Um homem invulgar

O exemplo de um padre que dedicou a vida aos cristãos do Paquistão

Padre Emmanuel Yousaf acompanhado pela filha e marido de Asia Bibi, Eisham Masih, 19 anos, e Ashiq Masih | Foto: AIS

Em mais de 45 anos de sacerdócio, o Padre Emmanuel Yousaf tem-se destacado na defesa da pequena e frágil comunidade cristã do Paquistão. A defesa das vítimas da lei da blasfémia ou das raparigas cristãs raptadas e forçadas a casar têm sido lutas em que tem estado mais empenhado. O Padre Yousaf é exemplo de coragem na defesa das minorias num país onde a liberdade religiosa é espezinhada quase todos os dias…

Na semana passada foi divulgado o mais recente Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo. Neste documento, aparece em destaque a figura do padre Emmanuel Yousaf. Durante mais de 45 anos como sacerdote, ele já salvou a vida de muitas pessoas vítimas de injustiça e de perseguição religiosa no Paquistão, e teve um papel essencial na defesa da dignidade dos cristãos. Director da Comissão Nacional de Justiça e Paz, o Padre Yousaf é também um grande amigo da Fundação AIS. A sua história mostra que é sempre possível contrariar as adversidades e lutar pelo bem comum. São muitas as histórias da vida deste homem que se tem destacado na defesa dos mais humildes e perseguidos no Paquistão. No Prefácio do Relatório da Fundação AIS, o padre Emmanuel conta algumas das lutas em que esteve envolvido. Merece ser lido. São pequenas notas referentes ao quotidiano dos cristãos, uma pequena comunidade religiosa que tem sofrido humilhações e violência perante o silêncio cúmplice do mundo. Diz o padre Emmanuel que, em muitos lugares onde costumava ir, “os nossos fiéis não podiam [sequer] tocar em copos ou outros utensílios alimentares utilizados pela comunidade dominante”. Absolutamente terrível. Os cristãos a serem olhados como seres inferiores, impróprios, como se transportassem uma doença, como se a pobreza fosse contagiosa. O Padre Emmanuel Yousaf recorda também as histórias das raparigas cristãs roubadas às suas famílias. É um drama imenso que continua escondido no Paquistão. A Fundação AIS tem procurado denunciá-lo também ao mundo. Mas o mundo parece preferir fingir que não sabe, que não escuta os lamentos destas famílias, destas raparigas que por vezes são apenas crianças… “São crianças que, apesar de serem menores, são raptadas, forçadas a converter-se e a casar, e que também sofrem violações e outros abusos. A situação destas raparigas demonstra que viver como uma minoria religiosa no Paquistão está a tornar-se cada vez mais um problema.”

Uma história dramática

O Padre Emmanuel conta-nos uma história que revela em toda a sua tragédia como pode ser dramática a vida dos cristãos no neste país. É a história de Salamat Masih e dos seus dois tios. Salamat, de apenas 12 anos, foi acusado de escrever comentários blasfemos sobre o Profeta Maomé. Os dois tios também foram acusados. O miúdo nem sabia ler nem escrever. Isso, no entanto, para as multidões em fúria, valeu de pouco. Os três foram acusados de blasfémia. Como muitas vezes acontece nestes casos, houve uma tentativa de assassinato. Quiserem fazer “justiça” pelas próprias mãos. Os três foram alvejados. Um dos tios morreu, o outro ficou ferido, assim como Salamat. “Trabalhei incessantemente com o advogado da família para anular a sentença e acabámos por ser bem-sucedidos. Infelizmente, o juiz que os absolveu foi também assassinado a sangue-frio pelos extremistas…” Esta história, dramática e triste, é, infelizmente comum no Paquistão, um dos países mais perigosos do mundo para os cristãos. O Padre Emmanuel Yousaf agradece, no texto que escreveu para o Relatório sobre a Liberdade Religiosa, o trabalho e a dedicação da Fundação AIS. Na verdade, nós é que temos uma dívida de gratidão para com ele, para com o Padre Emmanuel, que é, de facto, um homem invulgar!

Paulo Aido

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