“Eu quero ser bálsamo para tantas feridas”

O diácono João e o José Alberto falam sobre a ordenação

No próximo sábado, dia 31 de julho, pelas 10 horas, na Sé, será ordenado um novo sacerdote para a diocese do Funchal, o diácono João Gonçalves e também um novo diácono, o seminarista José Alberto Fernandes. O Jornal da Madeira encontrou-se com os dois ordinandos no seminário diocesano para uma conversa sobre o significado da missão que vão receber. 

Pedras Vivas 25 de julho de 2021 (A4)

Pedras Vivas 25 de julho de 2021 (A3)

“Ser padre é um ostensório da vida de Cristo”

Entrevista ao diácono João Gonçalves

Diácono João Gonçalves | Foto: Jornal da Madeira

Ao aproximar-se o dia da ordenação sacerdotal, que sentimentos o invadem?

Diácono João – No caminho de discernimento vocacional vamos aprendendo a entender como é que a vida se cumpre e, neste sentido, ver aproximar-se o dia da ordenação sacerdotal, o dia que durante muitos anos foi um horizonte muito longínquo, é ver aproximar-se o dia em que eu me realizo, enquanto homem e enquanto cristão. É de uma alegria interior muito grande. 

Depois deste ano de diaconado, o que significa para si ser ordenado sacerdote? 

Diácono João – Citando o Papa Francisco, o diácono deve ser para a Igreja um ostensório da caridade, onde a caridade se realiza. Ser padre é um ostensório da vida de Cristo. Caridade e vida de Cristo não se contradizem. O sacerdote, na medida em que traz Cristo, em primeiro lugar pela Eucaristia, mas depois também pela vida entregue, une-se mais a Cristo, como pastor que quer cuidar, que quer zelar, que quer estar junto do bispo, junto das pessoas. O ostensório da caridade não se parte, mas agora se reparte em vidas concretas, em responsabilidades mais específicas na diocese. Tudo isso configurado com Cristo, pastor que vela. 

“Os vazios que nós temos vivido ao longo desta pandemia têm-se mostrado lugares muito fecundos, lugares de vida. Eu julgo que, numa sociedade como a nossa, uma sociedade europeia, o papel do sacerdote é ir a esses lugares vazios e trazer uma nova esperança”

Para si qual o lugar do sacerdócio no contexto histórico que estamos a viver. A sua ordenação ocorre em tempo de pandemia…

Diácono João – Os vazios que nós temos vivido ao longo desta pandemia têm-se mostrado lugares muito fecundos, lugares de vida. Eu julgo que, numa sociedade como a nossa, uma sociedade europeia, o papel do sacerdote é ir a esses lugares vazios e trazer uma nova esperança, uma nova alegria, uma nova cor que a mensagem do evangelho sempre quer transmitir. Julgo também ser importante olharmos para as palavras de Cristo: “Isto é o meu corpo entregue por vós”. Olharmos para essas palavras, não só no seu sentido dogmático, sacramental, mas também entender que essas palavras são um projeto de vida do sacerdote. São o guião de vida do sacerdote. Há uma autora que gosto muito, Etty Hillesum, que dizia: “Eu queria ser bálsamo para tantas feridas dos nossos tempos”, e ela dizia isto no século XX, depois dos terrores do holocausto. Eu acho que hoje isto também é um guia para o sacerdote: Eu quero ser bálsamo para tantas feridas. 

A sua tese de mestrado fala sobre “pensar e acreditar depois de Auschwitz”. Esta tese marcou-o?

Diácono João – Sim. Não se entra a estudar, a pensar o que se passou no Holocausto, de ânimo leve, e não se sai igual como se entrou. E pensar o que foi o Holocausto e o problema de Deus nesse sofrimento, transformou-me. Obrigou-me a ir mais fundo. Eu escolhi este tema porque estou certo que este é um dos temas quer faz com que pessoas acreditem e faz com que pessoas deixem de acreditar. “Se Deus existe e é bom e omnipotente, porque é que existe o mal?”. “Se Deus existe, porque é que permitiu o Holocausto? Na minha tese foi esta a pergunta que eu tentei abordar. 

