Para além do instante

D.R.

Este nosso mundo da Comunicação Social vive do instante. E pouco é capaz de fazer que vá para além dele. É capaz, durante uma semana, de nos bombardear com um assunto, como se o mundo fosse acabar. Passada essa semana, as atenções dirigem-se para outro qualquer tema que alguém (não sei quem) determina ser mais importante.

Mas sabemos que, na grande maioria das situações, as pessoas continuam a sofrer, só que já ninguém lhes liga.

Veja-se o que sucedeu com Cabo Delgado, aquela província moçambicana que, alguns meses atrás, foi notícia pelas piores razões. Os problemas já existiam bem antes: os ataques dos terroristas, que dizem ser “islâmicos”, há pelo menos 4 anos que se sucediam. Os deslocados e os mortos já eram, infelizmente, o quotidiano.

Durante muito tempo, como profeta no deserto, o Bispo da Diocese gritou o problema. Só quando um grupo de ocidentais foi atacado o mundo descobriu aquele horror: viu a guerra, escutou os gritos e os apelos daqueles moçambicanos a pedir ajuda. Durante uns dias, foram abertura de noticiários. 

Depois, um outro qualquer assunto tomou a dianteira. E todos pensámos que estava resolvido… 

Não é verdade. A Fundação Ajuda à Igreja que Sofre denunciou, há dias, que os deslocados (750 mil) continuam a viver sem um mínimo de condições; que os ataques continuam a suceder-se; que a fome e as dificuldades continuam a ser realidade. Que as crianças são raptadas para as fazerem soldados treinados para matar ou, no caso das meninas, para servirem de escravas. 

Só que o mundo quase já nem se recorda. E nós corremos o risco de fazer coro com ele.