Cristo Rei: D. Nuno crismou 25 jovens a quem pediu que tenham a forma de Deus e sejam sua presença no mundo

Foto: Duarte Gomes

A paróquia do Cristo Rei assinalou, no passado dia 6 de junho, a solenidade do Santíssimo Sacramento com uma Eucaristia presidida pelo bispo do Funchal.

Uma celebração que ficou ainda marcada pela administração do Sacramento do Crisma a 25 jovens, que acabariam por ser o centro das atenções do prelado, isto depois de devidamente apresentados pelo Pe. Manuel Ornelas, pároco de Cristo Rei, que pediu para eles o Espírito Santo de modo a que com a ajuda deste “eles sejam no mundo a presença que o mundo precisa”.

Na sua homilia, D. Nuno Brás começou por recorrer ao exemplo do vidro e à forma como é tradicionalmente moldado, para lembrar aos crismandos, e à restante comunidade, que essa é também a forma como Deus trabalha connosco e vive connosco: a partir de dentro.

De resto, lembrou “a Eucaristia que nós comungamos é Deus que vai entrando em nós, vai entrando na nossa vida para nos transformar”. Aliás, “nós podemos mesmo dizer que a vida cristã tem a forma da Eucaristia”, o que significa que “cada cristão, à conta de tanto comungar, devia mostrar Jesus Cristo”, Ele que “dá forma à nossa vida” e nos torna facilmente identificáveis como cristãos que somos.

E essa forma, lembrou, manifesta-se de várias maneiras. Primeiro, no acolhimento, isto é, no “ser capaz de escutar, ser capaz de acolher Deus e de acolher o outro, os nossos amigos, mas também os inimigos”. E no ser capaz de se interrogar acerca do que Deus quer de mim, de cada um, independentemente dos planos que eu tenho para a minha vida.

Outra forma é o agradecimento. Nem tudo nos é devido e devemos saber agradecer, algo que por vezes “temos muita dificuldade” em fazer. Custa-nos dizer ‘obrigado’, custa-nos sentir que “ficamos devedores daquela pessoa” e sobretudo “custa-nos estar agradecidos a Deus. Agradecidos pelos pais que Ele vos deu, pelos irmãos que Ele vos deu, pelos catequistas”.

A terceira forma é a do serviço. É “estarmos disponíveis para aquilo que for preciso, seja para dar catequese, para serem acólitos, para serem bons alunos e bons profissionais, para estar à frente de uma associação cultural, para fazer parte da banda de música”. Disponíveis para “aquilo que os outros precisarem e para aquilo que Deus precisar de mim”.

Esta forma da Eucaristia, prosseguiu D. Nuno, “é-nos dada interiormente e nós precisamos de a ganhar e de a receber” e é o Espírito Santo, este sopro, que nos dá forma de Deus”.

Este é, frisou, o grande desafio que Deus nos coloca e muito particularmente aos que são crismados. O de “deixarmos que Ele nos dê a sua forma, é deixarmos que Ele trabalhe e viva convosco de tal forma que possam mostrá-LO e possam ser a sua presença”. Daí o apelo para, num minuto de silêncio, “agradecermos ao Senhor todo este caminho e toda esta vida que Ele já fez connosco e mostrarmos que estamos disponíveis para aquilo que Ele quiser, para ter a sua forma e para sermos a sua presença e para O mostrarmos no meio do mundo”.

Santíssimo com direito a tapete

Antes da bênção final, o Santíssimo Sacramento percorreu a paróquia, seguindo um trajeto ornamentado por um belo tapete de flores e acompanhado por elementos da Banda da Ribeira Brava.

Este foi mais um momento alto desta celebração, ainda que com as restrições impostas pela pandemia a ditarem, por exemplo, que o Santíssimo não fosse acompanhado pelos fiéis e que não houvesse os ajuntamentos de outros anos ao longo do percurso, para ver o Senhor passar.

O próprio tapete, mais simples do que em anos anteriores, foi a forma da comunidade manter a tradição daquele que se diz ser um dos maiores, senão mesmo o maior tapete que se faz na ilha em louvor do Santíssimo.

Foi para essa comunidade, que o Pe. Manuel dirigiu os seus primeiros agradecimentos no final da celebração, salientando a forma como a mesma “se tem preparado durante este ano da Eucaristia, para viver a sua festa”.

Agradecimentos extensivos aos catequistas, aos pais, aos que colaboraram no ofertório, aos irmãos da Confraria do Santíssimo, aos crismandos e a D. Nuno Brás, cuja visita é sempre encarada como “uma bênção”.

10 anos de trabalho e dedicação

Enquanto o Santíssimo percorria a paróquia, a equipa de reportagem do Jornal da Madeira aproveitou para falar com os catequistas que, durante 10 anos, acompanharam 20 dos jovens deste grupo, já que cinco deles eram de fora da paróquia.

Maria José Martins recorda que começou neste serviço à Igreja quando o filho entrou para o primeiro ano de Catequese, filho esse que também fez o crisma neste dia.

Na altura o grupo estava entregue a uma outra catequista, a senhora Conceição que, ao ver-se a braços com 20 crianças, pediu ajuda. Começava aí uma caminhada conjunta que duraria até ao 6º ano, altura em que a senhora Conceição teve, por motivos de saúde, de se afastar.

É nessa altura que Maria José, vendo-se a sós com os jovens, pede ajuda ao marido, João Miguel. Ficam ambos a orientar o grupo que a certa altura chegou a ser composto por mais meninos e meninas, mas que a emigração e as mudanças de paróquia, reduziu para os 20.

Ao longo destes dez anos Maria José diz que maior dificuldade foi “a falta da presença dos pais”. Quando assim é, os filhos interrogam-se e acham que “se os pais não vêm, então também eles não precisam de vir”.

João Miguel corrobora o que a esposa acaba de referir e acrescenta que “o catequista partilha a sua experiência e o que está no catecismo”, mas é preciso que “os pais ajudem o catequista a levar em frente o que é ensinado aos filhos”. No fundo, “tem de haver uma união de esforços, porque senão é o que se vê e cada vez mais jovens fazem o crisma e fogem da Igreja, com exceção de meia dúzia que de facto se consegue cativar e que gostam de participar em tudo, porque a Igreja não é só catequese e toda a Igreja é uma catequese e a participação de todos conta”.

Com fé e paciência, e no caso de Maria José com uma experiência acumulada uma vez que já havia dado catequese durante dez anos na sua paróquia – Câmara de Lobos – tudo se foi levando, até que chegou este dia tão esperado por todos.

Um dia que nem a pandemia veio atrapalhar, ainda que com regras novas, como não atrapalhou a catequese, já que os jovens vinham no dia próprio levantar o material para trabalhar em casa e oito dias depois traziam as respostas e as eventuais dúvidas.

Sobre a recente decisão do Papa de instituir o Ministério de Catequistas, Maria José e João Miguel, dizem que é “um reconhecimento do trabalho” e também um “alento para podermos continuar nesta caminhada”.

Uma nota final em relação à celebração de domingo, para o coro que solenizou a mesma. Tratou-se do coro “os Pastores do Monte”, composto apenas por homens, que abrilhantaram com as suas vozes esta Eucaristia, em louvor do Santíssimo Sacramento.