Machico: Matriz acolheu conferência sobre os Arquivos Paroquiais contextos e estudos 

Foto: Duarte Gomes

A igreja paroquial de Machico acolheu ao final da tarde de domingo, dia 20 de junho, a conferência “Arquivos Paroquiais da Igreja Matriz de Machico: Contextos e Estudos”.

Esta iniciativa resultou da recente descoberta de um conjunto de livros da Paróquia de Machico, que remontam ao século XVI, alguns dos quais estão presentemente expostos na “Sala do Tesouro” da Paróquia.

Isso mesmo explicou o Cónego Manuel Ramos, pároco de Machico na sua intervenção de abertura do evento, que contou com a presença de D. Nuno Brás, bispo do Funchal e teve como oradores a investigadora Rita Rodrigues, o historiador Paulo Ladeira e o Diretor Regional do Arquivo e Biblioteca da Madeira, Nuno Mota.

Nas suas breves palavras de acolhimento, o Cónego Ramos disse ser seu propósito, ao promover esta conferência, que “o tema dos arquivos paroquiais entre na dinâmica da valorização do património cultural” e que “a sensibilidade pela conservação deste património documental cresça nos corredores da Igreja e os meios de acesso ao público em geral, nomeadamente dos académicos, sejam mais acessíveis”.

Os arquivos paroquiais, explicou o pároco de Machico, “são um conjunto de espécies documentais guardados, produzidos ou mesmo recebidos numa paróquia, no que respeita à atividade paroquial no cumprimento das normas canónicas e das determinações do bispo diocesano”. Deu como exemplo “livros de assento dos sacramentos, inventários dos bens da Fábrica da Igreja, propriedade e arte sacra, os livros das contas da Fábrica da Igreja ou documentos relativos à administração da paróquia, actas de reuniões, relatórios documentos provenientes do bispo ou da Cúria Diocesana, documentos relativos às associações paroquiais”, etc.

Lembrou ainda que foi o Concílio de Trento que “veio tornar obrigatória a existência de um arquivo paroquial em cada igreja e que em Portugal os assentos de documentos paroquiais tiveram a força de documentos civis até 1867, altura em que se criou o registo civil”.

Atualmente, os arquivos paroquiais regem-se pelo Código de Direito Canónico e também pela legislação diocesana, constituindo uma riqueza de fundos documentais nas diversas áreas do saber e são “memória viva de uma paróquia da sua ação evangelizadora e do seu dinamismo cultural, social e económico”.

Assim sendo, defendeu, “é importante valorizar o arquivo paroquial como bem precioso para além do seu carater administrativo e do seu valor patrimonial inesgotável”.

Conservar, estudar e divulgar

Já a investigadora Rita Rodrigues criou, como a própria referiu, um subtítulo ao tema proposto, tendo então abordado a questão do ponto de vista da “conservação, estudo e divulgação” dos arquivos paroquiais.

Neste contexto, a investigadora sublinhou a importância que entende ter o facto de o Cónego Manuel Ramos ter dado logo conhecimento à comunidade do seu ‘achado’, composto basicamente por livros e documentos avulsos, tendo em vista a sua conservação, restauro, digitalização e posterior divulgação.

Ainda que só tenha tido alguns dias de contacto com a documentação em causa, Rita Rodrigues considera que a mesma, pela sua natureza, pode ajudar a colmatar algumas lacunas que existem em diferentes relatos históricos de Machico, que têm sido publicados nos últimos anos.

Mas para isso, adiantou, é preciso que “este conjunto extraordinário de documentação” passe pelas etapas supra enumeradas, para que depois possa ser “estudado” e só então exposto ao público, seguindo naturalmente determinadas regras.

De resto, acrescentou a investigadora a propósito do estudo, que “os documentos falam connosco, provocam-nos e exigem de nós, investigadores, historiadores, etc., que olhemos para eles, mas também para o que já está feito”.

Para isso, “é preciso uma equipa multidisciplinar, é preciso fazer o levantamento bibliográfico, fazer estudos específicos sobre os arquivos diocesanos e paroquiais, estudos específicos sobre a Colegiada de Machico, um levantamento documental com estudos comparativos sobre a Colegiada de Machico para que estes documentos possam ser utilizados neste sentido de enriquecer a história da Colegiada”.

Outros documentos

Quanto ao historiador Paulo Ladeira, o mesmo incidiu a sua intervenção no tipo e variedade de documentos que se podem encontrar no Arquivo Paroquial de Machico, para além destes que foram agora encontrados, e nos demais arquivos.

Falou igualmente da importância da disponibilização desses documentos ao público, bem como dos que estão à guarda do Arquivo Regional da Madeira, que até podem ser consultados a partir de casa, explicando que isso é importante muitas vezes até para o historiador/investigador conseguir perceber com alguma rapidez e facilidade como, inclusivamente, muitos documentos se “relacionam entre si”.

De resto, mesmo os documentos da Madeira que se encontram na Torre do Tombo, estão “disponíveis na internet”, lembrou Ladeira, que, teve o cuidado de mostrar ao público que assistia a esta conferência alguns exemplos.

