Dia da Região: Bispo do Funchal questiona o lugar da fé e aponta paralisias que nos tolhem a vida 

De acordo com D. Nuno Brás essas paralisias, que vão muito além da presente situação de pandemia, impedem-nos de caminhar como seres humanos e como comunidade. 

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal presidiu esta quinta-feira, dia 1 de julho, à Eucaristia com Te Deum do Dia da Região e das Comunidades Madeirenses, na Sé do Funchal.

Uma oportunidade para D. Nuno Brás se “interrogar acerca do lugar da fé na nossa identidade madeirense” e para apontar “as paralisias que, ainda agora, nos tolhem a vida” e nos “impedem de caminhar como seres humanos e como comunidade”.

Mas o prelado, que no início da celebração “deu graças por aquilo que somos” e pediu “por todos aqueles madeirenses que pereceram vítimas da pandemia e por todos os que por causa dela não tiveram oportunidade de se despedir dos seus”, começou por “reconhecer como, ao longo destes seis séculos, a vida dos madeirenses teria sido insuportável, não fora a fé a dar-lhe sentido, a proporcionar-lhe a força interior para derrotar as contrariedades e a oferecer um horizonte de esperança que, assim, longe de ser apenas um sonho humano, se mostra prenhe de vida divina”.

“Podemos certamente afirmá-lo: muitas terão sido as vezes em que os madeirenses fizeram suas as interrogações de Abraão, e ergueram os olhos ao céu, questionando Deus acerca do sentido da existência”, constatou o prelado, para logo acrescentar que “muitas mais foram, certamente, aquelas vezes em que se confiaram totalmente nas mãos do Senhor, dizendo e vivendo, no seu íntimo, com a mesma certeza e com a mesma grandeza, o grito de Abraão: “Deus providenciará!”.

Importa-nos por isso mesmo, frisou D. Nuno Brás, “perguntar hoje acerca das paralisias que, ainda agora, nos tolhem a vida — aquelas que nos impedem de caminhar como seres humanos e como comunidade, e que vão muito além da presente situação de pandemia: o esquecimento de Deus; o egoísmo galopante com o esquecimento do próximo e da sua dignidade, que sempre lhe estão associados; a submissão ao que é considerado ser correto e a vergonha em nos mostrarmos como cristãos; a baixa da natalidade… e tantas outras paralisias que nos tolhem efetivamente a possibilidade de ser mais e de vivermos a nossa existência com maior qualidade humana”.

Do mesmo modo, acrescentou, o bispo diocesano, “importa igualmente interrogar-nos acerca da disponibilidade para conduzir o outro e toda a nossa comunidade em direção a Jesus Cristo, conscientes de que apenas Ele é capaz de curar, de salvar profundamente o nosso existir, e de dizer com absoluta certeza e verdade: “levanta-te, toma a tua enxerga, e vai para casa”.

“Muitos serão os escribas que, também hoje como no tempo e Jesus, nos acusarão, indignados, de cometer blasfémia — não já contra Deus, mas contra qualquer dogma a que o politicamente correto tenha dado origem”, frisou.

Por saber da história e por experiência própria, disse a terminar D. Nuno Brás, sabemos que “Jesus Cristo não é um blasfemo, mas apenas (e é tanto!) Deus entre nós”. E que “só Ele nos permite, ainda hoje, viver com todo o sentido no meio dos sofrimentos, das derrotas e das interrogações que o nosso existir sempre nos coloca. E, porque O percebemos connosco, havemos, também nós, de glorificar a Deus. Porque também a nós — a cada um e a todos — foi dito: ‘levanta-te e caminha’”, concluiu.

D. Nuno Brás, que no início da celebração saudou todas as autoridades presentes, terminou esta Eucaristia agradecendo ao Coro de Câmara da Madeira aos membros da Orquestra Clássica e à maestrina Zélia Gomes, “pelo bem que nos ajudaram a rezar” e fazendo votos que “acolhamos este pedido, que é missão do Senhor, de conduzirmos a nossa Região, os nossos concidadãos até Ele, Ele que é capaz de verdadeiramente salvar e a todos dizer: ‘levanta-te e caminha’”.

