D. Nuno exortou fiéis da Diocese a se confiarem uma vez mais a São Tiago Menor

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal exortou os fiéis da Diocese a se confiarem, “uma vez mais”, nas mãos de S. Tiago Menor e a “se animarem com ele na luta contra o mal que nos habita; na construção de uma cidade sempre mais humana, e de uma comunidade diocesana cada vez mais testemunha da ressurreição de Cristo, como foi o seu padroeiro”.  

O convite foi feito na homilia da Eucaristia Solene do Voto a São Tiago Menor a que presidiu na manhã deste sábado, 1 de maio, na Sé. Uma celebração, que contou com a presença de representantes das principais autoridades regionais, municipais, militares e diocesanas, e em que D. Nuno Brás começou precisamente por lembrar que foi há quase 500 anos, que o Apóstolo S. Tiago Menor foi escolhido como padroeiro da cidade e diocese do Funchal, “num momento de grande aflição”, em que “o povo madeirense sentiu a necessidade de olhar para Deus, único a poder garantir que «os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que se há-de manifestar em nós», como nos diz S. Paulo”.  

Já nessa altura, explicou, o povo percebeu que “apenas Deus nos pode garantir que o mal — tenha ele uma origem natural (provocado por catástrofes ou desgraças com origem em fenómenos da natureza), ou seja ele moral (com origem no pecado dos homens) — apenas Deus nos pode garantir que o mal não terá nunca a última palavra; e que, por isso, vale a pena lutar, trabalhar, procurar forças em nós e em Deus: forças que, não raras vezes nos surpreendem, tanto elas ultrapassam as nossas capacidades físicas e psicológicas”. 

E porque a última palavra sobre o homem e o mundo é a palavra de Deus, “nós, os cristãos, não podemos baixar os braços diante do mal, numa atitude passiva de quem sofre resignadamente o sofrimento e a dor”, frisou o prelado. 

Naquele 11 de Junho de há 500 anos, “sendo a cidade «posta em muita tempestade e tribulação de peste e fome, e muitos outros trabalhos», os nossos antepassados entregaram-se nas mãos do Apóstolo S. Tiago Menor”. A escolha, lembrou D. Nuno Brás “não foi um mero sorteio, fruto do acaso”, mas “um gesto de acolhimento e obediência ao Espírito Santo, manifestado na atitude de ajoelhar e de, na oração, pedir ao Senhor que indicasse o Padroeiro da nova Diocese”. 

É por isso que “os funchalenses (e, de um modo particular aqueles que os governam) se confiaram, repetidamente, nas mãos de S. Tiago Menor, sobretudo quando as forças humanas pareciam não chegar, ou para que elas não viessem a faltar, tão grande e difícil era a tarefa que encontravam por diante. Lutavam com quantas formas tinham; mas faziam-nos apoiados em Deus”. 

Depois de lembrar que os santos “não cessam de interceder por nós, e de ajudar a Igreja peregrina na terra a viver mais firmemente consolidada na santidade, fazendo com que nela aumente a vida da caridade, que é o amor de Deus a agir em nós”, o bispo diocesano acrescentou que “S. Tiago Menor surge, pois, como intercessor junto de Deus a nosso favor, e como exemplo de vida cristã” e que “a sua intercessão tem sido abundantemente percebida ao longo da nossa história — sendo prova disso a presente celebração, desde há 500 anos realizada e querida pelo nosso povo e pelas autoridades de governo”.  

“Olhemos, por isso para a figura do ‘justo’ e ‘sábio’ bispo de Jerusalém, e procuremos retirar da sua Carta apenas alguns traços (de entre os muitos possíveis) que nos possam inspirar neste tempo em que vivemos”, pediu o prelado, que enumerou depois algumas dessas caraterísticas que distingue São Tiago Menor, nomeadamente o facto dele ser “o homem do diálogo, do encontro, das pontes entre diferentes modos de encarar a realidade e a fé”, o “homem sábio”, o “Apóstolo atento ao pobre” e o “Apóstolo da esperança paciente”. 

“O nosso Padroeiro convida-nos, pois, ao diálogo, à sabedoria que procura olhar toda a realidade com os olhos de Deus, ao cuidado pelos pobres e à esperança que é certeza de que ao Senhor cabe a última palavra sobre cada um de nós e sobre o mundo inteiro”, constatou. 

S. Tiago Menor, lembrou ainda o prelado, “era conhecido pelos cristãos como ‘o baluarte’ (Oblias)”, uma “coluna da Igreja e da sociedade”, uma “referência” e uma “defesa”. Neste contexto, prosseguiu, “também nós, funchalenses, temos o testemunho desta qualidade de S. Tiago Menor: baluarte, defesa da cidade, defesa dos seus habitantes. Com ele, com a sua presença e companhia, sintamo-nos, também nós, protegidos: protegidos na vivência da fé, mais fortes e capazes de resistir ao mal e ao pecado. Que S. Tiago Menor continue a interceder por nós”.

