“Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”

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O Teatro é uma forma de arte  milenar, onde se interpreta uma história para um público, em determinada época ou contexto. Poderão ser situações improvisadas, fantasiadas, ao gosto dos diretores e técnicos, com o objetivo de apresentar ou enfatizar uma situação despertando consequentes sentimentos no auditório. 

São muitas as perspectivas pelas quais se pode interpretar a “Arte” no seu todo e não pretendo abordá-las aqui. Também as representações teatrais foram sofrendo várias adaptações, desde os clássicos gregos na tragédia e na comédia, até aos nossos dias.

Porém, Bertolt Brecht, um dos grandes reformadores do teatro no século XX, desenvolveu uma forma de drama com características de intervenção social, ideologicamente marcada por um posicionamento político assumidamente de esquerda. É neste contexto que se situa uma das suas obras de referência, Leben des Galilei – A Vida de Galileu.

Em 1949, com o apoio do governo da Alemanha Oriental, Bertolt Brecht fundou uma companhia de teatro a “Berliner Ensemble”, que apresentava principalmente as suas peças. A divulgação das suas obras foi muito grande e, naturalmente, influenciou algumas gerações que na altura estavam ávidas de perspectivas diferentes. 

É neste contexto que insiro uma peça de teatro representada, neste momento, no Teatro D. Maria II, em Lisboa.

Porém, fiquei apreensiva com o seu Título: A Beleza – qual será o conceito do Belo que estão a defender? De Matar – palavra tão incómoda e desconfortável, ausente de qualquer performance, para mentes criadoras e artísticas; finalmente Fascistas – algo que foi um movimento nacionalista, circunscrito a um tempo e a um espaço na história do século XX, aliás o século dos vários “ismos”.

Os horrores do século passado, deixaram um vasto campo de destruição e ruínas, materiais, físicas e morais. A barbárie ideológica matou a belo prazer. (A INFELICIDADE DO SÉCULO, de Alain Besançon e O SÉCULO DE 1914, de Dominique Venner, dois livros indispensáveis para se compreender os meandros do “dever de matar”, o qual se tornaria numa banalidade, no interpretar de Annah Harendt.

Após estes considerandos, ocorreu-me uma outra perplexidade. No dia 19 de abril de 2021, no noticiário das 9 horas, na Rádio Renascença, foi feita “uma promoção” desta peça de teatro em exibição: A Beleza de Matar Fascistas, com uma simpática apresentação do locutor e a intervenção do encenador, o actual director artístico do teatro, ao qual foi dada a palavra.

Pareceu-me óbvio que da parte desta emissora surgisse algum comentário ou simples opinião sobre o teor da peça em causa, como forma de esclarecimento ao incauto ouvinte, que ainda acredita na credibilidade da Rádio Renascença, Emissora Católica Portuguesa. Não havendo evidências de nenhuma objecção por parte da RR, num aparente aceitamento da beleza de promover o ódio e a violência, fiquei deveras surpreendida, perplexa se não mesmo um pouco indignada.

Amigos e colegas comentaram este facto, alguns não tão surpresos, já habituados ao novo estilo desta emissora, mais ao jeito do “politicamente correcto”, outros, porém, apresentaram o seu descontentamento e apreensão ao Senhor Cardeal D. Manuel Clemente. Eu partilho com o leitor amigo as minhas apreensões.