“São Tiago Menor: Querubim divino armado”

Livro de autoria de Rita Rodrigues e Paulo Ladeira apresenta “500 anos de devoção, história e património na Madeira”

No início do mês de junho, na igreja do Colégio, será apresentada a obra “São Tiago Menor: Querubim divino armado. 500 anos de devoção, história e património na Madeira” da autoria de Rita Rodrigues e Paulo Ladeira. 

O Jornal da Madeira entrevistou, através da plataforma “Zoom”, a professora e investigadora Rita Rodrigues que durante 6 meses trabalhou, conjuntamente com Paulo Ladeira, também docente e investigador, num ritmo “bastante concentrado em termos de horas diárias de trabalho” nesta obra “apaixonante”, composta por onze capítulos, sendo seis especificamente centrados na temática do livro, que apresenta cerca de 160 páginas e mais de 400 notas de rodapé.  Apesar de todo o rigor histórico, o livro não pretende ser exclusivamente académico, mas pelo contrário, acessível ao público alargado. O livro, com design gráfico de Márcio Ribeiro, contém também fotografias antigas e contemporâneas, mapas da cidade do Funchal, uma gravura e referências a obras de arte sacra sobre São Tiago Menor. É resultado de uma parceria entre a Diocese do Funchal, a Secretaria Regional de Turismo e Cultura, através da Direção Regional da Cultura, e da Câmara Municipal do Funchal.

Como nasceu este livro?

Rita Rodrigues – Este foi um convite e um desafio do reverendíssimo bispo do Funchal, D. Nuno Brás e da equipa da Comissão para a Comemoração dos 500 anos do Voto a São Tiago Menor, através da Drª Graça Alves.  O convite acabou por ser aceite por mim e pelo Paulo Ladeira. Somos dois professores em regime de requisição na Direção Regional da Cultura, na Direção de Serviços de Património Cultural e na Divisão de Estudos do Património. Eu e o Paulo Ladeira temos trabalhado essencialmente a arte religiosa. O Paulo mais os séculos XVIII e XIX, e eu particularmente os séculos XVI, XVII e XVIII. 

Este trabalho desenvolveu-se em diferentes etapas e começamos por explorar a parte documental (manuscrita e coeva), ou seja, as fontes primárias, onde estão os documentos originais concernentes ao voto de São Tiago Menor, e também rastreando toda a bibliografia possível que direta e indirectamente contextualiza e refere a temática em estudo, pois durante muitos anos este foi um tema grato aos historiadores madeirenses. 

Em termos de bibliografia recorremos a um núcleo de bibliografia documental impressa, depois temos alguns historiadores que trabalharam as fontes primárias, o que é excelente recurso de trabalho. Temos a parte da bibliografia geral sobre a história da Madeira, no contexto do Voto de São Tiago Menor. Também fizemos uma pesquisa em jornais desde o século XIX até à atualidade, particularmente no que concerne à divulgação da procissão de São Tiago Menor. 

Pedras Vivas 23 de maio de 2021 (A4)

Pedras Vivas 23 de maio de 2021 (A3)

A nível pessoal, algum elemento chamou mais a sua atenção?

Rita Rodrigues – Todo o historial do voto a São Tiago Menor tem sido bastante divulgado por muitos historiadores, em livros, capítulos e artigos. O que nós fizemos foi estruturar, concentrando este assunto num livro. Todas as informações estão dispersas, e exige uma pesquisa em diversos arquivos, nacionais, como a Torre do Tombo e Arquivo Histórico Ultramarino, e regionais, como o Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira e Arquivo Histórico da Diocese do Funchal. Aqui tentamos fazer uma certa unificação. Facilita, portanto, essa concentração apenas num assunto e num livro.  

