O Evangelho sem descontos 

D.R.

S. Francisco de Assis viveu num tempo muito semelhante ao nosso, ainda que, obviamente, sem as tecnologias e os nossos meios de comunicação. 

O tempo de S. Francisco — a Europa de finais do século XII e princípios do século XIII — há muito que tinha abandonado a preocupação pela mera sobrevivência. A Idade Média estava no seu auge: acabados os séculos duros das invasões bárbaras, assente o cristianismo como modo de articular toda a sociedade, a prosperidade começou a instalar-se, as universidades começaram a florescer, o comércio começou a desenvolver-se, a Igreja não tardou a engordar.

A célebre “reconstrução da Igreja” que o Crucificado de São Damião pediu a Francisco e a revolução que se seguiu — porque se tratou de uma verdadeira e própria revolução, que mudou pacificamente todo o modo de viver europeu! — assentaram numa realidade: procurar viver o Evangelho de um modo radical. A pobreza franciscana, que tanto nos fascina hoje, teve aqui a sua origem.

Viver o Evangelho sem “descontos”, “mas”, “ses”… o grito de S. Francisco de Assis continua essencial nos nossos dias.

Muitas vezes dá-me a sensação de que olhamos para o Evangelho como para uma flor bonita: gostamos de o ouvir, não hesitamos em apelar a que todos o cumpram, mas não estamos disponíveis para a conversão — para a nossa conversão. Achamos, afinal, que o Evangelho é muito bonito, e que foi bom para Jesus e os Apóstolos, mas que, no dia de hoje, é completamente impraticável, pelo que não hesitamos em esquecê-lo na primeira oportunidade. 

E não temos qualquer problema em nos continuarmos a declarar cristãos!