Beato Carlos da Áustria

Beato Carlos da Áustria

Tive a graça de participar na cerimónia de beatificação de Carlos da Áustria, na Praça de São Pedro em Roma, no domingo, 3 de outubro de 2004. Foi uma celebração inesquecível. Na altura, eu era diácono e tinha acabado de chegar a Roma para iniciar os estudos na Pontifícia Universidade Gregoriana, dos jesuítas. Perto do altar pude ouvir o Papa João Paulo II proclamar beato o Imperador da Áustria e Rei da Hungria, que tinha morrido na Madeira. Naqueles anos, em Roma, quando dizia que vinha do Funchal, todos perguntavam, “a terra onde está sepultado o Beato Carlos?” – Sim. Na igreja de Nossa Senhora do Monte, respondia. 

Na homilia da cerimónia, o Papa João Paulo II falou sobre o Beato Carlos: “A tarefa decisiva do cristão consiste em buscar, reconhecer e seguir a vontade de Deus em tudo. O homem de Estado e cristão Carlos da Áustria enfrentava este desafio quotidianamente. Aos seus olhos, a guerra manifestava-se como ‘algo horrível’. Durante os tumultos da primeira guerra mundial, ele procurou promover a iniciativa de paz do meu predecessor Bento XV”. 

E acrescentou o Papa: “Desde o início, o Imperador Carlos concebeu o cargo que ocupava como um serviço sagrado aos seus povos. A sua principal preocupação consistia em seguir a vocação do cristão à santidade, também na sua acção política. Por este motivo, o seu pensamento estava orientado para a assistência social. Que ele constitua um exemplo para todos nós, sobretudo para aqueles que hoje ocupam lugares de responsabilidade política na Europa”.

Quando regressei à Diocese fiquei novamente ligado ao “Rei santo”, quando fui nomeado para a paróquia de Nossa Senhora do Monte, em outubro de 2009, e onde estive até fevereiro de 2018. Ao longo desses anos tive oportunidade de conhecer o exemplo de vida e aumentar a devoção para com Carlos da Áustria, que preferiu o exílio e a pobreza, e aceitou a doença e a morte como sacrifício para o bem do seu povo: “Escolho o exílio, não quero fazer derramar uma só gota de sangue por mim”. O empenho pela paz estava no centro das suas preocupações. Assim, renunciou ao poder sem abdicar da missão que recebeu de Deus e aceitou o exílio para evitar mais mortes numa guerra civil.

No leito de morte, Carlos deixou à sua amada Zita o seu testamento espiritual pela paz e união dos povos. Perdoou a todos os que o traíram e ofenderam, e com o olhar dirigido ao Santíssimo Sacramento disse: “Todo o meu empenho é sempre, em todas as coisas, conhecer o mais claramente possível e seguir a vontade de Deus, e isto da forma perfeita»”. Sem lamentações, e suportando o sofrimento, morreu no dia 1 de abril de 1922, sábado santo.