O beijo do Papa

Foto: Vatican Media

Na passada quarta-feira, Lídia Maksymowicz, 80 anos, participou na audiência geral do Papa Francisco, no Vaticano. No momento do encontro com Francisco, Lídia levantou a manga da camisa e mostrou o braço. Inesperadamente o Papa beijou-o, onde estava tatuado o número de prisioneira no campo de concentração. Em silêncio, trocaram um abraço. Não foram necessárias palavras. “Entendemo-nos com o olhar”, disse Lídia.

Com apenas três anos de idade, a menina Lídia é levada, em dezembro de 1943, para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, e separada da mãe. No seu braço inscrevem o número 70072 e enviam-na para o bloco das crianças, onde o médico Josef Mengele às sujeitava a horríveis experiências. Nesse campo morreram mais de 200 mil crianças.

“A minha mãe tinha 22 anos, e com muita determinação e arriscando a própria vida, procurava salvar a própria filha. Nos raros encontros, procurava dizer-me como me chamava, de onde vinha, quantos anos tinha e me prometia sempre que ia voltar para me levar para casa”. 

No dia da libertação, a 27 de janeiro de 1945, havia 160 crianças na barraca com idades entre dois e 16 anos. “Eu fui a que morei mais tempo em Auschwitz”, revelou Lídia. 

“Por muitos anos comportava-me como se estivesse ainda no campo. Tudo era uma novidade, não sabia o que era ter uma boneca, um jogo. Daquele tempo recordo o desejo instintivo de sobreviver. Era uma luta pela vida”, diz.

A mãe procurou-a em todos os orfanatos mas não a encontrou. As respostas eram sempre as mesmas, não havia sinal de Lídia. Após dezassete anos chegou uma carta dizendo que tinham encontrado uma jovem com o número 70072. “Durante esses anos ela sempre acreditou que um dia me encontraria”. O número no braço era o único sinal de identificação. 

Recentemente foi apresentado em Itália o documentário “70072: A menina que não sabia odiar”, com a história de vida de Lídia. Quando lhe perguntaram se no campo de concentração não aprendeu a odiar, ela respondeu: “Talvez pareça estranho, mas não sou capaz de odiar, porque sei, sendo crescida no espírito cristão, que com o ódio, sofrerei ainda mais do que aqueles que contribuíram para esta má sorte que me tocou”.

Com 80 anos de idade, Lídia continua a dar o seu testemunho ao jovens, “eu digo aos jovens que a minha experiência é uma espécie de símbolo da vitória da vida sobre a morte” e deixa o alerta “façam com que esta atrocidade nunca mais se repita”.