“Tudo é de Deus e é para Deus”

Padre Ignácio Rodrigues reune 10 anos de composições em livro e CD

Na próxima quinta-feira, dia 29 de julho, pelas 19h30, será apresentado na igreja de Santo Amaro o livro e CD, “Hino a São Tiago Menor. Hinos e cânticos compostos para as comemorações dos 500 anos da Diocese do Funchal”, com uma seleção das principais composições do Padre Ignácio Rodrigues, relativas a diversos momentos pastorais que a diocese do Funchal viveu nos últimos 10 anos. O Jornal da Madeira falou com este sacerdote com formação musical em Roma e Paris sobre este livro e CD. 

Como é que surgiu o livro: “Hino a São Tiago Menor. Hinos e cânticos compostos para as comemorações dos 500 anos da Diocese do Funchal”? 

Padre Ignácio – Tudo partiu de uma promessa que tinha feito, de compor o hino a São Tiago Menor por ocasião das festividades dos 500 anos do Voto a São Tiago, padroeiro da Diocese e da cidade do Funchal. Inicialmente era só para compor o hino e uma possível gravação num CD no estúdio, para divulgar e cantarmos na diocese o hino a São Tiago Menor. Depois, para valorizar o CD, e tendo em vista que muito foi feito no passado, particularmente nos 500 anos da diocese e da catedral, e na visita da imagem peregrina, em ligação com a comissão para as festividades dos 500 anos da eleição de São Tiago Menor, surgiu a ideia de também introduzir os outros hinos e cânticos compostos para todas estas festividades, principalmente nestes últimos 10 anos. 

Ainda para valorizar mais este CD, surgiu a ideia de disponibilizar as partituras de uma forma mais cuidada e com uma revisão para esta edição, para saírem em conjunto. Por isso o livro contém também, na contracapa, o CD com 9 músicas. 

Em primeiro lugar é apresentada a partitura do Hino a São Tiago Menor para coro, para coro misto e órgão, para versão de uma pequena orquestra com flauta, trompete e órgão, e depois é apresentado o triénio de preparação dos 500 anos da diocese. O ano do Pai, do Filho, do Espírito Santo. Tive a preocupação de, em cada ano, compor o hino próprio e alguns cânticos.

Tivemos outros momentos fortes na nossa diocese, pastoral, que foi o hino sacerdotal, o hino da Virgem Peregrina, o hino dos 50 anos da criação das novas paróquias e também os 500 anos da catedral, que não foi propriamente um hino que compus, mas uma missa a dois órgãos. Depois, para este ano, foi composto o Ave Verum Corpus. 

Tudo isto foi vivido no tempo do D. António e por isso pedi ao bispo emérito que fizesse a apresentação do livro. Mais do que ninguém viveu tudo isto e acompanhou estas composições, dando sempre um incentivo.

Foto: Jornal da Madeira

Pedras Vivas 18 de julho de 2021 (A4)

Pedras Vivas 18 de julho de 2021 (A3)

Como é que foi gravar um CD em tempo de pandemia, quais os coros que participam e como foi feita a seleção das músicas escolhidas? 

Padre Ignácio – Nestes 10 anos eu tenho 1200 páginas de composição. O que encontramos neste livro é uma coisa mínima. Considerei estes hinos cantados nas celebrações do triénio e Virgem Peregrina e 50 anos das paróquias. Gravar um CD neste tempo de pandemia foi um pandemónio. Nos meses de janeiro e fevereiro, foi necessário ter em atenção todas as regras de prevenção da pandemia. A escolha dos coros e a gravação foi muito difícil. Os coros não podiam ensaiar livremente. Ao fim de semana, o confinamento era às seis da tarde e durante a semana às sete. Ninguém conseguia ensaiar. O coro de Câmara da Madeira e o “Lux Eterna” de São João da Ribeira Brava, ensaiavam à distância. Minimamente, podiam encontrar-se por naipes. Depois de terem o repertório para ensaiar para o CD, foi difícil poderem ensaiar. Para a gravação também os coros não podiam estar todos juntos. Começamos a gravar em abril. A gravação no estúdio teve de ser por naipes, deu muito trabalho. Irem os sopranos fazer o seu trabalho, irem os contraltos, irem depois os tenores e os baixos. Uns esperavam fora da sala de gravação, enquanto os outros gravavam. O Coro “Lux Eterna” eram nove pessoas, foi mais fácil. Foi preciso um grande entendimento, trabalho em conjunto. Para termos este resultado fizemos quase 20 horas de gravação, porque as pessoas tinham que ir por grupos. Não foi nada fácil. Eu agradeço a todas estas pessoas que estiveram presentes.  Para além dos Coros, há dois registos que são importantes de referir: O hino dos 500 anos da diocese, dirigido pelo maestro Filipe Veríssimo, que é o mestre de capela da Igreja da Lapa do Porto, com a orquestra Clássica da Madeira e o hino dos 50 anos das paróquias, que foi o coro “Flores de Maio”, dirigido pelo professor Virgílio Caldeira, que na altura disponibilizaram-se para fazer a gravação. Não tem a captação de som tão perfeita, mas fica como registo para o futuro desta participação. Se não fosse a situação de pandemia podia haver a participação de mais pessoas e mais coros. Mas fizemos o que foi possível. 

