nos do Céu!

Em Cristo, estamos unidos a todos estes baptizados (aqueles que connosco ainda partilham este mundo, aqueles que vivem um caminho de purificação mesmo que já defuntos, e aqueles que vivem na glória do céu) porque todos encontramos em Cristo a nossa subsistência: é nele que todos “vivemos nos movemos e existimos” (Act 17,28). Para nós e para todos os baptizados, “viver é Cristo” (cf. Filp 1,21). Se os nossos pecados nos afastam da plenitude da comunhão com Ele, nem por isso o Senhor Jesus deixa de ser Aquele que constitui o ponto de apoio de todos e de tudo quanto existe.

Portanto, a relíquia de um Mártir (ou a relíquia de um qualquer Santo) não nos fala apenas da terra e do modo como aquele homem ou aquela mulher viveu exemplarmente a vida da fé: fala-nos ainda da vida do céu, e anima-nos, com a intercessão que os santos constantemente realizam em nosso favor e a favor do mundo inteiro a, também nós, vivermos cada vez mais e melhor o dinamismo do Reino, até que Deus seja tudo em todos (cf.1Cor 15,28).

Mas a relíquia de um mártir recorda-nos, por fim, que aquele baptizado foi um mortal como nós. Pecador como nós. Necessitado de redenção como nós. Frágil como nós. Como nós, sujeito ao passar do tempo e à caducidade da vida humana nesta terra. Agora despojado e reduzido à fragilidade extrema, o corpo do mártir (ou a sua relíquia) fala-nos da necessidade que todos temos de Deus, e de como é breve e insegura a nossa existência. E anima-nos a seguirmos os passos de Cristo, integrados na torrente inumerável dos mártires e dos santos, daqueles homens e mulheres que, como nós, lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro (cf. Ap 7,14).

5. Os cristãos e as relíquias dos mártires

a) Os primeiros anos

Não espanta, pois, que, logo nos primeiros anos, os cristãos tenham tido grande respeito pelos corpos dos mártires. A maior parte das vezes, depois de terem sofrido o martírio aqueles eram abandonados pelos campos. Assim, em Roma passaram a ser destacados alguns cristãos que tinham como missão especial a recolha dos corpos dos mártires e a sua sepultura. Nessa tarefa perigosa e difícil, destacaram-se no século II as figuras de duas mulheres, Santa Praxedes e Santa Pudenciana, e também (já no séc. IV) a figura de S. Sebastião – todos eles foram conduzidos ao martírio por causa desse serviço.

As Actas do martírio de S. Policarpo, que teve lugar no ano 156 em Esmirna (cidade da actual Turquia), escritas por uma testemunha ocular, dão conta do modo como os restos daquele mártir foram cuidados e venerados:

O centurião, tendo percebido a contenda criada pelos judeus, pondo os restos mortais no meio do fogo, fê-los queimar, como era habitual. Assim nós, mais tarde, recolhendo os seus ossos, mais preciosos que pedras de grande valor e mais purificados que o ouro, colocámo-los em lugar conveniente. Logo que possível, reunindo-nos aí na serenidade e na alegria, o Senhor nos concederá celebrar o dia natalício do mártir como recordação daqueles que primeiro combateram, e para exercício e coragem daqueles que hão-de combater (Martyrium Policarpi XVIII,1-3).

Como vemos, desde muito cedo os cristãos passaram a celebrar a Eucaristia no lugar onde estavam sepultados os corpos dos mártires (as catacumbas, em Roma). Nasceu, assim, o costume (ainda hoje em uso) de colocar as relíquias dos santos dentro ou debaixo dos novos altares, nas novas igrejas. Recordava-se, deste modo, a força da fé e o testemunho dos mártires, assimilando o seu martírio e a sua vida santa ao culto eucarístico (Corpo de Cristo), recebendo os seus ensinamentos e fortificando nos cristãos a disponibilidade para o combate da fé.

b) As celebrações à volta das relíquias dos santos

É absolutamente impossível reproduzir aqui a enorme quantidade de textos que, durante os séculos, foram escritos ou pronunciados por autores cristãos acerca da veneração das relíquias dos mártires. Fiquemo-nos apenas por alguns.

Recordemos também como, no ano 326, Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, fez uma peregrinação à Terra Santa para descobrir os lugares mais importantes referidos nos evangelhos. No dia 3 de Maio, por indicação de um velho rabbi de Jerusalém que tinha escutado a indicação de um seu antepassado, Santa Helena encontrou a cisterna onde tinha sido enterrada a cruz de Jesus, juntamente com as dos outros dois condenados. Do madeiro da cruz de Jesus foram depois feitas três partes: uma que ficou em Jerusalém, outra que foi levada para Roma (basílica da Santa Cruz), e outra que foi levada ao Imperador Constantino, que naquela altura se encontrava na cidade de Constantinopla (hoje Istambul, na Turquia).