Leia na íntegra a homilia do bispo do Funchal:

DIA DA REGIÃO
1 de Julho de 2021
Sé do Funchal 

Quinta-feira da XIII Semana do T. Comum (anos ímpares)
Gen 22,1-19 | Sl 114 | Mt 9,1-8

  1. A palavra de Deus confronta-nos hoje com uma daquelas atitudes que nos distinguem como seres humanos: o acto de fé. E não apenas o acto humano de fé (sem o qual seria impossível sobreviver) mas com aquela atitude que, porque encontra em Deus a sua origem, nos abre um novo horizonte de vida e nos oferece um novo modo de viver: a fé como virtude teologal — quer dizer: a fé enquanto atitude gerada por Deus nos corações de cada ser humano.

A Iª leitura, trazia diante de nós o momento primeiro (como que num eco daquele primeiro rasgar criador entre as trevas e a luz do relato das origens), momento contraditório e dramático, em que Deus pediu a Abraão o sacrifício do filho único. E, no evangelho, éramos confrontados com a atitude de fé do paralítico, dos seus amigos e de toda a multidão diante da pessoa de Jesus: é verdadeiramente Deus no meio de nós, ou é apenas um blasfemo?

  1. A Iª leitura interrogava-nos acerca da nossa atitude perante tantos acontecimentos que nos resultam incompreensíveis, em particular quando neles descortinamos, à mistura, o acontecer divino juntamente com o pecado humano — como em Auschwitz e noutros momentos da nossa vida: Deus oferece, promete, e parece retirar (ou, pelo menos, parece ser incapaz de garantir o cumprimento da promessa).

Com efeito, o sacrifício de Isaac é inútil e injustificado. Está bem longe do sacrifício de um filho em favor de um bem maior, como sucede na mitologia grega com Ifigénia, sacrificada pelo pai, Agamemnon, em favor do bem da cidade. Aos olhos do mundo, Abraão não passa de um assassino que se dispõe a matar o filho porque Deus lho exigiu. No turbilhão interior daquele velho, terão porventura passado, como nos mostrou Sören Kierkegaard em Temor e tremor (páginas centrais do pensamento ocidental) — terão, porventura, passado os mais variados modos de resolver o conflito: da auto-justificação à fuga e à procura de uma razoabilidade mínima. Mas, como mostra aquele pensador dinamarquês, se cedesse a uma dessas tentações “já não seria Abraão”.

Ao Patriarca, ao crente, cabe apenas a resposta que escutámos, e que faz toda a grandeza de Abraão: “Deus providenciará”, na certeza de que, em Deus (e apenas nele), tudo termina por fazer e encontrar sentido — e que esse sentido final consiste no amor perfeito e na vida plena.

  1. O gesto do paralítico e de quantos o levaram a Jesus é, também ele, um acto de fé, uma atitude de entrega total nas mãos de Deus, semelhante à de Abraão. Mas com uma determinação que faz toda a diferença: Deus tem agora o rosto bem definido de Jesus de Nazaré. É o acto cristão da fé.

Nele se reconhece que neste homem, Jesus de Nazaré, é o próprio Deus que se faz encontrado de toda a humanidade, se revela, vem até nós e à nossa vida. E numa sobreabundância de amor, que só nos pode comover (tanto mais quanto contrasta desmesuradamente com o nosso pecado), nos restaura, transforma e eleva, partilhando connosco a vida divina em plenitude.

“Os teus pecados estão perdoados” — responde Jesus ao paralítico. Muito além do pedido que lhe tinha sido feito (já ele inspirado pela fé) da cura física de um mal, Jesus perdoa o pecado. Quer dizer: o sincero pedido da fé tem como resposta, da parte de Deus, a abundância da graça, que restaura no homem a condição original com que Deus tinha ordenado: “faça-se”, e volta a restaurar do meio do pecado aquele concreto ser humano que se entrega completamente nas mãos divinas.

Mas Jesus vai mais longe. Não lhe basta perdoar os pecados e mostrar a realidade do perdão. Jesus ordena ao paralítico: “levanta-te e anda”. Que o mesmo é dizer: “não basta que sejas o restaurado homem do paraíso; deves ser o homem novo: ressuscita e caminha na vida nova”.

