“O protagonista da nossa vida é Jesus”

Testemunho do casal Johnny e Annie, membros do Opus Dei

No próximo sábado, 26 de junho, D. Nuno Brás vai presidir na Sé do Funchal, pelas 11 horas, à Eucaristia da memória litúrgica de São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, no ano em que a a prelatura em Portugal está a celebrar 75 anos de presença. O Jornal da Madeira conversou com o casal Johnny e Annie sobre esta instituição da Igreja Católica a que pertencem desde a juventude e sobre a história de vida desta família residente no Funchal.

Em traços gerais pode fazer uma apresentação do seu percurso de vida?

Johnny – O meu nome é Johnny Miguel Fernandes de Nóbrega, nasci na Venezuela. Os meus pais são madeirenses, do Faial. Conheci a minha mulher na Venezuela, casámos em 1999. Conheci a obra, o Opus Dei, na Venezuela, quando estava a estudar na Universidade. Depois casámos, tivemos uma filha, a nossa filha Ana Teresa Fernandes Flores. Ela nasceu com uma doença genética, a fibrose cística. Era uma doença muito rara na Venezuela, mas na Europa era relativamente comum. Como não havia maneira de tratá-la na Venezuela, viemos para a Madeira. Os meus pais eram de cá, conhecia a língua, tínhamos onde ficar e ela podia ser tratada aqui porque tinha a nacionalidade portuguesa por parte do pai. A minha mulher veio primeiro e foram bem recebidas no hospital. Começaram a fazer o tratamento. Passados uns meses, em 2003, vim procurar trabalho. Para nós foi uma grande mudança de vida. Tive sorte de arranjar trabalho num projeto em Santana e comecei a trabalhar. No início não tínhamos a ideia de ficar cá por muito tempo, mas depois tivemos mais três filhas e já se passaram 18 anos. 

Annie – Sou a Annie, sou venezuelana. Para mim foi muito difícil descolar-me da minha terra, porque implicava estar longe da minha família. Não conhecia a língua, cultura… era muito difícil. Ainda por cima tinha uma filha doente a meu cargo. Mas agradeço imenso a Deus, que nunca me abandonou. Na obra, no Opus Dei, uma das coisas mais lindas é sentir que é uma família e foram uma pedra firme onde consegui apoiar-me na minha dor e não me abandonaram. Estava aqui na Madeira e não havia nada da Obra e mesmo assim continuaram responsáveis pela minha alma. Vinham de dois em dois meses do Continente e tínhamos contacto pelo telefone. Realmente é uma família. Estes pequenos detalhes que São Josemaria gostava imenso que existissem dentro do Opus Dei, que os irmãos acompanhassem os que mais precisam. Isso faz a diferença, sentimos o amor fraterno de que nos fala os Atos dos Apóstolos. Para mim é uma graça grandíssima fazer parte do Opus Dei.

Casal Johnny e Annie e suas filhas

Pedras Vivas 20 de junho de 2021 (A4)

Pedras Vivas 20 de junho de 2021 (A3)

Como conheceu o Opus Dei?

Annie – Eu não tinha formação nenhuma. Tive catequese, mas era uma catequese muito fraca. Tinha o desejo de amar a Deus, mas não tinha formação. Entrava num grupo para rezar o terço porque era engraçado e podíamos lanchar depois, não tinha muita convicção. Não dizia: “Quero estar aqui porque amo a Jesus”. Mesmo assim, existia um chamamento, uma vocação. Em adolescente conheci uma rapariga que depois se tornou Carmelita Descalça e foi ela que me levou até ao Opus Dei, porque conhecia os escritos de São Josemaria, principalmente o “Caminho”, um livro muito importante para mim, onde me iniciei na oração. Ela levou-me até a um Centro do Opus Dei, que não sabia que existia. É um lugar, uma casa, onde as pessoas podem receber formação. Nessa casa havia uma pequenina capela com o sacrário. No centro vivem senhoras e raparigas que são “numerárias”, que dedicam a sua vida a Deus. Todos no Opus Dei dedicamos a nossa vida a Deus, o que pode diferenciar são as circunstâncias, mas o protagonista da nossa vida é Jesus. Essa é outra coisa que gosto imenso no Opus Dei: Deus está onde tu estás. Se queres estar na terra a cultivar, Ele está lá e tu vais ser santo aí. Ou se queres estar em casa, como eu, a cuidar das crianças, a passar um pano, a lavar a casa de banho e a fazer o almoço, Deus está contigo. É assim que me faço santa. Quando entrei no Centro tinha 17 anos e muita sede de conhecer, de amar, mas não tinha quem me formasse. 