Considera importante o diálogo com os não crentes? 

Diácono João – Como crente tenho aprendido que questionar a fé não é só uma coisa de não crentes. A fé precisa de ser razoável e a razoabilidade de qualquer coisa se encontra de modo mais excelente por meio das perguntas que somos capazes de fazer. Aos outros, a nós próprios e, noutro plano, a Deus também. Sem dúvida, é importante nós estabelecermos pontes. Temos que ser fautores de diálogo, encontro de fraternidade. Precisamos de ouvir, de aprender. O Cristianismo ao longo de dois milénios, se calhar teve uma pergunta só: “O que é a verdade?”. Essa pergunta continua a ser importante para nós, hoje. Então, essa indagação tem de ser considerada. Hoje, numa sociedade tão plural, só se consegue responder escutando, partilhando, refletindo com outros, mesmo que muito diferentes que nós. 

“O Cristianismo ao longo de dois milénios, se calhar teve uma pergunta só: “O que é a verdade?”

Considera que a teologia tem uma palavra a dizer sobre a história e sobre o homem?

Diácono João – Sim. D. Tolentino Mendonça frisava que todas as áreas do saber se debruçam, grosso modo, sobre as questões penúltimas da humanidade e a teologia, pela sua versatilidade e pela sua profundidade, debruça-se sobre as questões últimas. Independentemente da secularização, de uma sociedade afastada de um Deus tradicional, a sociedade nunca abandonou a ideia de Deus. O homem que aborda Deus, aborda-o a partir de si próprio. Isso permite chegar mais longe no que é um conceito transcendente, a estar atento ao que é imanente, às dimensões humanas. 

É por isso que a teologia, hoje, dá tanta importância à sociologia, à psicologia, a todas aquelas áreas disciplinares que contribuem para perceber o que é o homem. 

É possível falar de Deus no Holocausto? 

Diácono João – Resumidamente, é possível falar de um Deus humilhado, porque Jesus Cristo foi crucificado. A ideia de um Deus juiz, totalmente Outro, que não se imiscui com as dores humanas, tem de ser ultrapassada. A teologia da cruz ensina-nos que Cristo na cruz é a verdade humilhada, doada, esvaziada de qualquer sentimento de egoísmo. O Deus que esteve presente no Holocausto é um Deus humilhado. Se depois do Holocausto nós continuamos a rezar, foi porque também no holocausto se rezou. Se nós depois do Holocausto continuamos a acreditar, foi porque a teologia foi capaz de, pelo menos, formular as perguntas para que aquela dor imensa e a realidade que é Deus não entrassem num choque tal que nem sequer podíamos ponderar existir Deus, depois de ter havido o Holocausto. Etty Hillesum, e regresso a ela numa das suas orações, e já nos horrores do campo de concentração, é capaz de dizer: “Vou ajudar-te, meu Deus, a não me abandonares”. A verdade humilhada agora precisa de ser ajudada. 

“A teologia da cruz ensina-nos que Cristo na cruz é a verdade humilhada, doada, esvaziada de qualquer sentimento de egoísmo. O Deus que esteve presente no Holocausto é um Deus humilhado”.

Neste domingo, a Igreja celebra o primeiro Dia dos Avós e dos Idosos. Na dedicação da sua tese reparei que escreveu: “Ao meu avô Lino, aquele que me ensinou o amor pelas coisas belas”. Podia falar-nos sobre o seu avô? 

Diácono João – A frase não é totalmente minha. Eu ouvi a frase do António Lobo Antunes, em referência ao seu pai. O meu avô foi o primeiro a me ensinar o olhar. O meu avô tinha uma fazenda, tinha animais. Eu, desde muito pequeno, com 4 ou 5 anos, ia para a fazenda com ele. Foi a minha primeira lição de ecologia. Um homem que vivia em paz, em harmonia com as coisas da terra. Ele ensinava-me a olhar, a tratar os animais com bondade. Ensinava-me como é que as coisas nascem, se cultivam. O meu avô é uma daquelas pessoas que foi um criador. João Carlos Abreu dizia que um povo que construiu o seu futuro à beira do abismo, das falésias da Madeira, é um criador. E o meu avô vem daí. De raízes humildes de Santana, que trabalhou a terra mas que depois veio para o Funchal e teve outro trabalho, mas voltou àquelas raízes do trabalhar a terra, moldar a terra. Ele ensinou-me que a natureza é uma coisa belíssima e que nos ensina muito. Foi ele que me deu esta intuição muito bonita que trago até hoje, de que a natureza é o livro da criação, é um livro que também fala de Deus, as criaturas a falarem do criador. 

 

“O diácono deve ser misericordioso e serviçal nas suas ações pastorais”

Entrevista ao José Alberto Fernandes

José Alberto Fernandes | Foto: Jornal da Madeira

Como aconteceu a descoberta da vocação? 

José Alberto – Obrigado por esta oportunidade. O meu nome é José Alberto, sou natural de Campanário, e venho de uma família católica. A minha vocação teve origem numa sala de aula. Espontaneamente disse, surpreendendo a professora e os meus colegas: “Eu quero ser padre”. Não percebi porque é que disse aquilo. Na altura tinha 14 anos. Depois, a partir dali os meus colegas olhavam para mim de maneira diferente. Mais tarde senti vontade de ir para a igreja da Ribeira Brava. Foi lá que tive um encontro muito especial com Jesus no Santíssimo Sacramento. Participava na Eucaristia, fazia a leitura na liturgia e fui tendo uma ligação mais profunda com aquela comunidade, pois ficava perto da escola. Aos 17 anos comecei a interpelar-me, pois gostaria de ir para o seminário. Diante do Santíssimo disse: “Senhor Jesus, eu gostaria de ser sacerdote”. Nesse dia, um sacerdote que passou pela igreja dialogou comigo e perguntou-me o que queria ser eu disse: “Eu não sei exatamente, mas o que gostava muito era entrar no seminário”. E depois eu perguntei: “E quem é o senhor?” Ele respondeu: “Eu sou o padre que leva os rapazes para o seminário”. Era o padre Fernando Ribeiro. Em 2002 entrei como seminarista dehoniano para o 10.º ano. Fiz um percurso de três anos, após o 12.º ano fui para o Porto, para a comunidade, e fiz dois anos de experiência. Depois, fui percebendo que o Senhor me chamava para a minha terra natal, a ilha da Madeira. Entrei em contacto com a diocese, quem me recebeu, foi o padre Héctor e o Cón. Fiel. Solicitei ao bispo emérito, D. António Carrilho, e fui bem recebido. Fiz a caminhada de teologia aqui no instituto junto à Igreja do Colégio e, após esses dois anos, fui para o Seminário dos Olivais, onde completei até o 6.º ano. Nesse ano decisivo, eu, juntamente com a equipa formadora, decidimos a minha saída do seminário. Precisava de algum tempo para decidir melhor a minha vocação, esclarecer e fazer um grande discernimento vocacional, e ver se realmente era esta a caminhada que Jesus me chamava. Seis anos e meio depois solicitei novamente ao novo bispo, D. Nuno Brás, e foi bem-sucedida. Também me foi pedido que fizesse a dissertação, para concluir o meu curso teológico. 

De que tratou a sua dissertação? 