Foi desses lenhos que, posteriormente, foram retirados pequenos pedaços, distribuídos pelo mundo inteiro. Certamente, dada a intensa troca de relíquias durante vários séculos, um pouco por toda a Europa, não é possível realizar uma investigação científica que ateste a indiscutível autenticidade de todos os “Santos Lenhos” venerados no mundo. Por isso, não podemos senão seguir o exemplo dos nossos antepassados, e continuar a venerar esses testemunhos da Paixão do Senhor e a guardá-los com toda a devoção.

Como exemplo de homilias proferidas no século IV acerca da veneração que nos merecem as relíquias, olhemos agora um escrito de S. João Crisóstomo, Patriarca de Constantinopla, nascido em Antioquia, por finais daquele século.

Santo Inácio tinha sido bispo de Antioquia na Síria entre os anos 68 e 100 (ou 107), ou seja, em tempos muito próximos aos de Jesus e de S. Paulo. Condenado como cristão pelo Imperador Trajano, foi conduzido a Roma para ser devorado pelas feras, no Coliseu. Durante a sua viagem para o martírio, Inácio escreveu sete cartas às comunidades cristãs por onde ia passando. Depois de ter sido martirizado, as suas relíquias foram levadas de regresso a Antioquia, por Philo, um dos seus diáconos, e por Rheus Agathopus, um cristão que tinha acompanhado o seu Bispo até Roma. Foi acerca do martírio de Santo Inácio e do regresso das suas relíquias que S. João Crisóstomo, pronunciou uma célebre homilia:

Roma recebeu o seu sangue derramado pela fé, vós honrastes os seus restos; vós fruístes do seu episcopado, os romanos fruíram do seu martírio; viram-no combater, vencer e obter a coroa, vós o possuís agora para sempre; Deus, que vo-lo tinha tirado por alguns momentos, devolveu-o coberto de glória; e tal como aqueles que levam uma soma emprestada a devolvem com juros, assim também Deus, depois de vo-lo ter tirado por algum tempo, o devolveu com maior glória. Enviastes um bispo, haveis recebido um mártir; enviaste-o cumulando-o de votos, e o haveis recebido com coroas, e não apenas vós mas todas as cidades da sua passagem. […]

O Senhor deixou-nos estes preciosos restos para nos inspirar o zelo de que eles estiveram animados, a fim de nos oferecer um porto, um lugar seguro, uma consolação em todos os males que nos afligem. Portanto, todos vós que estais numa tribulação ou doença, numa perseguição, que vos encontrais em qualquer situação de tristeza, ou que estais mergulhados nos abismos do pecado, aproximai-vos com fé e sereis libertados de todos os fardos que vos oprimem, e regressareis cobertos de satisfação, a alma e a consciência mais ligeiras, apenas pela visão do que nos resta do santo pontífice. Ou melhor: não são apenas os miseráveis que se devem aproximar deste túmulo. Que aquele de alma tranquila, que se encontra na glória ou no poder, ou que tem uma grande confiança em Deus, não desdenhe as vantagens que a visão dum mártir ilustre lhe pode trazer. Basta esta visão para lhe assegurar os bens que possui, trazendo-lhe ao pensamento grandes virtudes, ensinando-lhe, por essa recordação, a se moderar, a não se orgulhar nem do seu mérito nem do seu sucesso, nem das suas boas obras. Ora não é pouco o proveito para aqueles que se encontram num situação feliz, não se deixarem ensoberbecer com as prosperidades deste mundo, mas antes saber sustentá-las com moderação. Está pois aqui um tesouro que a todos é útil, um refúgio cómodo e agradável, onde os infelizes podem encontrar libertação dos seus sofrimentos, e os que estão bem a confirmação da sua felicidade; os doentes, o regresso da saúde; os sãos uma proteção contra a doença. Cheios destes sentimentos, prefiramos permanecer junto deste túmulo, a todas as alegrias, a todos os prazeres deste mundo, a fim de, ao mesmo tempo, nos alegrarmos e enriquecermos, para deste modo podermos chegar à vida bem-aventurada que os santos atingiram. Possamos, dizia, aí chegar pela intercessão destes mesmos santos, pela graça e a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, com quem seja dada glória ao Pai e ao Espírito, agora e sempre, pelos séculos dos séculos (S. João Crisótomo, In sanctum Ignatium).

