A temática da Redenção (I)

D.R.

O Papa S. João Paulo II deu relevância ao tema da Redenção, de que é expressão a Encíclica Redemptor hominis de 2 de março de 1979.

A encíclica em questão teve grande impacto a nível eclesial. O próprio Papa observa que começara a trabalhar numa carta endereçada a toda a Igreja e a todos os homens e mulheres de boa vontade «logo» a seguir à sua eleição. Nessa sua primeira encíclica, o Papa traça as linhas programáticas fundamentais do seu pontificado. Afirma que, tal como vê e sente a relação com o Mistério da Redenção em Jesus Cristo e a dignidade do homem, assim desejaria também unir a missão da Igreja com o serviço do homem neste seu impenetrável mistério1.

S. João Paulo II reafirma os dados fundamentais do mistério da redenção, que nos foi dada em Jesus Cristo, como centro do anúncio e pressuposto de toda a intervenção eclesial2. Segundo ele, havia muito tempo que acreditava e pensava que essa redenção estava intimamente ligada à dignidade da pessoa humana3. Com efeito, Redemptor hominis tinha como objetivo unir a missão da Igreja, servindo o homem no seu mistério impenetrável4, isto é, vê e sente a relação entre o Mistério da Redenção em Jesus Cristo e a dignidade do homem, desejando também unir a missão da Igreja com o serviço do homem. Com esta encíclica, o Papa coloca-se essencialmente numa dimensão de fé, ao tentar exprimir aí como ele próprio encara e sente a relação entre o mistério de Jesus Cristo e a dignidade do homem5.

A «Redemptor hominis» dedica a última parte à reafirmação da identidade do cristão, identidade essa que brota da configuração do cristão com Cristo (profeta, sacerdote e rei). Daí que o Papa apele para uma tomada de consciência das várias funções eclesiais: o anúncio e o ensino da fé, em comunhão com o magistério, a reta celebração da liturgia, confiando o Vigário de Cristo confia o seu próprio ministério e toda a Igreja a Maria Santíssima, Mãe da Esperança6.

A Igreja e o mundo, continua o Papa, estão a viver um «novo Advento», uma «época de esperança», no limiar do ano 2000. O Papa tendo por base a GS afirma que a Igreja tem de aprofundar e comunicar a antropologia do Evangelho, cujo elemento primordial é o do homem como imagem de Deus, irredutível a simples parcela da natureza ou elemento anónimo da cidade humana7. A encíclica dominada pela grande perspectiva de um novo Advento, abre a Igreja para a eminente entrada no segundo milénio.

O termo latino redemptor, do verbo redimere (readquirir), está intimamente ligado aos conceitos de remissão e justificação, muito presentes na linguagem do Evangelho. Cristo perdoava os pecados, insistindo no poder que o Filho do Homem tinha nesse campo.

Nesta primeira encíclica de João Paulo II, muito programática, encontramos a observação fundamental de que Cristo vai ao encontro do homem de todas as épocas, também ao da atual:

«Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Assim, o Papa evidencia a exigência de uma relação honesta para com a verdade, como condição de uma autêntica liberdade. Por outro lado, ele recomenda “que seja evitada qualquer verdade aparente, toda a liberdade superficial e unilateral, toda a liberdade que não aprofunde suficientemente a verdade acerca do homem e do mundo»8.

O Redentor do homem, Jesus Cristo, é o centro do universo (cosmos) e da história. Através da Encarnação, Deus conferiu à vida humana aquela dimensão que planeara para o homem desde o seu primeiro início; deu-lha de maneira definitiva9. A melhor via ou, melhor, a única orientação do espírito, a única direção da inteligência, da vontade e do coração, é a direção de Cristo. Ele é Redentor, porque só Ele tem palavras de vida eterna (Cf. Jo 6,68). O Filho do Deus vivo fala aos homens também como homem, através da sua vida, da sua humanidade, da sua fidelidade à verdade, do seu amor que abraça a todos. Fala através do seu Mistério Pascal, da Eucaristia10. A Igreja vive e Seu mistério e procura torná-lo próximo do género humano11. Em Jesus Cristo Redentor, o mundo visível, criado por Deus para o homem, readquire novamente o vínculo originário com a fonte da Sabedoria e do Amor.

As dimensões cristológica, eclesiológica e antropológica aparecem na Encíclica indissoluvelmente ligadas entre si. Por fidelidade a Cristo Redentor, a Igreja olha para o homem na sua consciência essencial e na totalidade do seu destino com uma solicitude sem limites, amando-o até ao fim. Deste modo, imprimir novo vigor à Igreja, concentrando-a no Mistério de Cristo, é torná-la mais disponível para o serviço do homem, em razão do Mistério da Redenção12. O ponto de vista antropológico reafirmado na Encíclica, anteriormente manifestado no discurso de Puebla, surge como elemento essencial nos escritos de Wojtyla. A preocupação de S. João Paulo II era procurar definir, cada vez mais e melhor, o que poderia chamar-se identidade católica no meio do pluralismo conciliar13. O sentido evangélico é a melhor maneira de encontrar o autêntico princípio de libertação do homem. Pois, «a Igreja é barca lançada nas tormentas do mundo e tem de acompanhar a evolução histórica; mas, para reflectir luz e sentido, deve ancorar também na rocha da pureza da doutrina»14.

Carlos Araújo, scj

1 Cf. I. RIBEIRO, “Primeira Encíclica de João Paulo II”, Brotéria Vol. 108 – Nº 5-6 (Maio-Junho 1979), 486.

2 L`OSSERVATORE ROMANO, in Redemptor Hominis (1979) 7.

3 Cf. G. WEIGLE, Testemunho de Esperança – A biografia do Papa João Paulo II, Bertrand Editora, 2000, 237.

4 Cf. Ibidem.

5 Cf. I. RIBEIRO, “Primeira Encíclica de João Paulo II, 485.

6 L`OSSERVATORE ROMANO, in Redemptor Hominis (1979) 8.

7 Cf. I. RIBEIRO, “Primeira Encíclica de João Paulo II, 487.

8 RH, 12.

9 I. RIBEIRO, “Primeira Encíclica de João Paulo II, 492.

10 Ibidem, 494.

11 Ibidem.

12 Cf. Ibidem, 487.

13 Cf. Ibidem, 491.

14 Ibidem.