Do ponto de vista emocional, eu e o Paulo escrevemos este livro em plena pandemia. A realidade de há 500 anos parece-nos muito próxima, apesar do desenvolvimento da ciência, da tecnologia, da medicina. O medo, a incerteza, a angústia e depois também a segregação das pessoas que estão doentes, infetadas, em relação às outras, é uma forte realidade. O comportamento humano, em pleno século XXI, tem muitas proximidades e similaridades com aquilo que se passou no século XVI, embora neste tempo existisse, perante a impotência humana e o terror da peste, uma forte relação espiritual, vendo os homens esta doença como um castigo divino e superior. Esta é uma situação que todos os dias ao escrevermos parecia que estávamos a escrever qualquer coisa contemporâneo, qualquer coisa de hoje. É evidente que a aflição dos funchalenses e dos madeirenses, quer nos finais do século XV e no princípio do século XVI, acrescido do isolamento da ilha, os condicionalismos do porto do Funchal, os ataques de piratas e corsários, a não explicação científica da peste e da epidemia, assim como as suas formas de contágio e as suas formas de tratamento, acentuavam o medo e a incerteza. Isso fazia com que as pessoas tivessem uma angústia muito grande. E essa angústia vai transpôr-se para um pedido de socorro, assente numa grande devoção a algo superior e divino, mostrando a importância devocional. De certa forma, uma emoção devocional, para cada ser humano agarrar-se a uma força sobrenatural, transcendente, espiritual. Isso nota-se quer no povo propriamente dito, quer nos homens da governança. Há um documento que diz que a peste não escolhe nem condições sociais, nem idades, nem riquezas. Se repararmos até há uma situação curiosa: um capitão do donatário do Funchal, João Gonçalves da Câmara, morre de peste em 1536, com apenas 47 anos. Ele faleceu pestífero porque ficou na Madeira, não abandonou a ilha. Alguns capitães livraram-se da peste porque estavam fora da terra. Há um homem que tem o poder decisivo, um homem da governança que foi infestado e morre de peste, e na sua família há essa agonia e esse sofrimento. Quando nós lemos os documentos, é evidente que a nossa leitura do documento tem de ser primeiro uma leitura objetiva. O historiador lê objetivamente o documento. Mas depois o documento não vive sozinho, tem relação com outros documentos, e começamos a fazer interpretações e relações entre factos, etc., que pretendem também ser objetivas, mas notamos alguma narrativa que atesta a preocupação dos governantes, os seus medos e fragilidades humanas e também políticas. 

“Do ponto de vista emocional, eu e o Paulo escrevemos este livro em plena pandemia. A realidade de há 500 anos parece-nos muito próxima, apesar do desenvolvimento da ciência, da tecnologia, da medicina”. 

Repare-se, por exemplo, na afirmação de Gaspar Frutuoso (c.1590), quando se referia à peste: «de que Deus nos livre», ou quando já não havia peste, «bem dito seja o Senhor», expressão que o cronista se apropriou das palavras do cónego Jerónimo Dias Leite (c.1579). Só pronunciar ou escrever a palavra “peste” era já tormentoso. 

Por outro lado, é muito interessante também referir que havia, e estamos a falar de uma distância de 500 anos, uma grande preocupação do ponto de vista governativo e camarário, no que concerne a salvaguardar a saúde pública. Os representantes da câmara, os provedores da saúde e os guardas-mores da saúde tinham a função de fiscalizar e de anotar sempre que houvesse uma epidemia. Por exemplo, quando chegava um barco ao porto do Funchal, e que vinha de um porto cuja notícia informava a governança madeirense, que tinha sido contaminado, esse barco era sujeito a uma fiscalização, ficava muitas vezes em quarentena, os homens também, e as mercadorias. Temos documentação que informa que a peste, essa doença bastante contagiosa e mortífera, se transmitia através dos tecidos, dos couros, das cerâmicas. Havia essa preocupação que as superfícies, o que era material transmitia também a doença. Havia necessidade de legislar de maneira que fosse salvaguardada essa situação, sempre no sentido de proteger as pessoas.

E as pessoas iam para degredo, eram obrigadas a irem para degredo. Iam para a zona de Santa Catarina, para a zona das Angústias, para os Ilhéus. Era como se fossem para fora dos extra-muros da cidade, como se fosse muito longe da cidade. Também se faziam “fronteiras”, criando limitações na circulação de pessoas e bens (hoje teria o sentido de cerca sanitária), como aconteceu quando Machico teve alguém contaminado ou Santa Cruz. Ficava logo impedido de uma pessoa ir ao lugar. Era uma forma de controlar e cercar a doença a um sítio, evitando os contágios.

Temos a informação de um indivíduo, em 1497, vereador no Funchal, que não pôde comparecer a uma reunião da câmara e pediu autorização para ir visitar a irmã que estava no “ponto de morte”. Estava com peste, ia morrer, e sentiu este homem necessidade de se despedir da irmã e pede autorização para faltar à reunião. Entramos na condição humana, emocional, afetiva, que ultrapassa outras questões, mais políticas ou apenas administrativas. 

Toda esta envolvência com os documentos, que falam connosco, e falam connosco através da escrita de um tempo histórico, num contexto de uma vivência de doença maligna, terrífica, dão-nos informações sobre as mentalidades, e claro que as leituras que outros historiadores já fizeram também desses documentos são preciosas para o presente estudo. 