Com efeito, no século IV, com o fim das perseguições e com a possibilidade de celebrar publicamente a fé, as relíquias dos mártires começaram a ser abundantemente partilhadas, para que também as novas Igrejas pudessem celebrar a Eucaristia reunindo-se à volta das relíquias dos mártires ou dos santos, recordando, dessa forma concreta, o seu testemunho da fé.

Recordemos, finalmente, no início do século V, o modo como Santo Agostinho lembra os seus tempos de Milão, e como nessa altura foram descobertas as relíquias dos santos mártires Gervásio e Protásio:

“Naquela ocasião revelaste em visão ao bispo que já referi [Santo Ambrósio], o lugar onde jaziam ocultos os corpos dos mártires Gervásio e Protásio, que por tantos anos preservaste incorruptos no tesouro de teus aposentos, para trazê-los à tona oportunamente a fim de dobrar uma raiva, feminina mas imperial.

Com efeito, quando, descobertos e exumados, foram levados com as honras devidas à basílica de Ambrósio, não apenas aqueles que eram atormentados por um espírito impuro sararam, por confissão dos próprios demónios, mas também um cidadão cego havia muitos anos, conhecidíssimo na cidade, tendo perguntado e ouvido a razão da tumultuosa alegria do povo, levantou-se num pulo e pediu ao seu guia que o levasse até o lugar. Conduzido ali, implorou que o deixassem tocar com um lenço o féretro que carregava a morte de teus santos, valiosa a teus olhos. Quando o fez e levou o lenço aos olhos, imediatamente eles se abriram. Daí a notícia se espalhar; daí teus louvores arderem, brilharem; daí o ânimo daquela inimiga [a Imperatriz] ser, se não conquistado pela saúde da fé, pelo menos reprimido em sua loucura persecutória (Agostinho, Confissões IX,16).

c) São Tomás de Aquino

São Tomás de Aquino deixou-nos uma síntese que resume bem a posição dos cristãos frente às relíquias (Suma de Teologia, III, 25,6). Fazendo suas palavras de Santo Agostinho, começa ele por recordar que “se o vestido ou o anel dos pais, ou outros objectos semelhantes, são tão queridos para os filhos, de nenhum modo devem ser desmerecidos os corpos, que sem dúvida nos são mais familiares e íntimos que qualquer vestido, pois os corpos pertencem à própria natureza do homem”.

Assim, continua S. Tomás, “quem ama uma pessoa, venera também os seus restos depois da morte”. E ainda: “É pois evidente que devemos venerar os santos de Deus, como membros de Cristo, filhos e amigos de Deus e nossos intercessores. Portanto, devemos venerar dignamente uma sua relíquia, em sua memória”. E acrescenta: “O próprio Deus honra oportunamente estas relíquias, realizando milagres na presença desses corpos”.

Ou seja: S. Tomás diz-nos que não são as relíquias que realizam os milagres. Elas nada têm de “milagroso” ou “mágico”. É Deus quem, para nos dar um sinal da sua santidade e amor, e para nos convidar a reconhecer santidade que manifesta de um modo particular em alguns cristãos, realiza milagres “na presença” daqueles seus restos ou daqueles objectos. Ou seja: na presença das relíquias.

Como gostava de dizer S. Jerónimo (e S. Tomás recorda): “não adoramos as relíquias dos mártires, nem o sol, nem a lua, nem os anjos. Reverenciamos as relíquias dos mártires, com o objectivo de adorar Aquele [Deus] de quem eles são mártires” (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1674).

É pois com todos estes sentimentos e procurando reavivar e aumentar a nossa fé e a nossa consciência de sermos Igreja – Igreja diocesana e Igreja universal – que a relíquia de S. Tiago Menor irá percorrer os arciprestados da Diocese do Funchal.

Infelizmente, ainda em tempo de pandemia, não poderemos manifestar a fé em completa “normalidade” e retomar de todos os dinamismos diocesanos e paroquiais de evangelização. Contudo, praticamente vacinada toda a população madeirense, estamos agora mais à-vontade, ainda que sempre mantendo o respeito pelas regras das autoridades de saúde, para retomar com decisão o caminho da tão desejada normalidade. Que São Tiago Menor, Apóstolo e Mártir, Irmão do Senhor e primeiro bispo de Jerusalém, interceda por nós e nos ajude a crescer na fé, na esperança e na caridade, e a viver cada vez melhor o mistério da Igreja que somos.

Saúda-vos o

+ Nuno, Bispo do Funchal