Pentecostes, Catolicidade e Emigração de Reciprocidade

D.R.

O tempo do Pentecostes vem lembrar uma nota essencial do cristianismo, a sua universalidade. O facto de os ouvintes dos apóstolos serem de “todas as nações debaixo do céu” (Act1-11) e todos os compreenderem confirmava a repetida intenção do Criador: “crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra e submetei-a; e mantei o domínio sobre o peixe do mar e as aves do céu e sobre todos os seres que se movem sobre a terra” (Gen1, 28; 9, 1, 7; 11, 8-9). Depois do dilúvio, à família de Noé, repete-se: “crescei e multiplicai-vos e enchei a terra” (Gen9,1). Um só povo e língua quiseram construir uma cidade e uma torre para chegar aos céus como deuses para contrariar a dispersão “pela face de toda a terra” (Gen11,4). Mas o Senhor veio desfazer essas pretensões de orgulho e oposição à dispersão ordenada. Confundiu a única língua e já não se entendiam (Babel). Talvez se possam ver algumas semelhanças com o Ocidente de hoje, pretensioso, a construir cidades e torres altas cada vez mais desumanas, vida mais confusa e egocêntrica. Também hoje a Voz do Espírito manda dispersar “por toda a face da terra” (Gen11, 8-9) para a cuidar toda “como casa comum”. Da abundância consumista e poluidora de alguns centros grandiosos, para poucos, manda partir para as periferias dos carenciados e oprimidos. A família de Abraão foi mandada sair de Ur da Caldeia para a terra de Canaan, e de Haran e da sua parentela e casa do seu pai para uma terra que lhe ia indicar, Egito, Neguev… (Gen12, 1). No dia da Ascensão é Jesus a enviar solenemente, ao mundo todo, os apóstolos e discípulos: “ide por todo o mundo e anunciai a Boa Nova a todas as nações e batizai em nome do Deus Trino. Confirmou assim a catolicidade, universalidade (katholou) como um todo holístico do plano divino, ou seja, o primado do todo do Reino de Deus e não de uma parte.

A narrativa do Pentecostes reafirmou esta universalidade aos reunidos de todas as nações debaixo do céu, cada um com a sua língua, para receberem o sopro do Espírito da Nova Aliança. Quase duas dezenas de povos e nações entenderam a língua dos apóstolos sobre as maravilhas de Deus com efeito contrário à Babel. Nesta um povo de uma só língua, corrompido de orgulho em cidade de alta torre gerou confusão; no Pentecostes, muitos vindos da diáspora, viveram o espanto da compreensão global. Os dons do Espírito Santo eliminam barreiras, geram unidade, entendimento e transparência. Só o Espírito supera a Babel antiga e moderna. Hoje nem com tradução simultânea de computadores se atinge transparência espiritual na comunicação.

Será que hoje, no Ocidente, com amontoados de torres e cidades, o entendimento recíproco não funciona por rejeição do Espírito de Jesus? As tecnologias de tradução deixam de fora a verdade interior e a harmonia integral da consciência. No dentro do coração, em vez de consciência harmoniosa, abundam montões de corrução e poluição. E em vez de cuidados da terra e do bem comum desejados pelo Criador, amontoam-se pessoas em espaços superlotados, sujos, miseráveis. Não deveria haver mais diáspora e emigração recíproca de pessoas; mais saberes e técnicas partilhadas entre povos? Uns a virem para usufruir de investimento, tecnologias, empreenderes e empregos; outros, a levar dos países da abundância o saber-fazer e investimento para cultivar espaços imensos improdutivos e desertos noutros territórios. Emigração de intercâmbio com benefícios recíprocos garantidos por governos honestos, precisa-se. A África definha e morre à fome por falta de governança séria, solidariedade, justiça social, soberania responsável pelo bem comum. Uns e outros emigrariam para receber o que não têm e dar o que têm. De um lado, as cidades torreadas ficariam menos superlotadas e poluídas pelos consumismos do descarte; do outro, as aldeias e vilas da fome,  menos vazias de bens e menos desertas.  Como diz o Papa Francisco: “o egoísmo, a indiferença e os estilos irresponsáveis estão ameaçando o futuro dos jovens”; e, ainda, “das mãos de Deus recebemos um jardim; aos nossos filhos não podemos deixar um deserto”. Para isso: enviai, Senhor, o vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra!