“Padres Vicentinos estão em processo de reconversão pastoral”

Padre Nélio Pita, superior provincial, diz que não basta fazer o que sempre se fez

Chama-se Nélio Pita é madeirense, mais precisamente do Estreito de Câmara de Lobos. É padre, licenciado em Teologia e Mestre em Psicologia Clínica e neste momento desempenha a função de superior provincial da Congregação da Missão, conhecidos como Padres Vicentinos, função para a qual foi eleito há um ano, tendo ainda dois anos de trabalho pela frente.

Numa recente visita à ilha, para acompanhar um seminarista que está a cumprir o noviciado, esteve à conversa com o Jornal da Madeira, neste que é sempre um regresso a casa e uma oportunidade para “celebrar e estar com as pessoas”. 

Uma conversa em que falamos do momento atual, com todos os desafios, incluindo os resultantes da pandemia, mas também do futuro e da necessidade de “reconversão pastoral” na Congregação da Missão, uma vez que as Missões Populares e a formação do clero são expressões de um serviço, em parte com necessidade de renovação e em parte assegurado agora por outros agentes.

Jornal da Madeira – Qual foi o motivo desta visita à Madeira?

Pe. Nélio Pita – Vim acompanhar o diretor e o nosso seminarista que está cumprir o seu processo de formação para o sacerdócio, aquilo a que na nossa congregação chamamos de Seminário Interno, e que na vida consagrada em geral equivale ao tempo de noviciado. Como agora temos poucos candidatos decidimos fazer um Seminário Interno itinerante, em que o seminarista passa cerca de dois ou três meses em várias comunidades dos padres Vicentinos. Nós escolhemos as mais periféricas e com menos gente, nomeadamente Chaves, Salvaterra de Magos e a Madeira. Claro que aproveitei também para estar com a comunidade, escutar os confrades e perceber como decorre o trabalho que é feito na Madeira, bem como para saber da própria situação do Hospício (Fundação Princesa D. Maria Amélia), obra assistida espiritualmente pelos padres Vicentinos e onde servem também as irmãs Vicentinas.

“está por cumprir aquilo que o Papa chama da reconversão pastoral, isto é, que não basta fazer sempre o que se fez, ou sempre da mesma maneira, é preciso novidade”.

Jornal da Madeira – Que realidade encontrou?

Pe. Nélio Pita – Sinto que há, do ponto de vista pastoral, o congelamento de algumas atividades por causa da covid-19. Os cuidados foram redobrados em relação ao Externato e ao Lar da Fundação Princesa D. Maria Amélia. As dificuldades, no entanto, desafiam-nos para encontrarmos novas soluções. São dificuldades que nos ajudam a crescer.

Jornal da Madeira – Mas vir à Madeira é também regressar a casa…

Pe. Nélio Pita – Sim, é verdade. Aproveito para ir à minha terra e a mais alguns lugares, para celebrar e estar com as pessoas, o que é muito importante para mim como madeirense e como sacerdote… No fundo, é ver e participar na vida ativa das pessoas. E a vida mudou muito de há 20 anos para agora. A realidade social e a realidade eclesial já não são as mesmas. As igrejas, outrora cheias, não estão agora tão cheias e a covid não é a única razão. Sinto que há uma diferença muito grande entre aquilo que era a geração dos meus pais, a minha geração e dos meus irmãos e agora a dos meus sobrinhos. Quando falamos de prática religiosa e de compromisso cristão, nota-se aquela atitude dos mais novos: «calma aí, isso não é nada comigo…». E só notamos isso quando estamos no terreno.

Jornal da Madeira – Que desafio tem sido este de ser superior provincial da Congregação da Missão?

Pe. Nélio Pita – Nós escolhemos como lema para o nosso projeto de três anos três palavras: fidelidade, renovação e compromisso. Primeiro, a nossa ação deve ter sempre em conta aquilo que é o nosso carisma, a nossa tonalidade inicial. Nessa fidelidade tem de haver renovação, não pode ser apenas manutenção, o que pressupõe novas vocações e também naquilo que são as estratégias pastorais. A Madeira é um caso único no panorama nacional. Diria até que é um caso de excelência. Muito do melhor que os Padres Vicentinos fizeram foi concretizado aqui na Madeira e isso acontece em parte porque nunca tivemos aqui uma paróquia. Fui pároco durante 12 anos e sei por experiência própria: as paróquias são estruturas necessárias e indispensávies, mas também prendem o sacerdote e retiram dinamismo missionário. É um trabalho muito exigente com as missas, os batismos, os funerais, os casamentos… A comunidade dos Padres Vicentinos, sem esse espaço paroquial próprio, encetou um diálogo permanente com os agentes pastorais da Ilha, nomeadamente com o clero local. Teve de criar e recriar estratégias para anunciar a Boa Nova e, ao mesmo tempo, dilatar o campo de ação como Vicentinos. Acho que este trabalho foi bem sucedido. Por isso mesmo, uma boa parte dos padres e das irmãs eram madeirenses. Pergunto-me, por vezes:como é que a partir de uma casa tão pequena, que funcionava como uma ilha dentro da ilha, fizeram tanto, não apenas na Diocese do Funchal, mas em todo o país? É nesse sentido que falo de renovação, que passa por mantermos essa dinâmica, essa metodologia e procurar replicá-la noutras zonas, com gente nova. De resto, os Padres Vicentinos nasceram para trabalhar nas missões populares e para formar o clero, o que depois vai dar outras iniciativas, como a formação dos leigos. Outras atividades como as paróquias são sempre áreas de ação legítimas, mas não devem ser o principal objetivo de uma instituição que tem tão poucos recursos humanos. 

Pedras Vivas 30 de maio de 2021 (A4)

Pedras Vivas 30 de maio de 2021 (A3)

Jornal da Madeira – Assumiram durante anos essa tarefa da formação do clero…

Pe. Nélio Pita – Sim. Para além dos trabalhos ligados à assistência espiritual das Irmãs e dos utentes no Hospício, os padres estiveram aqui durante dezenas de anos como responsáveis e colaboradores da formação do clero. Houve figuras ilustres que viveram nesta casa, como o Pe. Ernest Smith, que era um sábio nas áreas das ciência exatas, da botânica e da zoologia, ou o Pe. Fernand Portal, que deu início ao chamado Movimento Ecuménico Internacional, ou ainda Léon S. Prevot, fundador da Obra das Escolas de S. Francisco de Sales ou ainda, mais recentemente, o Pe. Braúlio Guimarães. Eles deixaram uma marca porque investiram na preparação e trouxeram para a área da formação sacerdotal uma nova visão. Eles tinham presente o preceito de S. Francisco de Sales, mestre espiritual de S. Vicente de Paulo: «a ciência é para o padre o oitavo sacramento da Igreja: juntamente com a piedade, constituem os dois olhos de um ministro da religião».  Não devemos ter receio de fazer coisas diferentes se elas são boas e se são meios para servir a Igreja e a humanidade em geral. Essa é uma preocupação que eu tenho…

“A Igreja tem de fazer um esforço para continuar a ter a linguagem perceptível, capaz de transmitir uma mensagem que entre no coração das pessoas, que seja uma resposta às inquetações mais profundas

Jornal da Madeira – Quando fala de compromisso, refere-se a quê em concreto?

Pe. Nélio Pita – O compromisso tem a ver com a Igreja, com um mundo melhor e com as pessoas mais frágeis. O carisma Vicentino é um carisma que se distingue precisamente pela organização da caridade. O Vicentino não pode ser um funcionário que vai fazer umas coisinhas e depois se vai embora, mas trata-se de dar a vida por essa causa. Os Padres colaboram com os ramos da nossa Família Vicentina, nomeadamente as Filhas da Caridade (Irmãs Vicentinas) e a Sociedade de São Vicente de Paulo, no serviço aos mais carênciados. Aqui, na Madeira, está também presente e de boa saúde Associação Internacional de Caridade, que se reúne aqui neste Hospício.

Jornal da Madeira – Estes são então os três pilares da sua ação para estes três anos de “mandato” de que ainda só cumpriu um. Se tivesse de fazer um balanço deste primeiro ano qual seria? 

Pe. Nélio Pita – Eu sabia que a Covid-19 ia provocar transtornos, mas tem provocado mais transtornos do que eu esperava. Desde logo, obrigou os padres que são de pendor muito ativo a recolher armas. Tivemos de deixar de fazer muitas coisas e passar a fazer outras, como celebrar com a igreja vazia, com tudo o que isso representa para nós, povo de Deus que tem na participação da Eucaristia Dominical mais do que um hábito, um elemento essencial e estruturante da nossa identidade. Mas, se por um lado, é difícil nesse sentido, ficámos sem pé de alguma forma, tivemos de guardar projetos na gaveta e esperar, por outro lado, a Covid também veio acelerar processos, alterar estratégias, obrigar-nos a ser mais criativos. Hoje em dia, reunimo-nos com pessoas do outro lado do mundo e isso foi bonito, isto é, o sentido da comunhão, reinventar expressões novas de comunhão, é algo gratificante. Tivemos ainda de arregaçar as mangas e dizer que não podemos abdicar de coisas fundamentais como ajudar os mesmos pobres. Nós somos madeirenses, estamos habituados a contextos adversos, a lutar contra os limites, a ir mais longe, mesmo quando parece que não há mais caminho para fazer. O ilhéu vê para além do que se vê. O maior receio é de perder esta visão: quando as pessoas se acomodam e dizem que está tudo bem, ou que isto é assim e deve ser sempre assim… Para aqueles que têm fé, experiências dolorosas tipo Covid, tudo isso são também territórios onde nos interrogamos: o que é que o Senhor me pede para fazer neste momento?

Jornal da Madeira – No meio de tudo isto acabou por cumprir-se o desejo do Papa Francisco de aumentar as igrejas domésticas… 

Pe. Nélio Pita – Sim. Mas está por cumprir aquilo que o Papa chama da reconversão pastoral, isto é, que não basta fazer sempre o que se fez, ou sempre da mesma maneira, é preciso novidade. De alguma maneira, a Covid-19 veio obrigar-nos a isso e hoje estamos a fazer coisas que nós não pensávamos há dois anos. Eu estou convencido que aqui na Madeira, onde predomina um cristianismo sociológico, onde o peso da tradição ainda é grande, se vão multiplicar espaços de reflexão e de experiências significativas. Sem querer alongar-me muito neste tópico, saliento o seguinte: se acreditamos que todo o homem procura Deus, mesmo quando lê Karl Marx e por aí adiante, então somos chamados a orientar a procura dos irmãos, em especial os mais novos, para que descubram o tesouro que é Deus. A Igreja tem de fazer um esforço para continuar a ter a linguagem perceptível, capaz de transmitir uma mensagem que entre no coração das pessoas, que seja uma resposta às inquetações mais profundas de cada homem e de cada mulher. Assim, as pessoas vão perceber que Igreja não é um lugar de passagem, mas um lugar transformador, um lugar significativo na minha existência, o lugar onde eu encontro os meus irmãos, um lugar onde encontro Deus. Quando nós vivemos na Igreja uma experiência significativa, aquela que provoca um arrepio na espinha, a nossa vida ganha outro sentido, outra motivação e, por isso mesmo, a Igreja torna-se indispensável. E aos poucos percebemos que «eu sou essa Igreja…»

Jornal da Madeira – O que é que ainda falta fazer nos próximos dois anos?

Pe. Nélio Pita – Falta muita coisa… Nós estamos mesmo a começar. Falta à província também um projeto que nos congregue, estamos num processo também de reconversão pastoral. Durante muito tempo acho que soubemos claramente o que é que teríamos para fazer, nomeadamente as Missões Populares e a formação do clero, mas hoje esse serviço já não é tão evidente. Acho que precisamos de perceber ainda melhor qual é o nosso lugar neste mundo. Por isso, também a aposta na renovação. Precisamos de perceber de que forma podemos dar uma melhor resposta à Igreja, em conformidade com o nosso carisma. Não nos limitarmos a agir, porque muitas vezes a ação é uma incapacidade para pensar. Nós temos de refletir e de rezar para perceber o que é que Deus quer para este tempo e não ter medo de perguntar: Senhor o que é que queres que eu faça neste momento? Acho que ainda nos falta um pouco isso. Encontrar o nosso lugar. É por isso que a Madeira é inspiradora e foi, durante muito tempo, um modelo que pode ser replicado. 

Jornal da Madeira – Costuma referir-se aos Pe. Vicentinos como uma espécie sobrevivente, depois de duas extinções. O que é que vos falta para que isso não aconteça e para que mais jovens queiram dar o passo e pertencer à Congregação da Missão. 

Pe. Nélio Pita – Está a tocar num assunto que é transversal. A CM já foi extinta por duas vezes: em 1834 e em 1910. Somos teimosos e temos sobrevivido. Quanto à problemática da falta de vocações, infelizmente não é apenas uma questão nossa. A Igreja na Europa está a viver um inverno que tem a ver com muitos fatores. A questão demográfica é um deles. Antigamente as famílias tinham sete, oito filhos e era natural que algum quisesse enveredar pelo sacerdócio. Hoje, mesmo nas famílias católicas, com dois filhos ou três, se um colocar a possibilidade de ser padre, logo se levanta uma série de interrogações. As famílias preferem ter um filho que seja outra coisa qualquer, excepto ser padre. Há, graças a Deus, honrosas exceções. Outro fator tem a ver com a imagem que as pessoas têm do padre. Se perguntássemos o que as pessoas pensam deles, ouvimos cada resposta… Quando uma instituição aparece na lama por qualquer situação não é difícil que os seus membros sejam também ridicularizados e difamados e já sabemos como as generalizações funcionam: pode haver 100 pessoas a fazer bem, mas basta um para que a imagem seja ensombrada. Enfim, quando persiste uma ideia negativa, quando o preconceito reina, então não há ninguém no seu perfeito juízo que queira ser identificado com essa instituição, a não ser uma pequena minoria, esclarecida e corajosa. Neste sentido, reconheço que se há uma coisa que eu acho que nós precisamos recuperar, como instituição, é a nossa autoestima. Por vezes levamos “tareia” de todos os lados… se os portugueses em geral já têm uma baixa autoestima, na Igreja a situação é pior. Seria preciso uma psicoterapia coletiva, até para alivar o sentimento de culpa que persiste pelos erros históricos e não só. Acima de tudo, temos de dizer que somos portadores de um tesouro eterno e que, não sendo perfeitos, somos instrumentos necessários, que esta nossa missão foi-nos confiada pelo próprio Deus e, por isso, dispomo-nos, mesmo em contextos adversos, a dar o melhor de nós, a sacrificar a nossa vida por esta causa. As pessoas por vezes enxovalham-nos, mas não devemos ter medo disso. E, quando nós assumimos isso com todas as forças, somos interpelantes e contagiantes.

