“A busca da união com Deus marcou a linha de rumo da caminhada espiritual de Madre Virgínia”

D. António Montes Moreira apresenta o Relatório da Comissão Histórica

No próximo sábado, dia 2 de outubro, D. Nuno Brás vai encerrar a fase diocesana do Processo de Beatificação e Canonização da Serva de Deus, Madre Virgínia Brites da Paixão, e enviará o processo para a Congregação para a Causa dos Santos. O Jornal da Madeira foi ao encontro do presidente da Comissão Histórica deste Processo, D. António Montes Moreira, Bispo emérito de Bragança-Miranda, doutor em Teologia Histórica pela Universidade Católica de Lovaina (Bélgica), e professor jubilado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

Nesta entrevista, D. António Montes Moreira fala sobre o conteúdo do Relatório da Comissão Histórica, entregue na passada quarta-feira, dia 22 de setembro, à Diocese do Funchal, e explica a história deste Processo que conduziu à nomeação da Comissão Histórica a 29 de dezembro de 2004, até à descoberta, em setembro do ano passado, de 147 documentos manuscritos da Madre Virgínia, incluindo a sua Autobiografia, que tinham sido enviados para a Congregação da Doutrina da Fé em 1923.

Foto: Jornal da Madeira

Pedras Vivas 26 de setembro de 2021 (A4)

Pedras Vivas 26 de setembro de 2021 (A3)

1. Pode falar-nos da história da elaboração do Processo Diocesano para a Beatificação da Madre Virgínia?

D. António Montes Moreira – A decisão de iniciar a Causa de beatificação e canonização de Madre Virgínia Brites da Paixão foi tomada em 1997 no âmbito das celebrações comemorativas dos 500 anos da presença das Irmãs Clarissas na Madeira. 

A pedido de D. Teodoro de Faria, ao tempo Bispo do Funchal, e com vista ao lançamento do Processo Diocesano da Causa, em junho do ano 2000 a Irmã Clarissa Otília Rodrigues Fontoura, licenciada em História, começou a redigir a sua primeira biografia de Madre Virgínia e a organizar os manuscritos do seu espólio. Como resultado desse trabalho, saiu em 2004 a primeira edição dos escritos de Madre Virgínia, preparada por esta Irmã com a colaboração da Irmã Carla Patrícia Henriques. 

Por documento de 30 de agosto deste mesmo ano, a Irmã Adelaide Encarnação de Sousa (Maria da Cruz), então Abadessa do Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade na Caldeira (Câmara de Lobos) e Presidente da Federação dos mosteiros clarianos de Portugal, constituiu-se Autora da Causa nos termos estabelecidos pela Instrução Sanctorum Mater da Congregação Romana das Causas dos Santos. Em seguida o Postulador Geral da Ordem Franciscana que, em Roma, está encarregado de acompanhar todas as Causas da Ordem, nomeou Vice-Postulador da Causa Fr. Nélio Mendonça, atualmente Superior do convento franciscano de São Bernardino em Câmara de Lobos.

A 29 de dezembro, ainda em 2004, o Bispo do Funchal nomeou a Comissão Histórica do Processo com a seguinte constituição: D. António Montes Moreira, Bispo diocesano de Bragança-Miranda, doutor em Teologia Histórica pela Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) e professor jubilado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, como Presidente. Irmã Otília Rodrigues Fontoura e Dr. Duarte Miguel Barcelos Mendonça, técnico superior da Biblioteca Municipal do Funchal, licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, mestre em Cultura e Literatura Anglo-Americana, conceituado investigador da imprensa regional da Madeira de fins do século XIX e princípios do século XX e autor de dez obras de temática regional. 

Cumpridos os demais requisitos canónicos prévios, a sessão de abertura do Processo diocesano realizou-se a 29 de dezembro de 2006 sob a presidência de D. Teodoro de Faria no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade que celebrava nesse ano o 75º aniversário de fundação. 

Em 2007 a Irmã Otília Fontoura e o Dr. Duarte Mendonça publicaram a segunda edição dos escritos de Madre Virgínia, valorizada com abundante documentação recolhida na imprensa madeirense sobre acontecimentos da vida eclesial do tempo de Madre Virgínia. 