Daí o apelo para que “confiemo-nos, uma vez mais, nas suas mãos. E, com ele, animemo-nos todos na luta contra o mal que nos habita; na construção de uma cidade sempre mais humana, e de uma comunidade diocesana cada vez mais testemunha da ressurreição de Cristo, como foi o seu padroeiro”, concluiu. 

No decorrer desta celebração, em que se rezou por toda a Diocese e de um modo particular pela cidade do Funchal, o presidente da Câmara do Funchal voltou a depositar a Chave da Cidade aos pés da imagem de São Tiago Menor e a vereação as suas varas junto ao altar, num gesto de agradecimento, mas também de entrega e de confiança em São Tiago Menor.  

A imagem de São Tiago Menor, que ocupou lugar de destaque nesta celebração a que assistiram inúmeros fiéis, sempre no cumprimento das regras sanitárias em vigor, foi transportada desde a Igreja de Santa Maria Maior (Socorro) até à Sé pelos Bombeiros Sapadores do Funchal.  

A celebração foi animada liturgicamente pelo Coro de Câmara da Madeira que interpretou, pela primeira vez, o Hino a São Tiago Menor composto pelo Pe. Ignácio Rodrigues (música) e pela Irmã Maria da Cruz (letra).

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás nesta solenidade: 

SOLENIDADE DE S. TIAGO MENOR

01 de Maio de 2021

Sé do Funchal

  1. Há quase 500 anos, o Apóstolo S. Tiago Menor foi escolhido como padroeiro da cidade e diocese do Funchal. Num momento de grande aflição, o povo madeirense sentiu a necessidade de olhar para Deus, único a poder garantir que “os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que se há-de manifestar em nós”, como nos diz S. Paulo (Rom 8,18).

O mesmo é dizer: apenas Deus nos pode garantir que o mal — tenha ele uma origem natural (provocado por catástrofes ou desgraças com origem em fenómenos da natureza), ou seja ele moral (com origem no pecado dos homens) — apenas Deus nos pode garantir que o mal não terá nunca a última palavra; e que, por isso, vale a pena lutar, trabalhar, procurar forças em nós e em Deus: forças que, não raras vezes nos surpreendem, tanto elas ultrapassam as nossas capacidades físicas e psicológicas.

E porque a última palavra sobre o homem e o mundo é a palavra de Deus, nós, os cristãos, não podemos baixar os braços diante do mal, numa atitude passiva de quem sofre resignadamente o sofrimento e a dor.

Tivesse o mal, qualquer que ele seja, a última palavra sobre o mundo e o homem, e bem podíamos nós, seres humanos, entregar as armas e poupar os esforços: seria mesmo a atitude mais razoável. Não valeria a pena qualquer rebelião. Qualquer luta estaria condenada ao fracasso!

Ao contrário: se sentimos dentro de nós a indignação e a revolta; a insubordinação e o inconformismo; se a consciência nos faz doer o pecado e nos conduz a transformar o mundo que nos rodeia, é porque dentro de nós, na nossa mente e no nosso coração, algo nos afirma a vitória final de Deus, a vitória final do bem, a vitória final do ser humano.

 

  1. Naquele 11 de Junho de há 500 anos, sendo a cidade “posta em muita tempestade e tribulação de peste e fome, e muitos outros trabalhos”, os nossos antepassados entregaram-se nas mãos do Apóstolo S. Tiago Menor.

A escolha não foi um mero sorteio, fruto do acaso. Tratou-se antes de repetir o gesto com que os Apóstolos, logo nos primeiros dias depois da ressurreição do Senhor, elegeram Matias para o lugar deixado vago por Judas (Act 1,15-26): como nos narra o livro dos Actos, depois de orarem, pedindo ao Senhor que lhes mostrasse qual o escolhido, também os Apóstolos “lançaram sortes sobre eles [José e Matias], e a sorte veio a cair em Matias, que foi então associado aos Onze Apóstolos” (Act 1,26).

Com os nossos antepassados madeirenses, sucedeu o mesmo. Tratou-se de um gesto de acolhimento e obediência ao Espírito Santo, manifestado na atitude de ajoelhar e de, na oração, pedir ao Senhor que indicasse o Padroeiro da nova Diocese.

Por isso, os funchalenses (e, de um modo particular aqueles que os governam) se confiaram, repetidamente, nas mãos de S. Tiago Menor, sobretudo quando as forças humanas pareciam não chegar, ou para que elas não viessem a faltar, tão grande e difícil era a tarefa que encontravam por diante. Lutavam com quantas formas tinham; mas faziam-nos apoiados em Deus.