“Para termos este resultado fizemos quase 20 horas de gravação, porque as pessoas tinham que ir por grupos. Não foi nada fácil. Eu agradeço a todas estas pessoas que estiveram presentes”

Muitas das partituras que constam do livro são hinos. O que são os hinos e qual a sua importância?

Padre Ignácio – Eu já compus 27 hinos. Sobre a importância do hino, faz parte da história da Igreja, quando queremos festejar a memória de alguém ou de alguma efeméride, recorremos ao hino. Há uma mensagem que é escrita por um autor preparado. O hino reúne graças ou pedidos, no caso de São Tiago, é um agradecimento e também um pedido que nos oriente e que continue a nos proteger das pandemias. Por isso é como um canalizar de sentidos, numa unidade. Toda a diocese sintonizada num caminho, com uma mensagem. 

Com estes hinos presentes no CD há uma memória a preservar?

Padre Ignácio – Sim, há uma memória a preservar porque tudo isto foi vivido. Certamente as pessoas vão recordar todos estes momentos que viveram e participaram, como por exemplo, a visita da Virgem Peregrina no Largo do Colégio e tantas celebrações na Sé. São situações que não podemos esquecer, e que aconteceram na pastoral de uma diocese. A diocese viveu tudo isto, não pode cair no esquecimento. Cada pessoa, ao ouvir uma faixa deste CD, de certeza que vai olhar para trás e sentir o que sentiu na altura, cantar o que cantou na altura. O objetivo inicial foi este, ao fazer o livro e o CD, e o dar valor ao CD. Não sair só o hino a São Tiago. Significa que vale a pena recordar. Há um passado que não pode ser esquecido. 

O hino a São Tiago Menor é apresentado por naipes. Existe uma gravação na minha página na internet e que está a ser divulgado na página da diocese. Cada voz e cada naipe pode ouvir a música com instrumentação e ensaiar a sua voz, que é para facilitar, tanto os sopranos, a primeira voz. Isto, para que as paróquias possam participar. 

A primeira tentação é catalogar este livro, por ter só partituras, que é só para músicos. Mas não, porque também faz parte de uma história e o objetivo, ao introduzir o CD na contracapa, é nesta unidade. Não é só para músicos, a letra pode ser acompanhada. O primeiro objetivo deste livro é deixar uma marca histórica do que nestes 10 anos nós vivemos nesta diocese. 

Nos seus hinos e músicas litúrgica vemos a ligação entre a música e a letra. Como é que faz para que a música dê força à palavra e transmita a sua mensagem espiritual? 

Padre Ignácio – Estas músicas não são instrumentais. Há uma letra. A letra já tem uma musicalidade própria. Cada compositor tem uma sensibilidade própria, uma formação, um estilo próprio. Se fosse pedido a outro compositor, com certeza que sairia de outra forma. Cada um tem a sua experiência. Quando a letra, de certa forma, já tem qualidade, tem uma musicalidade própria. É feita em oração. Muitos autores rezam primeiro antes de fazerem as letras. Isto é o Espírito Santo a trabalhar. Não é só um acaso técnico. Dentro de uma beleza, de uma estrutura a quatro vozes, existe uma simplicidade porque a letra em si, já transporta uma simplicidade e uma profundidade, como vemos nas letras da Irmã Maria da Cruz. Compor a partir destas letras é quase 90 por cento do trabalho já estar feito. Eu não faço a música primeiro para depois encaixar uma letra. A riqueza da musicalidade já está na letra. 

“há uma memória a preservar porque tudo isto foi vivido… São situações que não podemos esquecer, e que aconteceram na pastoral de uma diocese”

Alguns dos seus hinos possuem uma composição salmódica. Porque esta opção? 

Padre Ignácio – Tudo depende da mensagem e do objetivo daquele hino. Para que finalidade tem. Se um hino vai ser cantado em marcha atrás de uma procissão, tem uma construção própria. Não pode ser salmódica. Por exemplo, o hino do Ano do Pai e do Ano de Jesus Cristo, são hinos para cantarmos principalmente na liturgia, numa eucaristia, por isso a opção do estilo samódico. Se for para diversas finalidades é mais métrica. Para os coros não é fácil a parte salmódica livre. Não se sentem tão à vontade. 

Na sua opinião quais são as principais características que devem ter os coros de música litúrgica? 