Johnny – Para mim foi uma situação semelhante. Queria estar perto de Deus. Naquela altura pensava que o meu caminho era o sacerdócio. Estudei no seminário, mas não me sentia à vontade. O reitor do seminário, ao ver a minha aflição, recomendou-me um Centro da Opus Dei, que posteriormente comecei a frequentar. Tínhamos formações semanais, naquela altura misturadas com futebol. Também ia com muita frequência à sala de estudo. Senti que Nosso Senhor estava a chamar-me a constituir uma família e a ter filhos, para estar assim perto de Deus. O Opus Dei veio juntar essas realidades. 

Como é ser membro do Opus Dei na Madeira?

Johnny – Quando nós nos fazemos membros do Opus Dei o objetivo é santificarmo-nos no meio das coisas quotidianas e o Opus Dei se compromete em dar-nos todas as ferramentas e a formação necessária, para nós alcançarmos esse fim. Chegamos à Madeira de paraquedas, comunicamos ao Opus Dei de Portugal que tínhamos chegado e arranjaram logo forma de virem aqui para nós continuarmos a viver a nossa vocação.

Annie – Foi difícil essa adaptação porque na Venezuela estávamos cómodos a nível da formação, pois tínhamos o Centro. Aqui estávamos sozinhos. Para nós foi muito difícil. Para além disso, tínhamos a doença da nossa filha. Agradeço tanto que não nos tenham abandonado, que não nos tenham deixados sozinhos e que tenham cuidado de nós e tido paciência. Porque muitas vezes ficamos presos à dor, ao sofrimento, e de alguma maneira sentíamos que não estávamos a ser fiéis à nossa vocação. Agora compreendo que essa cruz também fazia parte da minha vocação. Há muitos caminhos para amar a Deus, mas para mim não há outro caminho melhor do que ser do Opus Dei. 

O que é que vos chamou mais a atenção no Opus Dei?

Johhny – Uma das coisas é podermos santificar-nos nas coisas correntes, com os nossos defeitos, com os nossos filhos, amigos, trabalho, em qualquer ambiente e em qualquer situação, podermos encontrar Nosso Senhor. Não só amar a Deus, mas também todas as pessoas que estão à nossa volta. Levar o testemunho de Cristo àqueles com quem nos encontramos. Outra coisa que me chama muito a atenção no Opus Dei é a filiação divina. É sentirmos que somos filhos de Deus. Muitas vezes, diante dos problemas e aflições, questiono: “Estou preocupado porquê? Sou filho de Deus”. Jesus disse no Evangelho que se um pai é incapaz de dar uma pedra ou serpente a um filho que pede pão ou peixe, quanto mais Nosso Senhor dará, ele que é Omnipotente. Isso dá-nos paz, alegria, esperança e ajuda-nos a encontrar Deus, mesmo nas contrariedades do dia-a-dia. Outra dimensão que considero importante na Obra é a liberdade. Naturalmente temos de ter unidade de vida. Não podemos dizer que somos membros da Opus Dei, e que vamos à missa, e depois termos um comportamento totalmente diferente. Deveríamos ser exemplo para outras pessoas. 

