D. Ivo em Machico: “Devemos ter uma fé cada vez mais profunda na ajuda que só Deus nos pode conceder”

Em tempos de sofrimento, como os que vive Portugal e o mundo, há que assumir o compromisso de intensificar ainda mais a nossa oração, de fazer renúncias e sacrifícios e de pôr em evidência a celebração da Eucaristia.

Foto: Duarte Gomes

O Núncio Apostólico em Portugal, D. Ivo Scapolo, presidiu ao fim da tarde de quinta-feira, dia 10 de junho, a uma Eucaristia na igreja paroquial de Machico. No início da concelebração, coube à professora Sandra Gouveia, dar as boas-vindas a D. Ivo Scapolo, em nome da comunidade e falar um pouco sobre a história de Machico e da paróquia em particular, que tem na Igreja Matriz “um firme baluarte da fé” das suas gentes.

Depois de lembrar que foi em Machico, a 2 de julho de 1419, que se celebrou a primeira Missa, Sandra Gouveia falou ainda da cultura missionária da Ilha, que ajudou a construir a história da Europa e do Mundo, numa intervenção que não esqueceu as referências ao Cardeal José Tolentino Mendonça, ilustre filho da terra.

Já D. Nuno Brás expressou também, em nome da comunidade, a satisfação pela presença do Núncio, mas também por “vivermos como cristãos na Igreja Católica que tem o Santo Padre, Papa Francisco, como sinal visível de unidade”, de que D. Ivo Scapolo é também testemunho. Testemunho de que “não vivemos a fé sozinhos, mas sim em união com o sucessor de Pedro”, a quem D. Nuno Brás endereçou a “nossa oração, a nossa união, o nosso apoio e a nossa amizade”.

D. Ivo Scapolo começou a sua homilia dando conta da sua “verdadeira alegria” por “estar hoje [ontem] aqui nesta Igreja para celebrar a Eucaristia, neste 10 de junho, dia em que se celebra o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, mas também o dia da Solenidade do Anjo Custódio de Portugal, instituído pelo Papa Pio XII em 1952 e cujos 70 anos se vão celebrar em 2022.

“É interessante que neste mesmo dia o representante do Papa está aqui a celebrar esta festa nesta comunidade onde se celebrou a primeira Eucaristia”, constatou o Núncio, para logo acrescentar que esta é “uma ocasião para pôr em evidência que o dia 10 de junho, Dia Litúrgico do Anjo da Guarda de Portugal, é e devia ser cada vez mais um dia de intensas orações por Portugal”.

Depois de referir que as celebrações que aconteceram de manhã, no Funchal, “puseram em evidência a história e a beleza desta terra e de todo o Portugal, porque aqui se celebrava a festa de todo o Portugal”, o Núncio lembrou, no entanto, que “para nós que cremos em Deus, em Jesus Cristo salvador único, universal, que somos parte da Igreja não se pode celebrar uma festa sem o Senhor, sem agradecer ao Senhor por tudo o que concedeu a Portugal ao longo da sua história e por tudo o que continua a conceder de dons materiais e espirituais”.

Mas esta é também, frisou o representante do Papa, “uma ocasião para pedir ao Senhor, mediante a intercessão da Virgem Maria e de todos os santos, e mediante a intercessão do Anjo da Guarda, aquelas ajudas, aquelas graças especiais de que cada um de nós, que fazemos parte desta comunidade necessita, mas também que Portugal necessita e esta comunidade da Diocese do Funchal”.

Depois de lembrar que nos últimos tempos muita gente está a sofrer em Portugal, e no mundo, por causa da pandemia e das suas consequências, nomeadamente “a falta de trabalho e de possibilidade para ter uma vida digna” e que há “desafios importantes” e “decisões importantes”, nomeadamente no que toca a “acolher os que mais necessitam, os refugiados que chegam sobretudo de África”, D. Ivo frisou que estas são intenções que “devemos apresentar a Deus” nesta festa.

Estas realidades que hoje vivemos, explicou, mostram-nos que “devemos ter uma fé cada vez mais profunda na ajuda que só Deus nos pode conceder”, ao invés de acharmos que “podemos resolver os problemas sozinhos, com a nossa inteligência e as nossas capacidades”.

