Salvar a humanidade

D.R.

“Existem momentos em que a tua vida dá uma volta de 180º e sabes que não poderás voltar atrás”, disse um sacerdote espanhol, ao recordar o dia em que se fez passar por um traficante de órgãos para salvar a vida de um adolescente. 

Ignacio María Doñoro de los Ríos, 57 anos, foi durante muitos anos capelão militar. Quando estava em El Salvador, América Central, numa missão de ajuda humanitária, recebeu a informação que uma família, em desespero, queria vender um dos filhos a um traficante de órgãos, para poder sobreviver. Não podia acreditar que um adolescente de 14 anos, com uma paralisia parcial, estava a ser vendido pelos próprios pais, por 21 euros. Sentiu que tinha de o salvar, ainda que desse a sua vida.

Arranjou uma carrinha, deixou crescer a barba e vestiu-se com roupa suja. “Fiz-me passar por um traficante de órgãos e paguei à família um dólar a mais, para comprar Manuel e salvá-lo”, recordou. “Em décimas de segundo dei-me conta de que aquele era o comboio que passa uma vez pela tua vida, ou o agarras ou o deixas. Se o tomas, vai levar-te onde jamais pensaste”, disse o sacerdote, acrescentando: “Aí estava muito consciente de que aquele menino ia mudar a minha vida”, revelou ao jornal “El País”, numa entrevista a 22 de junho. 

Quando o sacerdote levou Manuel ao médico, este pensou que iam matá-lo e começou a ter convulsões. Depois percebeu que estava a salvo. O capelão nunca vai esquecer o olhar de profundo reconhecimento de Manuel. A partir desse momento, tomou a decisão de fazer todos os esforços para ajudar os menores em dificuldades. 

Para resgatar o maior numero possível de crianças, construiu em 2011, na selva amazónica do Perú, uma casa de acolhimento, “El Hogar Nazaret”. Uma casa onde as crianças órfãs, vítimas de tráfico, prostituição ou exploração, são resgatadas para poder viver a sua infância e recuperar a sua identidade. Ao longo dos anos, as piores memórias deste sacerdote são aquelas em que recebeu “crianças que não se parecem com crianças”, com o corpo cheio de feridas. “Muitas delas não sabem falar porque ninguém os ensinou e soltam gritos e socos, que é a sua forma de comunicação, ou mordem e agridem com murros”. 

As populações conhecem bem o trabalho desta Casa, “quando sabem que uma criança poderá ser a notícia de abertura de um qualquer telejornal, avisam-nos e o menor é recebido na Casa”. Depois de recuperarem a saúde, terem recebido formação e eventualmente estarem a trabalhar, podem regressar ao seu ambiente de origem. 

O próximo projeto é construir uma escola de engenharia. Dar formação aos meninos e meninas da lixeira, “é a verdadeira revolução social”, disse o sacerdote que, inspirado num provérbio judaico, tem como lema: “Salvar uma criança, é salvar a humanidade”.