 

  1. Ao falar sobre a Igreja, o Concílio Vaticano II não hesita em reafirmar a realidade da “comunhão dos santos”, quer dizer: a união que existe entre nós que peregrinamos na terra e aqueles que “são glorificados e contemplam claramente Deus trino e uno, como Ele é”, os santos (LG 49). Deste modo, os bens espirituais, que são vividos em maior abundância pelos santos, são comunicados àqueles que, vivendo ainda sujeitos ao tempo e às limitações deste mundo, participam já da vida baptismal, que é a vida de Jesus ressuscitado. Os santos, com efeito, não cessam de interceder por nós, e de ajudar a Igreja peregrina na terra a viver mais firmemente consolidada na santidade, fazendo com que nela aumente a vida da caridade, que é o amor de Deus a agir em nós (LG 49-50).

Enquanto nosso Padroeiro, S. Tiago Menor surge, pois, como intercessor junto de Deus a nosso favor, e como exemplo de vida cristã. A sua intercessão tem sido abundantemente percebida ao longo da nossa história — sendo prova disso a presente celebração, desde há 500 anos realizada e querida pelo nosso povo e pelas autoridades de governo.

 

  1. Olhemos, por isso para a figura do “justo” e “sábio” bispo de Jerusalém, e procuremos retirar da sua Cartaapenas alguns traços (de entre os muitos possíveis) que nos possam inspirar neste tempo em que vivemos.
  2. Tiago Menor é, antes de mais, o homem do diálogo, do encontro, das pontes entre diferentes modos de encarar a realidade e a fé: em particular, entre a novidade que S. Paulo reconheceu no Evangelho e os partidários da circuncisão e das normas de Moisés; e entre cristãos e judeus, habitantes da mesma cidade de Jerusalém.

O diálogo constitui, ainda hoje, um verdadeiro desafio. Ele tem como condição a valorização do outro, mesmo quando não concorda com a minha visão da realidade. Citando Vinicius de Moraes, o Papa Francisco não hesita em recordar que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”. Por isso, o Santo Padre faz o convite à construção de “uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discussões e desconfianças. Na realidade — diz ainda ao Papa — de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo” (Fratelli tutti, 215).

Depois, S. Tiago aparece como o homem sábio: “Quem, de entre vós, é sábio e entendido? Mostre pelo bom comportamento as suas obras repassadas de docilidade e sabedoria. […] A sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura; depois, pacífica, indulgente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, isenta de parcialidade e hipocrisia” (Tg 3,13.17).

  1. Tiago Menor é, também, o Apóstolo atento ao pobre. Recordemos apenas um dos vários passos da sua Carta: “Tomai atenção a isto, meus amados irmãos: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam? E, no entanto, vós desprezais o pobre! […] Se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado e incorreis na condenação da Lei como transgressores” (Tg 2,5-6a.9).
  2. Tiago Menor é também o Apóstolo da esperança paciente, que é certeza de que o Senhor há-de vir para terminar em nós a sua obra salvadora: “Sede pois pacientes, irmãos, até à vinda do Senhor. Vede como o lavrador espera o precioso fruto, aguardando pacientemente, até que a terra tenha recebido as primeiras e as últimas chuvas” (Tg 5,7).

O nosso Padroeiro convida-nos, pois, ao diálogo, à sabedoria que procura olhar toda a realidade com os olhos de Deus, ao cuidado pelos pobres e à esperança que é certeza de que ao Senhor cabe a última palavra sobre cada um de nós e sobre o mundo inteiro.

 

  1. Deixai ainda que refira, neste dia, uma última nota, presente em alguns dos relatos do martírio de S. Tiago Menor. Hegésipo, um autor cristão que viveu em meados do século II, ao terminar a sua narração, diz: Tiago “Foi testemunha veraz para os judeus e os gregos de que Jesus é o Cristo. Pouco depois [do seu martírio], Vespasiano colocou o cerco à cidade” (HE II,23,18).

Com efeito, S. Tiago Menor era conhecido pelos cristãos como “o baluarte” (Oblias). Trata-se, sem dúvida, de uma leitura feita pelo povo da personalidade do Apóstolo S. Tiago Menor. Era uma coluna da Igreja e da sociedade. Uma referência e uma defesa. Depois de ser morto como mártir, Jerusalém deixou de estar defendida, e os exércitos de Roma cercaram e destruíram a cidade.

Também nós, funchalenses, temos o testemunho desta qualidade de S. Tiago Menor: baluarte, defesa da cidade, defesa dos seus habitantes. Com ele, com a sua presença e companhia, sintamo-nos, também nós, protegidos: protegidos na vivência da fé, mais fortes e capazes de resistir ao mal e ao pecado. Que S. Tiago Menor continue a interceder por nós.

Confiemo-nos, uma vez mais, nas suas mãos. E, com ele, animemo-nos todos na luta contra o mal que nos habita; na construção de uma cidade sempre mais humana, e de uma comunidade diocesana cada vez mais testemunha da ressurreição de Cristo, como foi o seu padroeiro.