Sem documentos

Foto: REUTERS/Yves Herman

A igreja de São João Batista, no centro de Bruxelas, tornou-se nos últimos 60 dias a “casa de acolhimento” de 257 migrantes ilegais, os chamados “sans-papiers” (“sem documentos”), que em “grito de desespero” fizeram greve de fome para que lhes fosse reconhecida uma autorização de residência válida. Para além da igreja, dois campus universitários também foram ocupados por quase duzentas pessoas na mesma situação. 

O padre Daniel Alliet, 80 anos, responsável por esta igreja, é um defensor fervoroso dos migrantes sem documentos: “Nós lutamos por eles,  pelos seus direitos. Eles construíram as suas vidas aqui. Temos que parar de torná-los invisíveis, isso não pode continuar”. 

Mohammed chegou à Bélgica há 17 anos. Trabalhou legalmente, mas diz que o seu patrão não declarou todas as horas e por isso ficou numa situação ilegal, tendo sido expulso em 2017. “Tenho toda a minha vida aqui. Tenho mulher, filhos, trabalho e casa”, disse. 

Muitas destas pessoas vivem e trabalham há muitos anos no país, mas não possuem documentos válidos devido a procedimentos de regularização pouco claros e justos. 

“Somos como cadáveres, carcaças ambulantes. O que querem que façamos? Já estamos mortos. Sem documentos não podes fazer nada”, disse um destes migrantes.

Desde o início da pandemia, várias organizações e personalidades pediram ao governo belga que retome o diálogo com os “grevistas” para a sua regularização, como é o caso do texto intitulado “Morrer pelos documentos” publicado no jornal “Le Soir”.

“A crise da saúde atingiu duramente a economia informal em que vivem os migrantes sem documentos. Muitos dos que trabalhavam, por exemplo, em restaurantes, já não têm rendimentos”, referiu um membro do Movimento Operário Cristão de Bruxelas. 

Sammy Mahdi, secretário de estado para a migração e asilo, declarou que estas pessoas “não têm o direito de permanecer”. Uma jornalista respondeu: “também antigamente as mulheres não tinham direito de voto, os trabalhadores não tinham direito a férias, os escravos não tinham direito à liberdade. A luta contra a discriminação com base no estatuto administrativo já se arrasta há décadas, na Bélgica como em outros lugares”.

Após novas conversações com os serviços de imigração, a greve foi suspensa na quarta-feira. 50 migrantes foram hospitalizados. “Alguns deles tiveram de ser tratados em unidades de cuidados intensivos, em particular por causa de problemas renais”, referiu Michel Genet, diretor da ONG “Médicos do Mundo” na Bélgica.