Férias fora, em país onde um português escreveu a língua

D.R.

Devido ao Covid-19 estamos há ano e meio sem férias fora. Relatar uma excursão, feita antes, recria férias “fora” de substituição. Recordam-se lugares, guias, acompanhantes e naturais do país. Resta lembrar passeios, vistas, paisagens e monumentos. Enfim, um sair de férias cá dentro, em modo mental de “tur(c)ismar”.

O foco é a visita ao Vietnam em pré coronavírus, organizada pela revista missionária “Boa Nova” que foi apaixonante nas experiências de país exótico. De autocarro, barco, avião e a pé foram uns três mil dos 4 mil kms. de costa, que tem 1650 em linha reta. Um país que no mapa tanto parece um chourição de charcos e campos de arroz de segundo maior produtor, centenas de quilómetros de culturas de café e, diziam-nos, terrenos de minérios diversos; como um dragão a enfrentar a China. Já há muita indústria de fábricas selvagens e empresas em crescendo a poluir rios, praias, águas adjacentes e o seu peixe. A cultura do café estará em terceiro lugar a seguir à Colômbia.

Nesta faixa de três ou quatro Portugais, topo-a-topo, vivem e labutam cerca de 95 milhões. A região Tonquim ao norte, a Anamita ao centro e a Cochichina, ao sul. Não faltam belezas múltiplas e águas conspurcadas em muitos rios, levando a palma o imenso delta Mekong com as suas miríades de barcos e mercado fluvial. Não podem faltar alguns passeios de barco com refeições a acompanhar. Um dos espetáculos incríveis que não se esquece são os formigueiros de motocicletas, aos milhares. Seguem-nos, enfrentam-nos, surpreendem-nos da direita, da esquerda, em avenidas e becos. Carregam o condutor, quase sempre de máscara antipoluição, com mais dois, três, quatro passageiros. Estes cortejos não param; parecem apostar vir sobre os peões. Na primeira visita ao país, surpreendido, ainda perguntei de brincadeira ao motorista se me teriam ido esperar ao aeroporto e me acompanhar. Pelo formigueiro, esperar-se-ia um acidente de cinco em cinco minutos; contudo, numa semana, não se chega a presenciar nenhum. Não tem explicação. Um espetáculo de surpresas e belezas foram as três horas de barco com almoço de mariscos a bordo, por entre muitas dezenas de ilhas na Baia de Há Long no norte, a confinar com a China. Huè proporcionou passeios a pé pela cidadela, “proibida” de imitação de Pequim. À procura de vestígios antigos fez-se outro passeio de barco por águas barrentas em Hoi Nah onde um português, o jesuíta da Guarda, Padre Francisco de Pina, 1585-1625, (mestre doutro jesuíta Alexandre de Rhodes) estudou, ensinou e escreveu a língua anamita (vietnamita). Até então dialeto chinês oral, e desde então escrita em carateres latinos.

A cidade fortificada de Huè, capital até 1975, serve para comparar com a cidade proibida de Pequim e com outros impérios e imperadores tiranos, mas compará-los à nossa cultura de democracias atuais, de tentativa, serve mais para chocar que compreender culturas do passado. Se a comparamos ao cerimonial da visita ao mausoléu do grande Ho Chi Minh em Hanói, o celibatário que derrotou os americanos e unificou o Vietnam, já nos podemos entender melhor. Das táticas deste estratega, ficou-nos a mini experiência da visita aos subterrâneos militares de Cu Chi, junto â fronteira com o Cambodja. Os de menos de sessenta anos foram convidados a rastejar nesses buracos de toupeira, e os de mais de setenta e oitenta, amedrontados para desistir, mas nem todos seguiram as cautelas; um de 88, por exemplo, lá gatinhou uns trinta metros pelos buracos sem entrar em pânico. Ficou consolado para poder dizer que conseguiu, como o milhão de turistas que passa por ali cada ano.

Comparar é uma das atividades turísticas mais estimulantes. No norte, por 170 kms só avistámos um igreja; no sul, Bien Hoa, por 5 ou 6 kms., mais de 15 ou 20, muitas delas comparáveis a grandes catedrais. O norte, por Hanói, continua mais budista e comunista com o mausoléu de Ho Chi Minh a alimentar a ideologia. Mas isso não impediu o guia espanholado do norte a tecer maravilhas às mudanças da disciplina comunista de obedecer e ir fazer comissões de serviço para países de mercado na África, em que cada um já pode ter as iniciativas que quiser, mas só com a bênção do Partido único. Uma espécie de Conselho da Revolução 25 de Abril ou perto do Tribunal Constitucional do comunismo de Estado, mais suave que na China. O guia alardeava que o sistema tem escolas grátis até à universidade. A nós, os das descobertas e dos evangelizadores, ficava-nos a doçura da ligação portuguesa cristã com este país, em que noutra visita ouvia com satisfação que foram os portugueses que levaram a fé cristã ao seu país e lhes ensinaram a escrever a língua; e a mim que até conseguia pronunciar os seus sons mais difíceis. Lusofonia disfaçada?