Iconografia de São Tiago Menor: O mais importante é suscitar a fé 

Foto: Duarte Gomes

Teve lugar esta quinta-feira, dia 17 de junho, na igreja do Colégio a última conferência do Ciclo preparado pela Diocese do Funchal para comemorar os 500 Anos do Voto a São Tiago Menor.

Desta vez, o orador convidado foi Martinho Mendes, do Museu de Arte Sacra do Funchal (MASF) que abordou o tema a “Iconografia de São Tiago Menor na Diocese do Funchal”.

Em declarações ao Jornal da Madeira, Martinho Mendes começou por explicar que “esta conferência bem poderia ter outro título, nomeadamente as representações alusivas ao apóstolo São Tiago Menor a partir da arte existente no Museu de Arte Sacra do Funchal e na diocese ou, se quisermos, a problematizar a representação de São Tiago Menor na Diocese do Funchal a partir da imagem que foi escolhida, como imagem dos 500 anos da celebração do voto”.

Ainda que não tendo sido escolhida pelo MASF, Martinho Nóbrega considera que não poderia ter sido escolhida melhor imagem ilustrativa do programa das comemorações dos 500 anos do Voto a São Tiago Menor, Padroeiro da Cidade do Funchal”.

Trata-se, adiantou, “de uma imagem bastante complexa, que tem uma história bastante curiosa, uma história que se justapõe, quer pela via da iconografia que originalmente representou o santo, mas que por via de uma aflição comunitária é eleita como tendo outra identidade”.

Duas identidades numa só imagem

Na verdade, a imagem original ‘retrata’ São Tiago Maior, que era venerado na Ilha desde os tempos do povoamento. Porém, “de acordo com a aflição narrada por vários cronistas e historiadores e por força da devoção e da piedade popular, os madeirenses requeriam a presença de imagens nas celebrações e sobretudo nas procissões”. Ora, em 1521, já existia na Sé do Funchal esta pintura que, diz-se, terá vindo da Igreja de Nossa Senhora do Calhau”.

Trata-se de uma pintura especial, que “tem uma iconografia também ela especial dentro das representações de São Tiago na Madeira, que é o facto de ser representado como peregrino, mas um peregrino que não tem o chapéu, nem a vieira”. Esse facto tornou a pintura “um pouco neutra” e possibilitou que a mesma fosse “adotada imediatamente pelos fiéis como sendo de São Tiago Menor”. Foi, de resto essa imagem que saiu em procissão, “aliás, ela tem o reverso todo pintado, incluindo a madeira da moldura com uma espécie de imitação de um pano, exatamente porque saindo no andor, observava-se a parte de trás”.

Trata-se assim de uma pintura “bastante rica”, que “combina duas dimensões: a dimensão de uma possibilidade iconográfica de um determinado santo, que documenta e traduz as primeiras devoções dos madeirenses e a que a cultura e a devoção da época impos uma outra atribuição”.

Por outras palavras, “é uma pintura que serve como ponto de partida para analisarmos esta dicotomia, complementaridade ou implicação de duas identidades numa só imagem”.

Foi tudo isso que Martinho Mendes procurou mostrar “numa aula a partir de imagens”, em que ficou evidente que “a iconografia daquela pintura representa São Tiago Maior” e em que foram apresentadas outras representações, essas sim já de São Tiago Menor entre os séculos XVI e XX. Tudo com o objetivo de “revisitar e dar a conhecer algum do espólio que temos no MASF e no fundo também clarificar as pessoas, aquelas que não são especialistas em História da Arte, que possam não conhecer estas particularidades da imagem selecionada e que possam não conhecer outras representações deste mesmo santo na atualidade”.

O mais importante é suscitar a fé

No final da conferência, D. Nuno Brás agradeceu a intervenção de Martinho Mendes e de também a da investigadora Rita Rodrigues, que levantou algumas questões face ao que foi apresentado.

O bispo do Funchal considera que a discussão em torno desta pintura e do facto da mesma retratar ou não São Tiago Menor é “legítima” e resulta até do facto da mesma ser, como explicou Martinho Mendes, suficientemente neutra para permitir que os ‘retratados’ fossem trocados.

No entanto, diz D. Nuno, “assim como ela está e foi assim que a recebemos, os elementos de São Tiago Maior não aparecem e alguns de São Tiago menor também aqui não estão e, portanto, creio que aqui só poderão prevalecer aquilo que são os 500 anos”.

Por outras palavras, tendo esta história de 500 anos em conta, aquele “sempre foi e sempre será São Tiago Menor”, na certeza de que o importante na Arte Sacra é “o passar de uma imagem pintada para aquilo que é a expressão da fé”. Dito de outra forma, “aquilo que se pede a uma imagem de Arte Sacra é que ela suscite a fé em quem se deixa ver por ela” e isso, frisou, “esta imagem suscitou ao longo destes 500 anos e continua a suscitar”.

Hoje conservada no Museu de Arte Sacra do Funchal, esta imagem disse ainda o bispo do Funchal, convida-nos “à interioridade”, a ser devotos, a fazer parte desta “torrente dos funchalenses que ao longo de 500 anos olharam para esta imagem e se sentiram mais próximos de São Tiago Menor e de Deus”. São Tiago Menor o tal “homem sábio, justo”, que ali está retratado e que nada tem a ver com a “ferocidade de São Tiago Maior, o mata mouros”.