“Que esta celebração Eucarística seja uma ocasião para pôr em evidência a importância de rezar verdadeiramente e com muita intensidade pelas intenções particulares da comunidade, das pessoas, mas também um momento de comprometimento com a oração fiel, constante e generosa pela Nação, pelas necessidades especiais que tem Portugal”, pediu o representante do Papa.

D. Ivo Scapolo desafiou ainda os cristãos a “assumirem o compromisso de intensificar ainda mais a nossa oração e procurar fazer renúncias e sacrifícios por estas nossas intenções especiais” e a “pôr em evidência a celebração da Eucaristia, que é a oração mais bela que podemos fazer para louvar a Deus” e “o momento de oferecer toda a nossa vida ao Senhor pela salvação das pessoas, pela realização do grande plano de salvação que é o bem espiritual das pessoas e a salvação das almas, para que todos possamos um dia entrar na casa do Pai”.

Dia histórico para paróquia

No final da celebração, coube ao Cónego Manuel Ramos voltar a agradecer a presença de todos e em particular do Núncio Apostólico em Portugal, neste que foi um dia que ficou para a história de Machico. Um “momento da vida e para a vida desta comunidade paroquial”, como frisou o pároco e conforme demonstra a acta que foi elaborada para fazer memória futura deste dia.

Presentes nesta Eucaristia, concelebrada por D. Nuno Brás, pelos cónego Fiel de Sousa e Manuel Ramos e pelo Pe. Carlos Almada, estiveram os presidentes da Junta de Freguesia de Machico, Alberto Olim, e da autarquia, Ricardo Franco. Este último usou da palavra para falar da história de Machico e para agradecer a visita do representante do Papa ao povo de Machico, “um povo de Deus, devoto a Cristo e à Igreja”.

Ricardo Franco aproveitou também para sublinhar o “excelente relacionamento” entre o município e as várias paróquias e para evidenciar o “contributo importantíssimo da Igreja no apoio às populações, designadamente na vertente social, por iniciativa das próprias paróquias ou através da Cáritas Diocesana”, bem como seu papel na “formação catequística e cívica das nossas crianças e jovens, sem esquecer os valores incutidos pelo escutismo católico”.

Terminou a breve intervenção, que também incluiu referências a D. Tolentino de Mendonça, reforçando a “disponibilidade do município em manter esta relação saudável, de proximidade e de cooperação tão necessária ao desenvolvimento sócio cultural e patrimonial, em benefício dos nossos concidadãos e o mesmo tempo do povo de Deus, que somos todos nós”.

Ricardo Franco aproveitou ainda a oportunidade para oferecer ao Núncio os Anais do Município de Machico e um exemplar do DVD “Os Fachos”, uma tradição secular da cidade e do povo de Machico.

D. Ivo agradeceu as ofertas, ao Senhor por lhe ter permitido estar em Machico, ao bispo do Funchal por o ter convidado a visitar a diocese e a todos quantos participaram nesta celebração. Fez também referência D. Tolentino de Mendonça lembrando que, antes de o nomear cardeal e de lhe dar as funções que hoje exerce, o Papa o chamou para orientar um retiro.

“O papa chama um filho de Machico para ir a Roma iluminar o Papa e os seus colaboradores, para transmitir a fé desta comunidade, isso é muito significativo”, constatou, para logo acrescentar que “agora, estando aqui e participando nesta Eucaristia e escutando as palavras de boas-vindas que me dirigiram, senti verdadeiramente que aqui há uma realidade de fé e um património que deve ser mantido e reforçado com as novas gerações”.

De resto, esta visita à ilha permitiu-lhe ver “coisas maravilhosas da arte e da cultura”. Porém, a coisa mais bela que encontrou foi “a fé das gentes”, sendo esse o “património mais importante e mais belo”, pelo qual D. Ivo Scapolo convidou a “rezar muito”, frisando que tal vai “beneficiar também a todo o resto de Portugal e ao mundo, porque o mundo necessita de fé e de testemunhos corajosos, sobretudo nestes dias de tanta confusão e dificuldades”.