Enfermeiro e Missionário a toda a prova

Clínica Psiquiátrica de Nampula, Moçambique, 1971 | Foto: Província Portuguesa da OHSJD/Museu São João de Deus

Neste Dia do Enfermeiro, em tempo da dedicação de tantos para socorrerem os doentes em tempo de pandemia, evoco um deles de perfil inesperado que juntou, na mesma pessoa, a enfermagem e a missão num país que há meses se tornou território disputado por pseudo muçulmanos, como já fora disputado, no seu tempo, por comunistas marxistas. Deixem que seja este enfermeiro a narrar uma página da sua vida, quando, em Moçambique, já tinha assistido leprosos em Alto Molocuè, e formado futuros Irmãos de S. João de Deus em Nampula, e agora coordenava a ergoterapia na machamba da Clínica de Psiquiatria, e nos tempos livres missionava e dava catequese a crianças e jovens. 

Conta ele: «Pelas 22 horas de 11 de maio de 1979, estando ainda ao trabalho de delinear as atividades pastorais do fim-de-semana, ouço tocar a campainha da clausura. Descuidadamente, pois era frequente a chegada de hóspedes noturnos, venho à porta e encontro-me com dois agentes de autoridade, um dos quais fardado e armado.

«O outro imediatamente disse: quero encontrar o Pe. Manuel Nogueira. E quando respondi, sou eu, de imediato me foi ditada a sentença: então o Senhor está preso, por parte da República Popular de Moçambique. Com um calafrio a invadir-me o corpo, ainda consegui balbuciar: posso saber porquê? E a resposta foi cortante: isso é outra questão. Agora precisamos é de entrar em sua casa e passar revista ao seu quarto.

Conduzidos para dentro, começaram a abrir armários e gavetas, vasculharam tudo, até debaixo do colchão… perguntaram o quê e para quê é isto e aquilo… interessaram-se pela “caixa”, contendo algumas economias da comunidade… mandaram abri-la e meteram dentro mais algum dinheiro que encontraram na gaveta; foram atraídos também pelo gravador de som e mandaram juntar-lhe as respetivas cassetes; pegaram em uma pasta e abarrotaram-na de papéis apanhados a esmo sobre a mesa; fizeram perguntas pouco discretas: de quem são estes nomes? Porque andais a batizar as crianças? Isto é ilegal. Mas, quando lhes perguntei se havia alguma proibição em relação ao assunto, concordaram que não havia». (Padre Manuel Nogueira, O. H. Hospitaleiro, enfermeiro e missionário em África por Aires Gameiro, O.H. e Dra. Maria Paredes, 2018  Ed. Salesianas).

Aos 14 anos, ali para os lados de Fátima, em 1941, perguntaram ao P. Manuel Nogueira se queria ser a missionário nos Irmãos de S. João de Deus. Disse que sim. Já ensinava outros jovens quando em 1948-1949 fez o curso de enfermagem na Casa de Saúde do Telhal, com exame na Escola Artur Ravara, em Lisboa. 

De 1956 a 1961 licencia-se e diploma-se em Teologia e Pastoral em Roma com numerosas altas distinções. Torna-se formador de Irmãos em Portugal e em 1972 é enviado para Moçambique onde ensina, exerce enfermagem e evangeliza, como missionário. Em 1979 foi feito preso político, várias vezes, a terceira em Machava. Nas prisões dormiu sem cama, sem colchão, sem cobertura, comeu com “colher” de tubo de pasta dentífrica. 

Por fim, sem julgamento é libertado, volta às atividades, é reintegrado como enfermeiro de ergoterapia, constrói duas capelas, um centro paroquial, batiza centenas de crianças e jovens depois de os preparar; torna-se colaborador do Bispo, D. Manuel Vieira Pinto na redação da revista e boletim da diocese, pároco das paróquias de S. Pedro e S. José. Fez parte do conselho de consultores, conselho presbiteral. Pelas autoridades de saúde é nomeado Responsável dos Serviços Gerais do Hospital Psiquiátrico, e pelo Bispo, membro da equipa da catedral e relator dos eventos festivos e das atas do conselho presbiteral. Escreve o resumo histórico do hospital. Anima os jovens com catequese, peças teatrais de conteúdos bíblicos; é posto à frente da comissão de diálogo inter-religioso com os muçulmanos. Recebe das autoridades a devolução da Capela do Hospital, dá aulas de Português na escola militar e de Latim na Universidade Católica. Estamos em 1990 em que o P. Nogueira foi nomeado membro do colégio dos consultores, promotor da justiça, vigário judicial. E muitas outras dezenas de responsabilidades lhe foram pedidas até a 2003 em que o Senhor o chamou através de doenças de cancro. Durante esses anos saiu e entrou em Moçambique largas dezenas de vezes em funções da Ordem de S. João de Deus. 

Agora que o Norte de Moçambique está com tremendos sofrimentos provocados pela Jihad faço votos que ele, como Enfermeiro, Irmão de S. João de Deus e Sacerdote, a sua intercessão no Céu leve o Senhor a aliviar aquela gente a quem ele se deu durante 30 anos de apostolado. E que o desejo do postulador leve a bom termo o projetado processo de beatificação na sequência da fama de santidade que deixou em Nampula.

Funchal, 12 de maio, Dia do Enfermeiro, 2021