Dia da Cidade: Cónego Fiel diz que há que erradicar os vírus interiores que nos impedem de levar uma vida mais leve 

Foto: Duarte Gomes

O cónego Fiel de Sousa presidiu na manhã de sábado, dia 21 de agosto, à Eucaristia com a qual se iniciaram as comemorações dos 513 anos da Cidade do Funchal. Uma oportunidade para o vigário geral da diocese falar da necessidade, neste começar de uma nova etapa em que estamos a deixar para trás os efeitos da pandemia, de se erradicar não só o vírus que causa a doença, mas também “tantos vírus interiores que nos impediram e impedem de levar uma vida mais leve, mais realizável e alegre”.

Na homilia desta celebração, que contou com a presença das principais autoridades Municipais, e representantes das principais entidades regionais, o cónego Fiel começou por frisar “que o mais importante de uma cidade não são as suas muralhas, mas as pessoas que vivem dentro delas” e que por isso “projetamos esta data num futuro que esperamos seja sempre de crescimento em todas as vertentes da vida dos funchalenses”.

Depois de constatar que há quem faça “tábua rasa do nosso passado” e quem goste de “realçar somente aquilo que foi realizado, segundo os nossos gostos, sentimentos e opções pessoais ou ideológicas esquecendo que somos um todo coletivo, quer nas sombras quer nas luzes destes séculos passados”, o cónego Fiel de Sousa salientou que celebrar o dia da cidade é celebrar a coletividade e a cidadania de uma história que se quer cada vez mais nobre e leal aos princípios que regem a vida e com ela a dignidade e qualidade do viver de todos os funchalenses”.

Neste contexto, o vigário geral disse estar certo de que todos os projetos para a cidade, venham eles de onde vierem, devem assentar e alicerçar todas as suas condutas “na paz, tranquilidade e segurança de quem nela vive”.

Depois de lembrar que “o viver dos funchalenses esteve sempre marcado por três amigos, mas também inimigos. O mar e com ele os corsários, a água e com ela as aluviões e o fogo e com ele a destruição das florestas e dos haveres pessoais” e que “a Madeira nunca teve grandes estruturas de defesa”, o cónego Fiel sublinhou que, sem muralhas, o Funchal sempre foi “um anfiteatro aberto ao mundo, com todas as consequências negativas ou positivas que isso acarreta”.

Por temperamento, explicou, o funchalense pode ser “fechado” por ser um ilhéu, mas é também “um cosmopolita”, que aprendeu a não criar “muros e barreiras interiores, como defesa e distanciamento a quem nos visita”. Na verdade, somos “uma cidade acolhedora e hospitaleira”, que tem nas suas gentes a sua grande mais valia.

É nessas pessoas, no seu bem-estar, que devem pensar todas as organizações políticas e sociais, cujos projetos e programas devem estar alicerçados “numa sabedoria e numa inteligência assente na humildade e na aceitação de todos, porque todos somos funchalenses”, tornando assim o viver de todos os cidadãos do Funchal mais “respirável e leve”. Um lugar onde “não só os que nos visitam encontram descanso, mas também todos os que habitam a nossa cidade”.

Por outras palavras, os diferentes projetos que são propostos por aqueles que conduzem os destinos da cidade e da ilha “devem ser pautados pelo modelo que é Jesus Cristo, isto é, não devem subjugar, mas suavizar, não devem carregar, mas libertar, porque “a vida não é um mar de rosas, mas também não pode ser um roseiral sem rosas”.

E se antes da pandemia já existiam problemas e dificuldades, agora agudizaram-se ainda mais levando ao “descompromisso do gostar de viver e de sentir o cheiro aromático que a vida bem vivida e realizada possui”, constatou o cónego Fiel, que defendeu a necessidade do Funchal continuar a dar mostras de estar na linha da frente, “não com grandes muralhas de defesa, mas sim com um coração enorme, que todos alberga”.

Acontece que, frisou, “não podemos oferecer aos outros aquilo que não temos entre nós”. Daí a necessidade de “criarmos todos os meios para que em primeiro lugar os residentes se sintam bem” e se sintam “motivados a estar na linha da frente com todas as consequências que isso acarreta”.

“Deste modo libertaremos esta tendência de viver num mundo desmotivado, que mais parece um roseiral sem rosas, tornando o nosso viver mais leve”, disse o vigário geral para logo acrescentar, a concluir a sua reflexão, que “somos todos convidados a viver e a transmitir esperança a este mundo tão carente de razões para viver”.