Para onde nos leva a linguagem inclusiva?

D.R.

Com tanta mudança social torna-se difícil acompanhar as inovações culturais que roçam particularmente o ridículo, como é o caso da mudança das palavras, sob a capa da inclusão social das minorias não se sentirem ofendidas. Assistimos a um branqueamento de palavras do masculino para o feminino, em nome da dita igualdade de género, seja para as mulheres não se sentirem desprezadas ou por respeito às minorias do género. Em pouco tempo passamos desta ideia para uma linguagem que inclua a sensibilidade das minorias da comunidade LGBTQI… com expressões como “todos e todas”, “camaradas e camarades” tudo isto para que ninguém se sinta ferido na linguagem em sociedade. Está em processo a transformação da linguagem na luta por uma suposta igualdade de género. Quem não se lembra em 2017 da decisão do metro de Londres de cumprimentar os homens e mulheres no metro com um “Bom dia Malta”?!   

A obra literária 1984 de George Orwell (1949) previu a novilíngua: uma linguagem que para restringir ou condicionar o pensamento utiliza as palavras de uma forma inusitada, com o objetivo de restringir a liberdade de pensamento. Uma vez que as pessoas não pudessem referir-se a algo, isso passa a não existir. Através do meio do controle sobre a linguagem, o governo seria capaz de controlar o pensamento das pessoas, impedindo que ideias indesejáveis viessem a surgir.  

 A nova linguagem promove uma revolução cultural a nível mundial, através de um novo consenso global, um conjunto de novos paradigmas que se exprimem através de novas expressões linguísticas: cidadania global, desenvolvimento sustentável, igualdade de género, abordagem dos direitos… 

A revolução feminista e sexual do século XX inundou a cultura da sociedade ocidental com ideias revolucionárias que transformaram os costumes do Ocidente. Margaret Sander é uma das figuras principais desta revolução feminista radical queria “libertar” a mulher daquilo a que chamava “a escravatura da reprodução”. Sanger era socialista o seu pensamento teve continuidade em várias feministas marxistas como a americana Shulamith Firestone (1945) segundo a qual a fertilidade da mulher está na origem da sua opressão. Para fazer a revolução as feministas deviam tomar o poder- político, social e económico. 

A cultura pós-moderna assiste desde o séc. XX a uma desconstrução do papel do masculino na sociedade pelas lutas das feministas radicais, como é o caso da autora Simone Beauvoir ao afirmar “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Beauvoir recusa-se a assumir um papel “naturalmente predestinado” e de subalternidade da mulher, veiculado por uma sociedade patriarcal e de dominação masculina. A teorização das relações sociais de sexo e da opressão em função do determinismo biológico, no qual a mulher é relegada para um papel inferior, foi sempre uma constante obsessão na sua vida, no pensamento e literatura. Sonhou com uma sociedade em “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” A antropologia de Beauvoir, influenciada pelo existencialismo de Sartre, nega a precedência da existência sobre a essência, recusa a existência duma feminilidade natural e proclama a possibilidade da mulher se libertar da opressão da maternidade e do casamento. 

Depois da Segunda Guerra Mundial as grandes conferências da ONU visaram transformar progressivamente as mentalidades através do exercício do “direito de escolha”. 

A partir dos anos 90 as conferências da ONU promoveram várias reformas internas com o objectivo de alinhar os programas, fundos e agências com o novo consenso. Na conferência do Cairo, em 1994, sobre população e desenvolvimento levou à introdução nas políticas de saúde da disciplina de educação sexual no ensino público. 

A conferência de Pequim (1995) introduziu o novo conceito de género (gender perspective), tendo globalizado a ideologia feminista proposta por grupos minoritários. Em Portugal, os manuais escolares começaram a abordagem de educação sexual desde 2009, sendo obrigatória o que tem revelado uma grande polémica entre pais e Associação Portuguesa de Famílias (APF) que evitou assumir a responsabilidade desta formação nas escolas. 

Desde então a formação do conceito de género e da não discriminação das minorias LGBT tem entrado cada vez mais nos manuais de ensino escolar que vai do pré-escolar ao secundário; nas universidades a doutrinação do pensamento único e da novilíngua já está em curso: recentemente as universidades britânicas aceitaram que os alunos deem erros de ortografia como forma de integração das classes mais desfavorecidas no ensino superior.

Toda uma estratégia de branqueamento está a inundar a sociedade e a cabeça das crianças e jovens, impondo uma nova língua que pretende incluir a todos, enquanto assistimos serenamente a esta ditadura do pensamento único, do politicamente correcto, mesmo que isso reflita uma falsidade sobre a sexualidade humana que é e será sempre binária: homem e mulher.

Marta Roque
Investigadora em temas da Sociedade
Mãe de 5 filhos