Uma outra situação que nos seduz nas leituras documentais é que se subentende que há o medo, que há o receio perante tudo aquilo que é inexplicável. Quando é inexplicável, o ser humano dentro das suas limitações acaba por encontrar alguma explicação para além do concreto, do material, do tangível, é aqui também que se abraça a figura de são Tiago Menor, eleito pelos funchalenses como protector e advogado contra a peste, intercessor entre os homens e Deus. Fica entregue a saúde dos homens na mão divina. Aqui relembro o bispo D. Figueiredo de Lemos (1585-1608) que trouxe consigo, quando veio para o seu bispado, a Bula da Santa Cruzada, mas também um físico: o bispo trataria da “saúde” das almas e o físico da saúde dos corpos. 

Ao longo do tempo notou que o Voto era feito como ação de graças pela ajuda de São Tiago Menor para ultrapassar o momento da peste? 

Rita Rodrigues – Infelizmente a memória dos homens é curta. A peste ficou erradicada e é atribuído esse fenómeno a um milagre de São Tiago Menor. A peste desaparecendo, houve aquilo que num documento está escrito, que a devoção ficou “esmorecida” (afirmação de Álvaro Rodrigues de Azevedo, em 1873, quando anotou as «Saudades da Terra»), como a necessidade real não era tão imediata, foi-se perdendo a devoção. Mas quer na parte da Igreja, quer na parte da Câmara, houve sempre uma responsabilização de sensibilizar a população que não podia esquecer aquilo que São Tiago Menor tinha feito pela cidade, e, portanto, revitalizar essa devoção. Verificou-se isso entre 1521 e 1538, e anos seguintes. E depois o que fica é um São Tiago Menor no coração dos funchalenses e dos madeirenses. Há uma memória que se vai prolongando ao longo da história, centrada na figura do santo padroeiro, São Tiago Menor. Depois, se não há peste, o santo irá proteger a cidade e os seus homens de outros males e doença, no fundo ele é o padroeiro contra a peste, mas quando já não existe peste ele vai continuar a ser o santo protetor da cidade e isso mantém-se imbuído no espírito religioso e devocional dos madeirenses. 

São Tiago Menor é comemorado na Madeira sempre no primeiro de maio e não sendo mesmo o dia de São Tiago, no seu calendário hagiográfico, é autorizado que haja essa continuidade, porque esse 1 de maio é a relação direta da população com São Tiago Menor. Há uma tradição enraizada e ela manteve-se, no culto e na tradição devocional da própria procissão. 

É evidente que isto nem sempre foram “águas calmas”, porque logo depois da procissão do Corpo de Deus, a procissão de São Tiago Menor é a mais importante. Desde sempre se disse, nas determinações camarárias, que a procissão de São Tiago Menor devia ser feita à semelhança e imitação da do Corpo de Deus, ou seja, com sumptuosidade. Reconhece-se na procissão de São Tiago Menor essa importância de grande elevação espiritual. Quer do ponto de vista da componente religiosa, quer na componente profana. Por exemplo, no Corpo de Deus eram lançadas corridas de touros e na procissão de São Tiago Menor também eram lançadas corridas de touros. Os proprietários do gado eram “convidados” a oferecerem as cabeças de gado para o lançamento das corridas de touros. Havia um grande prejuízo económico para eles, como é evidente, mas havia logo uma forma de compensar: naquele dia em que ofereciam as cabeças de gado só eles é que podiam cortar e vender carne. Havia uma certa benesse. 

“A peste ficou erradicada e é atribuído esse fenómeno a um milagre de São Tiago Menor. A peste desaparecendo, houve aquilo que num documento está escrito, que a devoção ficou ‘esmorecida'”

Nem sempre foram “águas mansas” a relação da Câmara do Funchal e a Diocese, porque houve alguns desentendimentos entre os vereadores da câmara e a própria diocese. Tomemos como exemplo a governação da igreja de São Tiago Menor, que foi sempre da responsabilidade da câmara, até na escolha do seu capelão, selecionado entre os descendentes de pessoas nobres da Madeira, mas nalgumas alturas os bispos quiserem interferir na nomeação do pároco para São Tiago, e não cabia ao bispo essa nomeação, cabia sim à câmara. O bispo tentava interferir e a câmara não gostava. Nem sempre eram cumpridos os protocolos. Esses desentendimentos aconteceram, por exemplo, nos bispados de D. Luís de Figueiredo de Lemos (1585-1608) e de D. Frei Manuel Coutinho (1725-1741). E temos, por exemplo, o governador da Madeira, João António Sá Pereira (1767-1777), a colocar “água na fervura” entre o mal-estar da câmara e da diocese, aquando da trasladação das imagens para a igreja de São Tiago, afirmando o governador que se tinha acabado a contenda. 