A atividade da Comissão Histórica sofreu um compasso de espera devido ao falecimento da Irmã Otília Fontoura a 26 de novembro de 2007 e pela circunstância de o Presidente só ter podido dedicar-se a este encargo depois de terminada a sua missão pastoral na diocese de Bragança-Miranda a 2 de outubro de 2011. 

Entretanto, para substituir a Irmã Otília Fontoura, a 24 de fevereiro de 2010 o Bispo do Funchal D. António Carrilho nomeou a Drª. Maria Favila Viera da Cunha Paredes, licenciada e pós-graduada em Ciências Documentais, arquivista do Arquivo Regional da Madeira e destacada para prestar apoio técnico no Arquivo Histórico da Diocese do Funchal. Por seu turno, o Dr. Duarte Mendonça procedeu a uma primeira revisão dos documentos publicados na referida edição de 2007. 

O relançamento do trabalho da Comissão Histórica deu-se em 2012 na sequência da primeira reunião plenária da mesma, efetuada a 10 de abril na Cúria Diocesana do Funchal sob a presidência de D. António Carrilho. Nessa altura chegou a pensar-se em concluir a tarefa em 2014, na celebração dos 500 anos da criação da Diocese do Funchal. A necessidade de apreciar cuidadosamente a abundante documentação recolhida, nomeadamente os manuscritos de Madre Virgínia, mostrou depressa que tal previsão era irrealizável.

“À última hora, em setembro do ano passado, descobriu-se um segundo grupo de manuscritos da Madre no Arquivo da Congregação Romana da Doutrina da Fé, que tinham sido enviados para lá em 1923 pelo Bispo do Funchal D. António Manuel Pereira Ribeiro”.

2. Que pesquisas foram necessárias para a elaboração deste Processo? Sabemos que no ano passado, foram descobertos novos documentos importantes, que documentos foram esses…

D. António Montes Moreira –  A Comissão Histórica fez pesquisas em vários Arquivos e Bibliotecas.

O espólio literário de Madre Virgínia, conservado na casa de família ao Lombo dos Aguiares e depois transferido para o Paço Episcopal, contém um acervo considerável de manuscritos de sua autoria, nomeadamente 383 comunicações ao seu confessor, Pe. João Prudêncio da Costa. À última hora, em setembro do ano passado, descobriu-se um segundo grupo de manuscritos da Madre no Arquivo da Congregação Romana da Doutrina da Fé, que tinham sido enviados para lá em 1923 pelo Bispo do Funchal D. António Manuel Pereira Ribeiro. São 147 documentos entre os quais avultam 140 comunicações ao confessor e sobretudo a Autobiografia da Serva de Deus, um volumoso texto de 70 páginas de formato A4. Esta documentação permitiu completar e estabelecer a data precisa de bastantes manuscritos do espólio de Madre Virgínia guardado no Lombo dos Aguiares. Por outro lado, a Autobiografia esclareceu e corrigiu diversos pontos obscuros ou erróneos das biografias tradicionais. A mais notória é a data de entrada no convento das Mercês; não foi aos 16 anos, mas a 24 de fevereiro de 1882, com 21 anos de idade.

A Comissão Histórica fez consultas noutros arquivos e bibliotecas da Igreja: Arquivo Histórico Vaticano, tutelado por D. José Tolentino Mendonça, Arquivo Histórico da Diocese do Funchal, Arquivo da Paróquia de Santo António no Funchal, Biblioteca do Seminário Diocesano do Funchal e Arquivo da Província Portuguesa da Congregação das Irmãs da Apresentação de Maria em Setúbal, que guarda o original de uma carta de Madre Virgínia. 

A recolha documental ficou mais avantajada com a pesquisa em três instituições civis: Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, que conserva documentação relativa ao património do convento das Mercês, Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira, que guarda os volumes do cartório do convento das Mercês, os livros de registo da paróquia de Santo António com assentos relativos a Madre Virgínia e seus familiares e o registo civil do seu óbito, e a Biblioteca Municipal do Funchal, bem provida de exemplares da imprensa periódica madeirense.

