Coragem

D.R.

Uma religiosa, ajoelhada no pó da estrada, ergue a voz para um grupo de polícias prontos a disparar sobre os manifestantes que clamam pela liberdade e o regresso da democracia, depois do golpe de estado em Myanmar. A fotografia desse momento rapidamente espalhou-se nas redes sociais e dirigiu as atenções para este país mergulhado na violência.

A irmã Ann Rose Tawng, vendo os manifestantes em perigo, entre eles inúmeras crianças, ajoelhou-se e disse: “Não disparem sobre os manifestantes, atirem em mim no lugar deles. Matem-me, não às pessoas”.  Estava disposta a dar a vida por causa do Evangelho e da dignidade humana. “Acredito que Deus serviu-se de mim, no momento em que me ajoelhei à frente dos militares. O Espírito Santo deu-me força. Só pela graça de Deus pude fazê-lo”, disse. 

A irmã Ann explica que a sua atitude nasceu de uma convicção que habita o seu coração: “O Myanmar, de feliz e pacífico que era, tornou-se num país onde reina o medo e a tristeza. As pessoas comuns não querem submeter-se a um regime militar. Por isso fiz o que fiz, não suportando mais ver as pessoas a chorar e a sofrer.

Apesar da situação atual, a irmã manifesta uma grande esperança para o futuro do seu país: “Acredito que o diálogo e o perdão mútuo são a base de um país feliz e democrático. Confio-me a Deus para que nos guie e ilumine aqueles que têm que decidir. Tenho esperança de que um dia alcançaremos a paz e que a justiça triunfará. Rezo pelos militares. E não só eu, mas também as minhas irmãs e toda a Igreja de Myanmar. Alimentamos a esperança de que eles possam mudar”.

Este domingo, solenidade da Ascenção, o Papa quis celebrar a Eucaristia com a comunidade de fiéis de Myanmar residentes em Roma. O desejo da irmã Ann é que as palavras de Francisco “levem os chefes das nações a ocupar-se de um povo esquecido por todos”. 

Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja assinala neste domingo, o Papa agradeceu a coragem e determinação dos jornalistas, que trabalham muitas vezes em situações de risco, para denunciar “a difícil condição das minorias perseguidas em várias partes do mundo” e os “muitos abusos e injustiças contra os pobres e contra a criação”. Para o Papa “seria uma perda não só para a informação, mas também para toda a sociedade e para a democracia, se faltassem estas vozes: um empobrecimento para a nossa humanidade”.

Na verdade, sem o trabalho jornalístico, muito dificilmente poderíamos ter acesso ao exemplo de coragem da irmã Ann Rose e de muitas outras vidas inspiradoras.