Annie – Para mim, ser do Opus Dei é ser uma cristã verdadeira. É ser coerente com o que acredito e viver o que acredito, e levar Cristo na minha vida toda, na igreja onde dou catequese e procuro ensinar aos meus meninos como podemos amar mais a Jesus, ou com os irmãos da confraria. Eu faço parte da minha paróquia. No Opus Dei aprendemos a amar a Igreja, ao Santo Padre e aos sacerdotes, e a sermos católicos praticantes, a sério, comprometidos. Mas comprometidos com alegria e não como um fardo.

Johnny – No Opus Dei temos normas de piedade para estarmos na presença de Deus. Ao acordar, oferecemos o dia a Nosso Senhor, tentamos ao meio dia rezar o Angelus ou Regina Celi, fazer a oração da manhã, tentamos ir à missa todos os dias, tentamos rezar o terço. São pequenos gestos de amor e de encontro com Deus, que ajudam a manter a chama no nosso coração. 

Consideram que a vida de oração e fé vos ajudam a enfrentar as dificuldades da vida? 

Johnny – A nossa filha morreu o ano passado. Humanamente é uma situação difícil de perceber, uma rapariga com 20 anos e que passou a sua vida a sofrer com a doença. Tentarmos arranjar uma explicação humana a isto é difícil. Às vezes, até poderíamos concluir que é injusto. Mas quando vemos isto com os olhos sobrenaturais, o panorama é totalmente diferente. Posso afirmar que osso Senhor, porque nos ama muito, foi uma bênção dar-nos esta filha. Queria que nós a cuidássemos e ensinássemos a amá-lo. Assim como a recebemos d’Ele nós a entregamos outra vez. Isto só é possível através da oração, com uma visão sobrenatural. Humanamente é um desespero que nunca acabaria. Através da comunhão diária e da confissão regular podemos manter-nos em graça, e com essa graça podemos afrontar as dificuldades diárias com esperança, de forma positiva e com alegria. Isso é a santificação no meio do mundo e é o que Nosso Senhor espera de nós. Tenho a ideia de que se Deus, nosso Pai, que sempre quer o melhor para nós, se Ele permite que determinadas situações aconteçam, temos de ter a certeza que é a melhor coisa que aconteceu. Mesmo que as situações sejam difíceis, vão servir para o nosso objetivo final, que é o Céu, salvar a nossa alma. Vamos viver a nossa vida com esperança, com fé.

Na vossa opinião, como podemos transmitir a alegria da vida cristã aos outros, principalmente aqueles que estão mais afastados da Igreja?

Annie – Acho que temos de fazer mais apostolado e atrair mais almas para Cristo, através da amizade e da confidência. Aos poucos, temos de transmitir a um amigo e a outro amigo, de tu-a-tu.

Johhny – Penso que o que está a faltar um pouco é a responsabilidade. Isso acontece também no amor humano. Quando queremos amar alguém é preciso responsabilidade. O relacionamento com Deus é a mesma coisa. É preciso conhecê-Lo, falar, conversar. Hoje, quando falamos da responsabilidade de dar, da sua vida e do seu tempo, as pessoas põem logo um travão. É importante que as pessoas vejam Cristo na nossa vida. Temos que nos esforçar, dar o nosso melhor diariamente por Deus e pelas pessoas que estão à nossa volta. 

Pode falar da recoleção que é realizada na Capela da Penha de França? 

Johnny – Há uma recoleção bimensal. Vem um sacerdote do Opus Dei à Região. Para os homens a recoleção é de manhã das 10h30 às 12h30, e para as mulheres é das 15h30 até às 17h30. A recoleção é um “mini retiro”. Começamos com a leitura espiritual, depois há duas meditações e um exame de consciência, e termina com a Santa Missa. 

Annie – Chama-se recoleção porque recolhemos a nossa alma para estar um pedacinho com Deus.