Celebrar o 10 de Junho: patriotismo ou “nacionalismo”?

D.R.

No dia 10 de junho celebra-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Este é considerado também o dia da Língua Portuguesa e do cidadão nacional.

Celebra-se, mas como? É que vivemos tempos conturbados pelas contínuas polémicas sobre  reescrever a nossa história, destruir estátuas, apagar tradições culturais e até denegrir ou banir da memória coletiva personagens da nossa história e outras tantas idéias controversas como a de “modificar” a Língua para a tornar mais inclusiva. É enorme e destruidora a confusão entre patriotismo entendido como amor à Pátria e “nacionalismo” entendido como superioridade agressiva de uma nação em relação a outras.

Chegados a este ponto – que, de resto, não é exclusivo da Pátria Portuguesa – parece ser indispensável parar para pensar o qual o real significado de pátria, nação ou nacionalidade versos “nacionalismos”, “totalitarismos” ou “fundamentalismos”. Lê-se no memorável discurso de João Paulo II nas nações Unidas em 5 de Outubro de 1995: «A natureza comum move homens e mulheres a sentirem-se, tal como são, membros de uma única grande família. Mas devido à historicidade concreta desta mesma natureza, estão necessariamente ligados de forma mais intensa a grupos humanos concretos: primeiro a família, depois os vários grupos de pertença, até ao conjunto do respectivo grupo étnico-cultural, que, não por acaso, indicado pelo termo “nação” evoca “nascimento”, enquanto que indicado pelo termo “pátria”  (“fatherland”), evoca a realidade da mesma família.[…]  O problema das nacionalidades situa-se hoje num novo horizonte mundial, caracterizado por uma forte “mobilidade”, que torna cada vez menos definidas as  fronteiras etno-culturais dos vários povos, devido ao impulso de múltiplas dinâmicas como as migrações, os meios de comunicação social e a globalização da economia. […] Neste contexto é necessário esclarecer a diferença essencial entre uma forma perigosa de nacionalismo, que prega o desprezo por outras nações ou culturas, e o patriotismo, que é em vez disso um amor justo pelo próprio país de origem. O verdadeiro patriotismo nunca procura promover o bem da própria nação em detrimento dos outros. O nacionalismo, especialmente nas suas expressões mais radicais, opõe-se, portanto, ao verdadeiro patriotismo, e hoje temos de nos esforçar por assegurar que o nacionalismo exacerbado não continue a propor as aberrações do totalitarismo sob novas formas. Este é um compromisso que é obviamente válido mesmo quando assume, como fundamento do nacionalismo, o mesmo princípio religioso, como infelizmente acontece em certas manifestações do chamado “fundamentalismo”.»

Por mim, não tenho medo nem vergonha de afirmar que é humano e é bom ser patriota, amar a Pátria, com a sua cultura própria, como família. E por esta razão amo também a Pátria do outro, do estrangeiro, daquele que é diferente de mim e ama a sua Pátria, a sua cultura como família. E mais, é bem-vindo aquele que quiser adotar a minha pátria como sua, trazendo-me algo da sua cultura e recebendo da minha porque assim seremos ambos mais ricos. Seremos, então, verdadeiros cidadãos da pátria Portuguesa com os mesmos direitos e deveres!

Rosa Ventura – professora