Paralelamente à elaboração do Relatório, a Comissão Histórica organizou o Arquivo do Secretariado de Madre Virgínia. O núcleo central deste arquivo é composto pelos originais ou cópias dos manuscritos do espólio da Serva de Deus e por fotocópias, quase sempre autenticadas, da documentação recolhida nos supramencionados arquivos eclesiásticos e civis. Cada capilha deste arquivo contém o original ou a cópia de um manuscrito da Madre e, em caso de documento de distinta procedência, o original ou a fotocópia do mesmo. Por vezes, incorporou-se documentação relacionada com o assunto versado na capilha.

3. Em traços gerais pode explicar o conteúdo do Processo? 

D. António Montes Moreira – O Relatório da Comissão Histórica consta de cinco capítulos – Preliminares, Documentação, Biografia, Virtudes e Fama de Santidade da Serva de Deus – e de um Anexo com a digitalização de todos os originais de Madre Virgínia e de mais alguns documentos.

O capítulo II apresenta abundante documentação. É o mais extenso do Relatório, com 1505 páginas, e compreende as 14 secções seguintes: documentação sobre o mosteiro das Mercês (45 documentos), documentação sobre a família da Serva de Deus (12 documentos), documentação sobre a Serva de Deus (12 documentos), escritos da Serva de Deus (autobiografia, 19 orações e 526 comunicações ao confessor), correspondência da, para e sobre a Serva de Deus (50 cartas), impressos do Imaculado Coração de Maria (8 documentos), textos relativos ao culto dos Sagrados Corações de Jesus e Maria (26 documentos), a Serva de Deus na imprensa (33 documentos), divulgação da vida e mensagem da Serva de Deus (31 documentos), depoimentos sobre a Serva de Deus (20 documentos), graças atribuídas à Serva de Deus (79 documentos), bibliografia sobre a Serva de Deus (30 documentos), biblioteca da Serva de Deus (1 documento) e fotografias (23 retratos).

O capítulo III desdobra a biografia de Madre Virgínia em três períodos: até à entrada nas Mercês (1860-1882), no Convento (1882-1910) e depois da expulsão das Mercês pela República (1910-1929). A exposição sobre os dois primeiros períodos segue de perto a autobiografia da Madre. 

Em conformidade com as orientações da Congregação das Causas dos Santos para a elaboração dos Processos Diocesanos, o capítulo IV apresenta a santidade de Madre Virgínia refletida na prática das virtudes teologais (fé, esperança e caridade), cardeais (prudência, justiça, fortaleza e temperança) e na vida religiosa (castidade, pobreza, obediência e humildade). Em seguida, destaca-se o escondimento como traço fundamental da personalidade da Serva de Deus e apresentam-se as linhas marcantes da sua vivência espiritual, a saber: união esponsal com Jesus, familiaridade filial com Nossa Senhora, zelo ardente pela libertação das almas do purgatório, inserção paroquial e diocesana, presença constante dos anjos e oposição frequente do demónio. Salientam-se igualmente as devoções e associações de piedade iniciadas, promovidas ou praticadas pela Madre: Guarda de Honra ao Sagrado Coração de Jesus, homenagens de Adoração, Amor e Reparação ao Sagrado Coração de Jesus, Discípulos do Sagrado Coração de Jesus, culto público e universal ao Imaculado Coração de Maria, Confraria do Santíssimo e Imaculado Coração de Maria, escapulário do Imaculado Coração de Maria, Primeiros Sábados, Filhas de Maria, Guarda de Honra do Imaculado Coração de Maria e construção de um templo ao Imaculado Coração de Maria na cidade do Funchal. A concluir, apresenta-se um esboço de apreciação global da experiência religiosa da Serva de Deus.

O capítulo V analisa a fama de santidade de Madre Virgínia em três momentos: em vida, depois da morte e na atualidade.

As cerca de 3300 páginas da documentação digitalizada facultam ao leitor um contacto mais direto com os originais dos escritos de Madre Virgínia. São um testemunho de autenticidade. Deve-se ao Dr. Duarte Mendonça todo este meticuloso trabalho de informática.

