Lares luminosos e alegres

D.R.

Quando era aluna de Filosofia, fui convidada por uma amiga para ir assistir a uma meditação na Residência Universitária dos Álamos. O capelão era um sacerdote do Opus Dei. Fiquei deslumbrada por perceber que uma hora de estudo era uma hora de oração e por ver escrito que o matrimónio era uma vocação cristã, caminho de santidade no meio do mundo, tal como vivido pelos primeiros cristãos. Passei a confessar-me com mais frequência.

Chamava-me particularmente à atenção a expressão: “os lares cristãos devem ser luminosos e alegres”. Conheci o meu futuro marido que partilhava os mesmos valores e casámos antes de fazer um ano de namoro. Tínhamos ambos trabalho fora de casa e fomos abençoados com o primeiro filho. Vieram mais e no dia em que fizemos onze anos de casados nasceu a oitava. Passados seis anos, nasceu mais um rapaz e ficámos com quatro rapazes e cinco raparigas. Os primeiros eram de idades muito próximas e ao fim de semana não tínhamos ajuda. Não havia fraldas de papel e esterilizar biberões era mais complicado do que hoje. Quando viajávamos de carro (tínhamos um carocha onde iam oito crianças), tentávamos cantar para os entreter e íamos chamando a atenção para os pormenores da paisagem: “olha o Tejo”, dizíamos a caminho da casa dos avós. Brigavam pelos lugares da janela e tentávamos distraí-los. Chegados lá, corriam, divertiam-se e iam ver com a avó os pintainhos, os cabritos, as ovelhas e a horta. O pão cozido pela avó fazia as delícias de todos. Quando eram pequenos, passávamos férias em casa dos avós maternos e íamos às praias dos arredores de Matosinhos. Era também uma forma de estarem mais com os avós maternos. Quando não saíamos de Lisboa, fazíamos piquenique ao Domingo. Comiam melhor e dava menos trabalho.

Tinham um sítio dentro de casa para brincar e uns cestos para arrumar os brinquedos. Brincavam muito no terraço da casa, a terceira que tivemos em poucos anos. Sentíamos que o Senhor nos ajudava, que cada um trazia um pão debaixo do braço. Esforçávamo-nos para que a casa tivesse um ar cuidado e limpo, decorada segundo as nossas possibilidades. Queríamos que compreendessem que isso era importante. Os móveis tinham de ser bem tratados para durar e tinha de haver cuidado para não estragarem os sofás. São Nicolau é o nosso intercessor para as questões económicas e todos sabem quando há alguma intenção neste campo pela qual é preciso rezar. Também ajudávamos um pobre que passava lá por casa para levar comida e roupa para a família.

Eram muito unidos e o mais velho estava encarregado de tomar conta do que se lhe seguia em idade, sobretudo nos trabalhos de casa. Fazíamos questão  de que cada um tivesse um local de estudo e que se esforçassem para ter os melhores resultados. Não tivemos preocupações sérias com os resultados escolares e agradecemos a Deus que todos tenham o trabalho correspondente ao curso que tiraram. O mais velho é Procurador da República, há uma advogada, dois engenheiros, três médicas e dois gestores. Também nos envolvemos na fundação dos Colégios de Fomento em Portugal e sempre estivemos presentes na colaboração familiar das turmas de alguns filhos.

No dia de anos, cada um escolhia a sua comida preferida e o bolo. Sempre havia essa festa em família e uma certa competição para ver quem era o primeiro a dar os parabéns ao que fazia anos, numa altura em que já eram mais crescidos. Convidavam amigos lá para casa e cada um tinha a sua própria festa de anos. Os amigos sentiam-se bem em nossa casa. As festas de anos eram em casa com muita gente nova. Todos ajudavam a preparar a festa dos manos. Quando foram crescendo, às vezes as festas eram ao ar livre para brincarem mais à vontade. Levavam um bolo para o Colégio e outro para o Clube, se já tinham idade para ir aos clubes. Aí participavam em várias atividades, criavam bons amigos e recebiam formação cristã. Brigavam como todas as crianças. Depois de ouvirmos ambas as partes dizíamos: dois não brigam se um não quer. Houve uma altura em que tivemos salmonelas e foram 4 para a Estefânia. As enfermeiras do Hospital ficavam muito admiradas com a atenção que davam uns aos outros. Ficámos todos bem, mas foi um grande susto. 

À medida que iam crescendo, iam tendo alguns encargos nas tarefas da casa. Havia equipas de 2 para arrumar a cozinha e uma competição saudável pelo melhor desempenho. As empregadas que fomos tendo também eram incluídas no clima de amizade que alimentávamos e era-lhes transmitida a nossa forma de educar para que colaborassem no esforço que fazíamos para que cada um fosse generoso com todos. Cada um fazia a sua cama, arrumava a roupa e aprendia a tratar da casa. Herdavam a roupa dos mais velhos e partilhavam livros, jogos e brinquedos. Também aprendiam a querer-se e a perdoar-se. Dava-lhes um cartão e iam às compras ao supermercado para ter noção do que as coisas custavam. 

