‘Sábados da Criação’: Santa Luzia acolheu Oração Ecuménica

Foto: Duarte Gomes

O adro da igreja de Santa Luzia acolheu no sábado, dia 18 de setembro, a primeira de várias iniciativas que vão ser promovidas pelo “Projeto Akustica”, no âmbito do tempo da Criação, que se iniciou a 1 de setembro e se prolonga até 4 de outubro.

Neste primeiro ‘sábado da Criação’, assim se denominam duas das atividades, foi tempo de Oração Ecuménica, que contou com a presença do bispo do Funchal e juntou ainda representantes de outras confissões, nomeadamente a pastora Ilse Berardo, em representação da Igreja Evangélica Luterana Alemã, o pastor Jorge Gameiro, da Igreja Presbiteriana da Madeira e o Pe. Michael Jarman, representante da Igreja Anglicana.

Depois da leitura do Livro dos Génesis (Gn 18, 1-14), que relata o episódio em que Deus diz a Abraão que, apesar da sua idade, Sara sua esposa será mãe, cada um dos responsáveis apresentou a sua reflexão, a começar pelo Pe. Michael Jarman. Este principiou por explicar que a questão que se nos coloca da leitura desta passagem é se haverá impossíveis para o Senhor. 

O Novo Testamento, assim como o Antigo Testamento, lembrou, estão cheios de passagens que nos mostram que “nada é demasiado difícil ou impossível para Deus”. Depois de dar alguns exemplos, acrescentou, no entanto, que a “consciência e compreensão da grandeza de Deus, do seu poder e amor por nós e pela sua criação é limitada pelos constrangimentos do nosso próprio cérebro”.

Por outras palavras, as pessoas não entendem algumas das histórias magníficas acerca da grandeza de Deus que estão contidas na Bíblia, porque “consideram esses acontecimentos dentro dos confinamentos da sua própria humanidade”. E “nós não podemos fazer isto, porque se trata de Deus e não de humanidade”, frisou o Pe. Michael para logo acrescentar que “é aqui que entra a fé”, a fé que é pedida aos crentes e que “os distingue dos não crentes”.

Chama de esperança

Seguiu-se a reflexão de Ilse Berardo. A pastora da Igreja Evangélica Luterana Alemã começou por se referir aos tempos que temos vivido e como uma pandemia pode alterar as regras e as rotinas do nosso dia a dia e levar, como foi o caso, “à paralisação de vários sectores” e “ao desespero de muitas pessoas”.

“Todos os planos e programas, pessoais e coletivos, foram anulados e sentimo-nos muitas vezes entregues à verdadeira incerteza do dia de amanhã”, disse. Porém e apesar dos “acontecimentos assustadores da pandemia”, Ilse Berardo acredita que se “acendeu dentro de nós uma chama de esperança”. A esperança que é “o maná, o pão e o vinho para a nossa alma e o dom da sobrevivência do criador para a sua criação”.

No entanto, sublinhou, “a esperança não vê o horizonte como um fim, mas sim como o princípio de algo novo”. É “uma orientação do espírito, do coração e não apenas a convicção de que algo dará certo, mas a certeza de que algo faz sentido, independentemente dos seus resultados”.

Esta força da esperança é relatada em muitos episódios da Bíblia, como é o caso daquele que nos falava o Evangelho. De resto, “o ser humano vive desta força divina, a esperança para a mudança, nada fica como era, mesmo depois de uma paragem no tempo”. É que, “o criador continuou a estar presente e ativo na sua criação” e nós somos “chamados a mostrar abertura suficiente para as mudanças criativas” e para “uma vida mais pacífica e mais construtiva, também para com o nosso próximo e na sua diferença”.

“É a nós que compete mostrar uma conduta mais responsável, fora e dentro de casa para um ambiente são e salvo, disse ainda a pastora, lembrando que “o ambiente deve ser tratado com respeito” e não deve ser “alvo de exploração”, mas gerido com responsabilidade, pensando no bem comum.

