Restaurar a Igreja

Foto: P. Giselo Andrade

Por diversas vezes, em celebrações na Sé do Funchal, deixei-me inquietar pela presença de vários andaimes que, a partir da zona do altar, percorrem todo o corpo da igreja. Naturalmente é sabido que estão a decorrer trabalhos de conservação e restauro dos magníficos tetos da Sé. 

No entanto, na celebração da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, os andaimes, como metáforas, recordaram-me as palavras de Jesus a São Francisco de Assis, ajoelhado diante do crucificado na capela de São Damião: “Francisco, vai e restaura a minha igreja que está em ruínas”.

O magistério do Papa Francisco, quer no apelo a uma Igreja em saída, ou seja, à reforma da Igreja em chave missionária, quer na preocupação às questões ambientais do cuidado da casa comum, ou ao sonho de fraternidade e amizade social, deixa transparecer a figura e missão de Francisco de Assis, que recebeu do Senhor o mandato: “restaura a minha igreja”. 

Na verdade, após a sua eleição, o Papa explicou os motivos da escolha do nome: “Enquanto o escrutínio prosseguia, enquanto os votos eram contados, veio ao meu coração o nome de Francisco de Assis”, acrescentando que São Francisco era “um homem pobre”, que impulsionou o “espírito de paz”. “Gostaria de uma igreja pobre e para os pobres”, disse o Papa. 

Esta sexta-feira, 11 de junho, dia em que a Diocese do Funchal assinalou os 500 anos da escolha de São Tiago Menor para seu padroeiro, e que coincidiu com o Dia do Clero e do Sagrado Coração de Jesus, tivemos a alegria de sentir uma maior comunhão com o Papa Francisco através do núncio apostólico D. Ivo Scapolo. 

O convite a “restaurar” a Igreja implica uma conversão pastoral e missionária, “que não pode deixar as coisas como estão”. Escreveu o Papa: “Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal, proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias”. (Evangelii Gaudium 27). 

No Dia do Clero recordei-me também do padre jesuíta português, João Felgueiras, que no passado dia 9 celebrou o seu centésimo aniversário. Este sacerdote vive em Timor Leste há mais de 50 anos e foi uma pessoa determinante na luta pela independência do país. Uma religiosa que trabalha na missão jesuíta em Timor descreve o papel do padre João Felgueiras como aquele que, ao ver o carro parado, começa a pôr gasolina e a consertar os travões e a direção. “O carro começou a andar devagarinho. Foram os impulsionadores que forçaram os timorenses a lutar”, afirma.