Falou ainda, por exemplo, da importância dos registos paroquiais, nomeadamente para a elaboração de genealogias, sublinhando que o facto dos livros estarem digitalizados e disponibilizados, facilita sobremaneira a vida de quem está a fazer esse trabalho, lembrando que as longas horas passadas a ver livros um a um deram lugar a uma consulta mais rápida e mais eficaz.

Claro que para que tudo isto seja possível o historiador lembrou, tal como a oradora anterior, que é preciso tempo para tratar e estudar os documentos, o que deverá acontecer também com os que agora foram encontrados pelo Cónego Ramos, a quem Paulo Ladeira felicitou pelo achado, sublinhando que o mesmo irá contribuir não só para a riqueza da história de Machico, como da ilha e até de Portugal.

Dimensão, antiguidade e integridade

Finalmente, no que a oradores diz respeito, usou da palavra o Diretor Regional do Arquivo e Biblioteca da Madeira (ABM), Nuno Mota que felicitou a paróquia de Machico pela iniciativa que, disse, “resulta do encontro, da descoberta deste encontro de documentos que remontam ao Séc. XVI”, período ao qual remontam também cerca de 60 por cento dos fundos paroquiais madeirenses. Um universo documental que, disse o diretor do ABM, pauta pela dimensão, mas também pela antiguidade e a integridade.

De resto, ao contrário dos anteriores oradores, Nuno Mota não falou propriamente do Arquivo Paroquial de Machico, mas antes sobre “importância do património religioso e da sua preservação e recuperação e a sobre qual é que é a importância do conhecimento da história deste património na atualidade”.

Fê-lo através da apresentação e desenvolvimento de três proposta, a primeira das quais tinha a ver com o facto de, “em termos gerais, ser possível afirmar que o contexto institucional da Igreja é tendencialmente um contexto de preservação da memória” e que o seu património é de facto “um meio indispensável para o conhecimento da história e da cultura e da sociedade insulares, no sentido amplo e diversificado que transcende em muito a história da própria Igreja, as suas instituições e dos seus agentes”.

Na verdade, “sem o património documental religioso, nós não podemos construir a história da Madeira como um todo e é desde logo por isso que a sua defesa e valorização são importantes”.

A segunda ideia deixada foi a de que “o contexto religioso é um espaço de inovação, no que concerne aos dispositivos da memória”, possibilitando que o património documental religioso seja um meio fundamental para o conhecimento da historicidade específica da própria memória e um fator de incentivo para a descoberta dessa história, cujo conhecimento está ainda hoje mal iniciado em Portugal e tanto quanto sabemos de todo por iniciar no que à história da memoria da Madeira diz respeito”.

A última ideia que quis passar foi a de que “a memória é hoje objeto de uma recuperação sem precedentes na era contemporânea”, não só do ponto de vista científico, mas também cultural e social, alimentada pelos média digitais. Neste contexto, a acessibilidade e disponibilidade deste património têm de ser globais e não apenas para historiadores e investigadores.

Em suma, “os gestores do património religioso no quadro institucional da Igreja confrontam-se hoje com o desafio da desmaterialização desse património de que são Guardiães, com o desafio da sua infusão no tecido social e cultural por via dos novos canais digitais”. E perceber este desafio, frisou o diretor do ABM “é fazer justiça à própria história da igreja enquanto plataforma importantíssima de inovação em matéria dos dispositivos e das metodologias da memória”.

Usou ainda da palavra, no final das intervenções, o presidente da Câmara Municipal de Machico. Ricardo Franco que congratulou o Cónego Ramos pela iniciativa, fez uma abordagem ao património edificado da Igreja no concelho.

Depois de traçar esse roteiro patrimonial, o autarca manifestou a disponibilidade da Câmara para continuar a apoiar a paróquia nomeadamente no que diz respeito a uma futura publicação, independentemente do formato, de todo o espólio agora encontrado.

Cristianismo não vive sem papéis velhos

Finalmente, D. Nuno Brás encerrou esta conferência saudando todos os presentes, entre os quais o Cónego João Dias, Deão do Cabido, responsável pelos arquivos da Sé e Vice-chanceler diocesano, responsável pelos Arquivos e Biblioteca Diocesana.

Partindo da expressão “estava lá como Pilatos no Credo”, o prelado explicou que “pode-nos parecer que papéis velhos são papeis velhos”. Acontece que “Pilatos faz muita falta no credo porque lhe dá uma dimensão histórica que é essencial ao cristianismo”. Cristianismo que “não é um conjunto de ideias, uma norma ética, mas um acontecimento e como acontecimento é história, é vida e é memória também”.

Ora, “também no Séc. XVI o cristianismo foi, aqui em Machico, acontecimento e acontecimento a ser estudado, a ser acolhido e acontecimento que nós queremos hoje continuar a viver como acontecimento e não como ideologia, não como norma ética de conduta, mas como acontecimento de Jesus Cristo hoje e dentro destas nossas coordenadas históricas, geográficas”.

De resto, frisou o prelado, “esta é a beleza do cristianismo que, por isso mesmo não vive sem também estes papéis velhos que acabam por ser preciosos porque testemunham este acontecer, esta vida de Jesus no meio de nós e neste caso no meio daqueles que foram antepassados no Séc. XVI”.

D. Nuno concluiu dando ao pároco de Machico os parabéns pelo achado e fazendo votos de que o mesmo seja “disponibilizado logo que possível para todos”.