Deus que nos toca

Já o pastor Jorge Gameiro lembrou que o pano de fundo da passagem que foi lida “não é o judaísmo, mas o pré-judaísmo” com “um problema por resolver, que é o problema da morte”. Abraão, explicou, “dá toda a importância à descendência porque não há ressurreição” e acaba por ser “surpreendido por um Deus que nós não conhecemos, absolutamente tocável, que se manifesta na forma de três homens, que está muito próximo e que irrompe na nossa existência e nas nossas impossibilidades e melhora tudo à nossa volta”.

Perante o facto de ser mãe Sara ri-se e por aqui se vê que “Deus às vezes tem humor na forma como nos trata e se aproxima de nós”. Mas, mais do que isso, este Evangelho mostra-nos que “a impossibilidade é completamente ultrapassável pela vontade de Deus”, porque “a Deus nada é impossível”.

É este Deus, disse o representante da Igreja Presbiteriana da Madeira que “nos toca nos momentos de impossibilidade, em que já não acreditamos e já não temos qualquer esperança”. 

“Quando hoje olhamos para o nosso mundo e pensávamos que a pandemia nos ia trazer um bem-estar maior, que as pessoas iam ser mais compreensivas e se iam ajudar cada vez mais, percebemos que o egoísmo continua todo cá, mais a pandemia, constatou o pastor para logo acrescentar que “neste tempo, que é um tempo de desilusão”, não é fácil encontrar a esperança. Porém, temos de a procurar “naquilo que que não existe, naquilo que vai existir, naquilo que vai nascer”.

Olhar para a nossa vida como “uma vida finda, em que quase não há ressurreição”, talvez seja também uma forma de encarar o futuro e a ideia de continuidade, de que “vamos continuar através do outro”. 

De resto, frisou, “nada será impossível para nós caso tenhamos a esperança, caso tenhamos a fé necessárias”, sendo que o nosso caminho poderá ser “o da reconciliação não apenas com o homem, mas com a natureza” que, por nossa culpa, está indomável e nos tem surpreendido das piores maneiras e que nos deveria fazer pensar se “não estamos a criar filhos e netos para o sofrimento”, num mundo hipotecado. 

“Nós, as Igrejas, que tão pouco falamos sobre a questão ambiental, talvez tenhamos de tocar nesta tecla cada vez mais e ter um aprofundamento da nossa forma de refletir”, disse ainda Jorge Gameiro, que concluiu afirmando que as Igrejas, por sua culpa, ainda têm o palco necessário para veicular as suas ideias”.

Acolhimento converte

Por fim, coube a D. Nuno Brás terminar com a sua reflexão em forma de louvor este momento de oração. Assim, o bispo do Funchal começou por “louvar e agradecer ao Senhor, antes de mais nada, por este momento que Ele nos dá, este momento de comunhão, este momento de oração em conjunto”.

Depois D. Nuno Brás louvou o Senhor “pelo testemunho que a própria natureza dá de Deus”, lembrando São Francisco de Assis que chegou a “pedir às plantas para se calarem porque já não era capaz de receber tanto louvor de Deus que brotava da própria natureza”.  A propósito acrescentou que “verdadeiramente não podemos deixar de louvar o Senhor, porque por meio da Natureza Ele nos dá provas da sua existência, do seu amor assim tenhamos nós esta capacidade, esta abertura, estes olhos físicos e da fé para o entendermos”.

Em terceiro lugar, o bispo Diocesano apresentou “um louvor porque a palavra de Deus vem até nós e diz que aquele que acolhe a Deus nunca fica na mesma”. Referia-se a Abraão que “teve a coragem de acolher Deus”. O acolhimento, disse o prelado, é sempre “uma atitude que nos converte e “faz nascer em nós esta esperança que apenas Deus pode semear no nosso coração”.

“Finalmente, o louvor de Deus brota também, de uma forma muito agradecida e muito intensa, porque temos no meio de nós o pastor Jorge literalmente arrancado das garras da morte”, frisou D. Nuno Brás, para logo acrescentar que “isso não pode deixar de fazer brotar em todos um grande louvor”.

A concluir esta Oração ecuménica, D. Nuno Brás pediu aos presentes que louvem o Senhor no seu coração, com a sua vida, porque “o sentimos assim tão perto, tão próximo de nós e recebamos este Senhor que está mais próximo do que esteve com Abraão e deixemos que no nosso coração a sua promessa dê frutos”.