Ainda a nível protocolar, houve alguns desentendimentos no que diz respeito à distribuição e posição das personalidades religiosas e políticas na procissão, porque toda a gente queria mostrar o seu poder, quer o religioso, quer o poder camarário. 

Nos tempos mais recentes como foi realizado o voto?

Rita Rodrigues – A informação mais recente é aquela que essencialmente nós encontramos nos jornais. Na reta final do século XIX a notícia é “Voto de São Tiago, a grande procissão”, temas como a “força da devoção”, a “igreja estava engalanada com as cores da cidade”. Havia, portanto, uma ligação de grande festividade em relação à missa e à procissão de São Tiago Menor, com a participação de autoridades civis e militares e o prelado da diocese. Houve algum esmorecimento em tempos concretos, quando há a separação do Estado da Igreja; durante a 1ª. República (1910-1926) e a partir de 1933 há sobreposição do «Dia do Trabalhador», festejado e 1 de Maio e o dia da procissão de São Tiago Menor; ou mesmo depois do 25 de Abril de 1974. Mas, sempre por pouco tempo. Logo foi retomada a tradição. 

Relembro que a partir dos anos 90 foi recuperada a utilização das “tradicionais flores de maio”, ou seja, pequenas florinhas amarelas (maios, malmequeres ou pampilhos), com as quais se faziam “colares” e “braçadeiras”. Esse retomar de uma tradição apela à participação popular. Porque depois há uma certa aproximação quase que vivencial. Poderíamos dar o exemplo, das missas do parto. Há uma revitalização. Nunca desapareceram, é verdade, foram sempre vivenciadas pela população madeirense, mas depois nos anos 80, 90, particularmente até os anos 2000, há uma reorganização, porque sabemos que tem muito de profano, mas as pessoas aproximaram-se. Isso tem a ver com a vivência eufórica de festa que é uma característica do povo madeirense, este estado de festa, de alegria, de euforia, talvez, fortemente condicionada pelo isolamento, pela ilha, em si. Faz com que haja uma certa provocação na população e há uma adesão maior na população. Verificou-se isso nos anos 40, 50 e 60 com a procissão de São Tiago Menor. 

Não podemos esquecer que a procissão de São Tiago Menor, apesar de percorrer várias artérias da cidade do Funchal, está localizada num bairro extremamente particular que é o bairro de Santa Maria Maior. O bairro onde estavam centrados os oficiais mecânicos, como os oleiros, por exemplo. Isto toca muito a uma massa humana, mais fragilizada, do ponto de vista social e económico, como foi nos séculos passados. Mas manteve sempre um certo afeto nas pessoas que habitam naquela zona, e há um sentido de “posse” desta procissão. 

“quando já não existe peste ele [São Tiago Menor] vai continuar a ser o santo protetor da cidade e isso mantém-se imbuído no espírito religioso e devocional dos madeirenses. 

Também apresenta o livro um capítulo sobre as obras de arte – representação iconográfica de São Tiago Menor

Rita Rodrigues – Dedicamos, integrado nos capítulos, de forma contextualizada, um estudo e divulgação de imagens, pictóricas e escultóricas, que representam São Tiago Menor, desde o século XV ao século XX, além de também referirmos o património, mais relevante, devocional, artístico e patrimonial, ainda existente na Igreja do Socorro. As imagens, quer sejam em pintura, quer sejam em escultura ou objetos cultuais de prata, são realmente objetos de afeto que servem de intermediários entre uma prece, um pedido de graça ou um agradecimento de uma graça alcançada. Isto de um ponto de vista religioso, independentemente dos nossos credos e convicções, tem de ser forçosamente compreendido e respeitado, e salvaguardo todo este património cultural. 

E como se verifica, por vezes, alguma confusão sobre São Tiago Menor e São Tiago Maior, dedicamos um capítulo, em forma de listagem, das obras mais emblemáticas que representam São Tiago Maior. Pois, estamos, eu e o Paulo Ladeira, a elaborar um trabalho mais exaustivo sobre a devoção a São Tiago Maior na Madeira, também num sentido de organizar e sistematizar esta devoção na ilha.