  1. Ao sermos confrontados com estas leituras e ao celebrarmos o Dia da nossa Região, não podemos deixar nos interrogar acerca do lugar da fé na nossa identidade madeirense.

E não podemos deixar de reconhecer como, ao longo destes seis séculos, a vida dos madeirenses teria sido insuportável, não fora a fé a dar-lhe sentido, a proporcionar-lhe a força interior para derrotar as contrariedades e a oferecer um horizonte de esperança que, assim, longe de ser apenas um sonho humano, se mostra prenhe de vida divina.

Naquele primeiro dia de há 600 anos, a Ilha apareceu “muito graciosa, de grandes arvoredos e lugares prados”[1]. Mas logo a vida dos primeiros madeirenses se viu mesclada com a necessidade de, à força de trabalho braçal, conquistar terra que pudessem habitar. E, depois, foi também o duro trabalho de colonos e de escravos, na produção do açúcar ou no mero cultivo de alimentos que proporcionassem a sobrevivência das suas gentes. Para já não falar da necessidade de defesa diante dos frequentes ataques de piratas e corsários — tudo misturado com a indiferença do poder central sobre o bem-estar das populações madeirenses. Sem esquecer os desastres naturais e aqueles outros provocados pela incúria humana.

A beleza natural da Ilha contrastou, deste o início, com a dureza do quotidiano. Foi necessário que os heróis do trabalho lavrassem a terra entre a rocha dura e a montanha agreste; conquistassem o mar, enfrentando vagas procelosas; e ostentassem, como ainda hoje sucede, as mãos calosas de quem não desiste de lançar a semente para o pão. Não fora a fé, que desde os primeiros dias animou os madeirenses, e teria sido insuportável a vida humana nestas paragens.

Podemos certamente afirmá-lo: muitas terão sido as vezes em que os madeirenses fizeram suas as interrogações de Abraão, e ergueram os olhos ao céu, questionando Deus acerca do sentido da existência. Como muitas mais foram, certamente, aquelas vezes em que se confiaram totalmente nas mãos do Senhor, dizendo e vivendo, no seu íntimo, com a mesma certeza e com a mesma grandeza, o grito de Abraão: “Deus providenciará!”.

  1. Importa-nos, por isso mesmo, perguntar hoje acerca das paralisias que, ainda agora, nos tolhem a vida — aquelas que nos impedem de caminhar como seres humanos e como comunidade, e que vão muito além da presente situação de pandemia : o esquecimento de Deus; o egoísmo galopante com o esquecimento do próximo e da sua dignidade, que sempre lhe estão associados; a submissão ao que é considerado ser correcto e a vergonha em nos mostrarmos como cristãos; a baixa da natalidade… e tantas outras paralisias que nos tolhem efectivamente a possibilidade de ser mais e de vivermos a nossa existência com maior qualidade humana.

Do mesmo modo, importa igualmente interrogar-nos acerca da disponibilidade para conduzir o outro e toda a nossa comunidade em direcção a Jesus Cristo, conscientes de que apenas Ele é capaz de curar, de salvar profundamente o nosso existir, e de dizer com absoluta certeza e verdade: “levanta-te, toma a tua enxerga, e vai para casa”.

Muitos serão os escribas que, também hoje como no tempo e Jesus, nos acusarão, indignados, de cometer blasfémia — não já contra Deus mas contra qualquer dogma a que o politicamente correcto tenha dado origem.

Contudo, nós sabemos, por saber da história e por experiência própria, que Jesus Cristo não é um blasfemo, mas apenas (e é tanto!) Deus entre nós. E que só Ele nos permite, ainda hoje, viver com todo o sentido no meio dos sofrimentos, das derrotas e das interrogações que o nosso existir sempre nos coloca. E, porque O percebemos connosco, havemos, também nós, de glorificar a Deus. Porque também a nós — a cada um e a todos — foi dito: “levanta-te e caminha”.

[1]Jerónimo Dias Leite, Descobrimento…, 32.