José Alberto – A dissertação teve como tema um padre muito conhecido na Madeira, o padre Manuel Juvenal Pita Ferreira. Foi pároco durante 18 anos em S. Gonçalo. Foi sobre a importância e o impacto pastoral que teve na diocese. O seu contributo, na dimensão pastoral, para a diocese do Funchal. Aquilo que mais o diferenciou na sua vida pastoral foi a catequese. Quando ele incrementou a catequese, juntamente com D. David, dos anos cinquenta para os anos sessenta, foi muito bem-sucedido. Teve uma pastoral extraordinária. Concedendo às comunidades novidades, outras práticas, outros métodos inovadores na época. Porque na altura ainda se utilizava aquela catequese de S. Pio X, de perguntas com respostas. E ele fez três fascículos sobre a catequese. Mas uma catequese virada mais para a reflexão. Isto naquela época era extraordinário. Fez outros trabalhos na área dos escuteiros, peças de trabalho para os jovens. Além de ser um grande pastor, foi também um grande historiador, mas essa última dimensão não aprofundei. 

Na proximidade da ordenação diaconal participou no retiro do clero. Como correu este retiro? 

José Alberto – O retiro foi realizado no Terreiro da Luta, com uma parte do clero da diocese. Conhecia os sacerdotes e senti-me bem. Realmente, fez-me sentir aquela atmosfera eclesial, de que um dia vou ser agregado ao presbitério. Todo o retiro foi um encontro muito especial com o Senhor, para perceber a importância do chamamento do Senhor para a sua igreja, o quanto ele precisa de mim. A seara é grande e os trabalhadores são poucos. Quero servir. Mesmo com as minhas imperfeições, com as minhas insuficiências, eu acredito numa coisa: No poder da graça de Deus. O próprio Espírito Santo completa a obra em nós. 

Para si, o que é ser diácono e qual o seu papel? 

José Alberto – Em primeiro lugar, ser diácono é a imagem de Cristo servidor. O diácono está consagrado ao serviço e à missão que a Igreja lhe confiou. No mês passado, o Papa Francisco teve um encontro com os diáconos de Roma. O diácono não é padre de segunda categoria, mas servo dos humildes. Fiquei impressionado com esta frase, porque a missão do diácono é ser humilde, ser servo, ao jeito de Jesus. O concílio Vaticano II explica que o ministério dos diáconos não está somente sujeito ao serviço litúrgico, mas ao serviço dos irmãos. O Papa fala de uma igreja em saída. Ir às periferias. Olhar com misericórdia e compadecer-se dos irmãos padecentes ou excluídos, ou seja, ir ao encontro dos necessitados e sofredores, ir às franjas da sociedade. E, para isso, temos que introduzir as palavras de força do Evangelho para iluminar, trazê-los à esperança de que Deus os ama. A essência da espiritualidade diaconal é a espiritualidade do serviço. O diácono deve ser misericordioso e serviçal nas suas ações pastorais. A mensagem do Papa aos diáconos falava exatamente da lógica de rebaixamento. Uma vez que somos chamados, devemos aprender a nos rebaixar, porque Jesus se rebaixou. Ele fez-se servo de todos. 

Estamos a vier o ano de São José. Qual é a característica que lh,e chama mais a atenção no pai de Jesus e esposo de Maria?

José Alberto – Em primeiro lugar, tenho uma predileção especial ao glorioso São José. Muitas vezes imploro muito na minha oração porque ele viveu o santo silêncio. Muitos vezes temos medo do silêncio. Com São José vivemos o silêncio, escutar Deus, ouvir a voz do Senhor para depois aplicarmos a vontade de Deus. Também vejo que São José é um grande guardião da Igreja, que soube zelar a Sagrada Família. Quero ser como São José. Ser guardião dos trabalhos da Igreja e cuidar da coisa mais sagrada, que é a Santa Eucaristia, onde está a presença de Deus que encarnou e habitou no meio de nós. 

Como última questão, que mensagem pode deixar aos jovens que se sentem chamados ao sacerdócio ou à vida religiosa?

José Alberto – Quando falo com os jovens gosto de apresentar a beleza da vontade de Deus. Digo para não terem medo de seguir Jesus, porque vale a pena. Ele tem grandes surpresas para cada um de nós e não vai roubar a nossa liberdade. Recordo as palavras de São João Paulo II: escancarar as portas, rasgar o nosso coração e permitir que Deus entre para moldar a nossa vida ao jeito da vontade de Deus.