“Em colóquio místico de 4 de setembro de 1913 Jesus confidenciou-lhe: ‘Sabes, minha simples, onde é o meu paraíso? O meu paraíso é o teu coração amante que sofre sempre por meu amor…'”

4. Concluída a fase diocesana, o que se segue? Para onde irá o Processo e como será o seu desenvolvimento?

D. António Montes Moreira – Concluído o Processo Diocesano a Causa transita agora para a fase romana. 

A Congregação das Causas dos Santos decidirá em primeiro lugar sobre a validade jurídica do Processo Diocesano. Se o veredito for positivo, como se espera, designar-se-á um perito para elaborar a Positio, ou seja, um volume que, aproveitando o material do Processo Diocesano, retomará a biografia, as virtudes e a fama de santidade da Serva de Deus para apreciação por três instâncias da Congregação das Causas dos Santos: 

Consultores históricos, para julgar se a pesquisa documental foi realizada devidamente e de forma completa e se merece credibilidade histórica; 

Consultores teólogos, para emitir um primeiro juízo global sobre a santidade da Serva de Deus;

Cardeais e Bispos, para um juízo final sobre a santidade da Serva de Deus.

Se o pronunciamento dos Cardeais e Bispos for favorável, o Santo Padre mandará publicar o decreto de reconhecimento das virtudes de Madre Virgínia. A partir desse momento recebe o título de Venerável.

5. O que nos pode dizer sobre a vida da Madre Virgínia e as suas virtudes e fama de santidade?  

D. António Montes Moreira – A busca da união com Deus marcou a linha de rumo da caminhada espiritual de Madre Virgínia dentro e fora do convento. Em colóquio místico de 4 de setembro de 1913 Jesus confidenciou-lhe: “Sabes, minha simples, onde é o meu paraíso? O meu paraíso é o teu coração amante que sofre sempre por meu amor, é o coração de todas as almas que me dão honra e glória; são o meu paraíso onde tenho as minhas delícias” (documento nº 122 do Relatório).

Um testemunho impressionante da santidade da Madre foi dado por seu sobrinho João Agostinho da Silva, “a quem amava muito” e que “na última noite que passou neste mundo” lhe disse: “Tia, deixe-me beijar-lhe as mãos, pois sei que são as mãos de uma santa” (documento nº 56).

Conhecedor da fisionomia interior da Serva de Deus, cuja direção espiritual assumira em 1911, o Pe. Prudêncio, em carta ao Papa Bento XV de 24 de setembro de 1920, assevera que “a sua vida tem decorrido sempre numa íntima e perfeita união de amor com Deus” e que “esta bela alma jamais perdeu a graça santificante” (documento nº 644).

O Bispo do Funchal D. António Pereira Ribeiro, em duas cartas ao Encarregado de Negócios da Nunciatura Apostólica em Lisboa, Mons. Benedetto Aloisi Masella, manifesta igual entendimento: a 1 de agosto de 1915 declara “estar convencido” de que Madre Virgínia “é não só uma alma muito simples, humilde e obediente, mas uma alma verdadeiramente privilegiada, introduzida por Deus em vias extraordinárias desde pequenina” (documento nº 636) e, a 1 de novembro de 1917, acrescenta que “o tempo decorrido até hoje não tem feito senão confirmar-me cada vez mais nesse juízo” (documento nº 638).

“Se o pronunciamento dos Cardeais e Bispos for favorável, o Santo Padre mandará publicar o decreto de reconhecimento das virtudes de Madre Virgínia. A partir desse momento recebe o título de Venerável”.

6. Para quando podemos esperar a beatificação da Madre Virgínia? Enquanto aguardamos o que podemos fazer? 

D. António Montes Moreira – A execução dos procedimentos indicados no número quatro supõem um período algo prolongado. Além disso a existência de numerosas Causas para estudo pela Congregação obriga a respeitar uma compreensível lista de espera. Finalmente, a Beatificação, além do reconhecimento das virtudes, requer a aprovação de um milagre por intercessão de Madre Virgínia como sinal divino a confirmar o reconhecimento eclesial da sua vida de santidade. Enquanto aguardamos, podemos e devemos rezar por esta intenção e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade da nossa vida cristã.