Miguel Torga: Nascido a 12 de Agosto de Agosto de 1907

D.R.

Nada nem ninguém é fruto dum tempo abstracto mas de factos e circunstâncias que se conciliam, formam, transformam e às quais o ser humano, mesmo lutando contra elas, não as pode ignorar ou, de todo, fugir-lhes. 

O jovem Adolfo, transmontano modesto, parece destinado à morte lenta da vida rústica e miserável praticada no lugar onde nascera. É então que a carreira eclesiástica se apresenta a seu pai como uma saída feliz para este estigma.

Mas, agrilhoado pela austeridade do dogmatismo religioso e sufocado pelo horizonte confinado que, à época, lhe era incutido, rompe as barreiras do seminário e evade-se do cerco em que se sentia asfixiar.

Garoto desencantado do religioso, ruma ao Brasil em busca da felicidade desejada, mas o sonho das américas, tão em voga no seu tempo, não passou de uma aventura plena de dor e decepção que, graças ao seu temperamento obstinado e imperioso, lhe servira de mote para se lançar à conquista de um novo modelo de homem.

Já na cidade que o havia de acolher para sempre, luta desesperadamente por recuperar o tempo perdido, estuda sem conta nem medida e lança-se em voo nobre de falcão da serra a concretizar a sua ambição: fez-se médico, mas ergueu-se como poeta.

Estuda e trabalha como obrigação social, mas a poesia será a sua outra metade, a mais nobre e mais amada, a qual abraçará até à morte com garras de paixão. Ela será também a sua única razão de viver. Amante da liberdade, esta foi sempre a sua grande opção, mas a insegurança e a tristeza jamais o abandonarão.

Triste e descorçoado, mas nunca vergado, a sua vida foi um extenso rol de perplexidades, gastou-se em busca da coerência entre o sagrado e o profano, nessa luta plena de “revolta perante o criador e amante incondicionado das criaturas”, enigma que se consumiu por decifrar.

Espírito independente e de temperamento a rondar o agressivo, foi um solitário lutador em busca do eterno religioso, num misto de amor e ódio face à ânsia de eternidade que lhe assolava a alma, numa vertigem telúrica de transformar as fragilidades precárias da existência em substâncias etéreas, em realidades com foros de imortalidade.

A sua poesia foi uma busca intermitente do amor divino, povoada de encontros e desencontros com esse “Deus – o pesadelo dos seus dias, que sempre teve a coragem de negar mas nunca teve a força de O esquecer”.

Hoje paira sobre nós a incógnita se Miguel Torga conseguiu ser um cidadão do Céu; mas que se converteu num mito divino para as felizes criaturas que, como nós, têm a dita de se poder debruçar, contemplar e explorar o extenso universo por ele esculpido, é uma certeza que nos habita.