Jornal da Madeira – E o que se deve fazer quando se tem dúvidas ou receio de dar o passo para o sacerdócio?

Pe. Nélio Pita – Primeiro as pessoas não se devem angustiar por ter dúvidas. Depois devem procurar alguém que seja mais velho, mais experiente com quem sintam afinidade com quem possam conversar abertamente. Depois há que não ter medo, porque o Senhor dá a vocação e vai dar os meios para que a vocação se materialize.

“Não devemos ter receio de fazer coisas diferentes se elas são boas e se são meios para servir a Igreja e a humanidade em geral. Essa é uma preocupação que eu tenho…”.

Jornal da Madeira – Nunca é demais falar de vocações e da necessidade de escutar o chamamento. Quer partilhar a sua experiência? 

Pe. Nélio Pita – Eu fazia parte de uma banda, a Banda Recreio Camponês, estudava na Jaime Moniz e estudava trompete no conservatório. O meu sonho era ser músico. Durante a adolescência não queria saber deste assunto e não acreditava no que me tinham transmitido na catequese, estava em clara contradição com o que eu aprendia na escola. Mas aos 16, 17 anos, depois de um tempo de negação, passei por uma experiência de conversão e aderi a uma nova realidade, um novo projeto, que não sabia bem o que era. Percebi que a proposta do Evangelho era uma proposta de felicidade para os homens. Para mim e para os outros. Quando eu percebi isso foi extraordinário. Quando nós entendemos que o cristianismo não é uma espécie de colete de forças para amarrar as pessoas, nem para as culpabilizar, mas proposta de vida em plenitude, a existência ganha outro sentido, outra beleza. Intuí isso aos 17 anos e depois, com a ajuda do sacerdote, comecei a pensar na possibilidade de me associar ao projeto e ser missionário.

Jornal da Madeira – E o que o levou a optar pelos Vicentinos? 

Pe. Nélio Pita –Não fui eu que fui ter com os Vicentinos, mas foram eles que apareceram, como dom de Deus, no meu caminho. Eu assumi a vocação dentro da família vicentina como forma de servir a Igreja, em especial os membros da periferia. E hoje continuo a pensar que foi essa a vontade de Deus a meu respeito. Por outro lado, eu sou um espírito um bocado inquieto, custa-me um bocadinho esta coisa de estar num lugar, apenas numa cidade ou país. Gosto muito da dimensão do imprevisível, dos territórios por explorar e, por isso, o desejo de ir para as missões. Sempre sonhei com isso. Os meus supeirores disseram, no entanto, que a Missão é aqui. E eu sou obediente… Mas, de alguma maneira, trabalho nessa vertente que é a Missão ‘ad gentes’: vamos fazer um protocolo para colaborar com a formação dos seminaristas em Moçambique e Angola. Veremos… 

Jornal da Madeira – Como é que a família reagiu? 

Pe. Nélio Pita – Nasci numa família católica. Sou filho de um condutor da Rodoeste e de uma dona de casa, que tiveram 8 filhos. Um dia cheguei e disse que estava a pensar nisto, que ia experimentar. A minha mãe deve ter achado que eu não estava bom da cabeça. Antes, por um período, eu não queria saber dos assuntos da igreja. A vida mudou subitamente e eles, os meus pais, não sabiam… Lembro-me desse tempo e não me dou por arrependido, pelo contrário, acho que a minha vida tem sentido. Às vezes penso no meu pai e naquilo que ele fazia como uma metáfora da minha própria vida. Era um homem que fazia pontes entre o rural e o citadino. O meu trabalho também é esse: fazer pontes entre este mundo e o outro. Não estou arrependido e sinto que a vida sacerdotal é um projeto inacabado. Entendo muitas vezes a minha vida sacerdotal como o parteiro, ou seja, aquele que ajuda a nascer. Deus é o autor da vida e eu sou um meio, uma ajuda para nascer. Ele é tudo e é esse tudo que eu sirvo para que chegue a todos. 

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