As festas de batizado eram sempre em casa com os amigos mais chegados e mais ou menos nos primeiros dez dias depois de nascerem. As minhas colegas de trabalho brincavam comigo e diziam: ainda tem o bebé na barriga e já está a planear a ementa do batizado. Abençoávamos as refeições, rezávamos o terço em família com aqueles que queriam e a partir de certa altura íamos anualmente a Fátima também com os avós. Passámos a festejar nas Dominicanas os anos da avó paterna, em outubro. Nessa altura já tínhamos netos e íamos todos. Juntávamo-nos todos uma vez por semana para almoçar ou jantar. 

Na adolescência irritavam-se porque o pai e a mãe estavam sempre de acordo quando pediam alguma coisa. Eu não queria que andassem de mota, por achar perigoso, mas quando estavam em casa dos avós, o avô sempre ia cedendo. Um dia apareceu na nossa garagem uma mota estacionada. Ninguém sabia de quem era, nem a porteira do prédio. Quando me preparava para mandar a polícia vir buscar a mota, confessou o filho mais novo que era dele. Cedi e mais tarde roubaram-lha. Eu dizia que era intervenção do anjo da guarda para que não tivesse nenhum acidente. Aos dezoito anos, o filho mais velho entrou de repente em diálise. Irmãos e amigos todos se reuniram para o ajudar. Levavam-lhe apontamentos e estudavam com ele. Todos os irmãos que podiam queriam ser dadores de um rim. Eram seis potenciais dadores o que surpreendia toda a equipa hospitalar. Rejeitou um rim de cadáver, rezámos muito e ao fim de treze anos de diálise recebeu um rim de um irmão. Não interrompeu a carreira universitária e terminou-a bem preparado nos cinco anos. Tudo isso nos uniu muito. Além dos irmãos, tivemos muito apoio de muitos amigos. 

Há 11 anos foi-nos diagnosticado, ao meu marido e a mim, um cancro no cólon. Encarámo-lo como uma carícia de Deus e um convite à união entre todos. O ponto 758 de “Caminho” fez eco na nossa vida: “A aceitação rendida da Vontade de Deus traz necessariamente a alegria e a paz; a felicidade na Cruz. – Então se vê que o jugo de Cristo é suave e que o seu peso é leve”.

Fomos operados no mesmo dia por nenhum querer ser operado antes do outro e os filhos acompanharam-nos em todas as fases da doença. Fizemos as mesmas sessões de quimioterapia durante 6 meses e experimentámos a união na doença que prometemos no dia do casamento. A morte dos avós também foi vivida com intensidade e proximidade. As circunstâncias de cada um foram diferentes, mas predominou o esforço conjunto para que tivessem um final de vida cheio de carinho e manifestações de gratidão pelo dom da vida e o legado que nos deixaram.

Fizemos a festa dos vinte e cinco anos de casados em casa. Todos trabalharam, serviram o jantar volante e cantaram na missa, depois de muito tempo de ensaio. O canto não é o nosso forte. 

À medida que foram crescendo criou-se o conceito de férias em família: pelo menos 15 dias todos juntos. Como este conceito de férias em família era cada vez mais difícil de concretizar, pela dificuldade de arranjar casa onde coubéssemos todos confortavelmente, construímos, com a ajuda dos que puderam, uma casa perto do Carvalhal onde passamos o mês de agosto, coincidindo o mais possível filhos e netos. Os primos brincam e aprendem juntos. Juntamo-nos todos no Natal, Páscoa e sempre que é possível. É uma forma maravilhosa de fortalecer o que nos une e nota-se que todos contam com cada um. Os tios são padrinhos dos sobrinhos e os primos são os melhores amigos entre si. Temos histórias hilariantes dos dias no Alentejo em que a descontração ajuda à animação, partilha e apoio. Recordo com emoção a festa surpresa dos nossos quarenta anos de casados com missa em casa celebrada por um sacerdote amigo de longa data. Ofereceram-nos uma viagem inesquecível a Roma devidamente acompanhados por uma filha. Organizaram toda a viagem com imenso carinho. Ficámos alojados mesmo ao lado dos Museus Vaticanos. Tivemos a oportunidade de ser recebidos pelo prelado do Opus Dei. 

Temos um calendário perpétuo onde estão registadas, com fotografias alusivas, todas as datas importantes, para que ninguém se esqueça. Já não damos os parabéns à meia noite para não perturbar a vida familiar de cada um. Damos muitas graças a Deus por tantas bênçãos. As alegrias multiplicam-se e as tristezas dividem-se. Apoiamo-nos muito e estamos à espera da Isabelinha que é a vigésima segunda neta.

Virgínia Magriço
(Aposentada- documentalista no ME)

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