Padre Ignácio – Tenham a preocupação pela participação da assembleia e a ligação com o celebrante. O coro, mesmo sendo virtuoso, profissional, semiprofissional ou amador, tem que fazer esta ligação entre a assembleia e o celebrante. Se formos ver estas celebrações, onde não é feita esta ponte, o coro perdeu a sua função. As celebrações transformam-se em concerto. E nós temos uma tentação de fazer de grandes celebrações, autênticos concertos. Se quiserem podem retroceder estes 10 anos em que estou aqui, mesmo nestas celebrações mais festivas de 500 anos. O que aconteceu? Eu tinha estes momentos em que o coro era chamado a mostrar um certo trabalho, mas nunca esqueci a assembleia. Tinha um cântico de ofertório, de comunhão, de ação de graças ou de entrada, onde as pessoas eram chamadas a participar.  Quando isto é feito, o coro cumpriu a sua missão. O papel do coro numa celebração é fazer a ponte entre a assembleia e o celebrante. Em que o celebrante reúne tudo para Deus. É importante chamar as pessoas a participar. 

Eu tenho a missa a dois órgãos, que fiz para os 500 anos da catedral, e nunca pensei pôr a assembleia a cantar esta missa. Não é esse o objetivo. Aqui o coro é chamado a apresentar porque está preparado para executar esta missa a dois órgãos em latim. Mas durante a celebração há cânticos que são feitos com um refrão simples, para que a assembleia possa participar. E todos participam. Nem tudo deve ser um concerto e nem tudo deve ser simplório. Um dos erros que nos é apontado hoje em dia é que a igreja caiu no simplório, ou tem a tentação de cair nas coisas simples. As pessoas devem participar, têm os seus momentos. Por exemplo, no cântico de ofertório, no cântico da comunhão, em que as pessoas são chamadas depois de comungar e interiorizar Aquele que receberam, e não é tanto aquele momento para cantar. E depois, na Ação de graças, tive sempre a preocupação de pôr um cântico simples de interiorização. Aqui as pessoas são chamadas a participar, depois de comungarem e interiorizarem. Isto é um mundo muito próprio que tem um sentido profundo. Nestes 10 anos foi a minha grande preocupação. Todos os cânticos foram escolhidos com o objetivo das duas coisas: o coro tem o seu lugar de participar e apresentar uma antífona, um cântico belo mais complicado. E depois a assembleia também é chamada a participar no “Senhor tende piedade”, no “Glória”, no “Aleluia”, no salmo, no ofertório, na entrada, na ação de graças. Aqui é feita a verdadeira ponte entre o coro, a assembleia e o celebrante. No final do livro eu acabo com uma frase; “Tudo é de Deus e é para Deus”, e o objetivo é esse. 

“O papel do coro numa celebração é fazer a ponte entre a assembleia e o celebrante. Em que o celebrante reúne tudo para Deus. É importante chamar as pessoas a participar”

Às vezes a assembleia tem dificuldade em perceber o que está a ser cantado. A dicção é importante na música litúrgica?

Padre Ignácio – Sim, às vezes noto essa dificuldade em entender aquilo que está a ser cantado. A preocupação de ter uma boa dicção. É preciso um treino. É preciso cada vez mais os nossos coros se preocuparem com isto. Quem dirige os coros, também podem treinar esta questão. Todos estes anos que estive com o coro diocesano. Às vezes interrompia, porque não se percebia o que cantavam. Foi evoluindo. Uma coisa é exigir a dicção falada, outra coisa é uma dicção cantada, em que é preciso uma colocação vocal entre as duas coisas. É preciso tempo de formação, evolução. O tempo que nós temos é só para ensaiar para celebrações e às vezes não tempos este tempo para “perder tempo” para desenvolver essa dicção cantada. Às vezes tínhamos 30 a 40 ensaios por ano para estas celebrações, e encontrar pessoas disponíveis num coro diocesano de mais de 100 pessoas… não é fácil encontrar dias, tempo para ensaiar. Mas é um caminho que seria interessante fazer.

Pode falar-nos um pouco da sua formação musical? 

Padre Ignácio: Inicialmente fui para Roma para estudar música no Instituto de Música Sacra em Roma, onde estive um ano. Depois surgiu a oportunidade de ir para Paris. Aqui iniciei a parte de composição e harmonia na “École Normal de Musique de Paris”, aqui aproveitei e aprofundei tudo, mesmo fora do currículo. Isto foi possível em diálogo com o diretor da escola em que consegui matricular-me como ouvinte em outras disciplinas que não faziam parte do meu currículo para fazer cruzamento de formações. A minha grande preocupação foi o aprofundar a parte da composição e harmonia e não tanto na parte concertista. O meu objetivo não era ser padre de concertos, nem concertista de piano ou orgão mas tendo a formação de piano ter esta parte teórica na parte da composição e harmonia. Foi aí onde investi os cinco anos de formação.