São Tiago Menor: Ciclo de conferências arrancou com D. Nuno Brás a falar da relação entre a ciência e a fé

Foto: Duarte Gomes

Teve início na tarde de quinta-feira, dia 22 de abril, o ciclo de conferências integrado nas comemorações doa 500 Anos do Voto a São Tiago Menor. O bispo do Funchal foi o orador desta primeira palestra, tendo abordado o tema da “Relação entre a ciência e a fé”.

Devido à pandemia e ao recolher obrigatório que ainda se encontra em vigor, esta conferência de D. Nuno Brás decorreu via ZOOM, com o prelado a começar por fazer uma referência às raízes bíblicas do “sorteio”, pelo qual São Tiago Menor foi o escolhido para Padroeiro da Cidade e da Diocese.

D. Nuno Brás procurou, com recurso a vários especialistas de renome em diferentes áreas e com várias obras publicadas, explicar se faz ou não sentido, em tempo de pandemia, mas também num tempo em que “a ciência se encontra tão desenvolvida, fazer apelo a Deus e aos santos, para que nos acudam em situações de aflição”.

Nesse sentido, começou por verificar se existe ou não compatibilidade entre fé e ciência, dando depois conta de como a realidade é “bem mais rica que a ciência”.

Por fim, analisou o lugar dos santos na vida cristã, a partir da Exortação apostólica do Papa Francisco “Gaudete et exultate” (“Alegrai-os e exultai”), “sobre o chamamento à santidade no mundo atual”.

Este ciclo de conferências prossegue no próximo dia 20 maio, pelas 19:30 horas com uma intervenção do Dr. Nélson Veríssimo, na qual este falará sobre a “Peste, castigo e misericórdia no Funchal quinhentista: São Tiago Menor, padroeiro e rogador a Deus pelo povo da cidade”.

Já no dia 3 de junho, à mesma hora, será a vez do Dr. Martinho Mendes falar sobre “A iconografia de São Tiago Menor na Diocese do Funchal”. 

A haver alterações no horário do recolhimento obrigatório e nas regras para as iniciativas culturais, estas duas últimas conferências poderão ser presenciais. Se assim for as mesmas vão ter lugar na igreja do Colégio.

Leia na íntegra a conferência de D. Nuno Brás, que pode ser vista no Facebook da Diocese: 

500 anos do voto a S. Tiago Menor:
hoje ainda é razoável acreditar?

Há 500 anos atrás, no dia 11 de Junho de 1521, a cidade do Funchal confiava-se nas mãos de S. Tiago Menor, Apóstolo sorteado de entre os demais para padroeiro da cidade do Funchal e Padroeiro da Diocese.

Hoje 5 séculos depois, pode parecer-nos algo ridículo, seja a escolha de um padroeiro (nas mãos de quem, anos mais tarde, o próprio vereador da saúde viria a entregar a sua vara, sinal da responsabilidade e poder, para que S. Tiago Menor defendesse a cidade que era sua). 

Muitos serão, com efeito, aqueles que sorriem pensando interiormente, ou mesmo expressando em público o seu pensamento, dizendo: era bem melhor que se tivessem adoptado medidas que a ciência médica hoje conhece… tempos de “credulidade obscurantista”, que ainda não passaram completamente!… 

Outros, porventura mais crentes e devotos, não deixarão, por seu lado, de estranhar o “sorteio” do padroeiro, tratado o santo como se fosse prémio duma gôndola!

Notemos, no entanto, as raízes bíblicas deste “sorteio”, em particular a passagem do Livro dos Actos dos Apóstolos, quando, vendo-se na necessidade de escolher um substituto de Judas, de modo a que o Colégio dos Doze fosse constituído por doze homens, também os Apóstolos “lançaram sortes” sobre o nome de dois discípulos, caindo aquela em Matias “que foi então associados aos Doze Apóstolos” (Act 1,26). Não sem antes rezarem (Act 1,24).

No caso do Funchal, foram colocados “o nome de Jesus nosso Senhor e da Virgem nossa Senhora, São João Baptista e os doze Apóstolos, cada um pelo seu nome; lançaram-nos num barrete, e pondo-se todos primeiramente de joelhos e oração e prometendo fazer uma casa em honra daquele santo que saísse, foi tirada sorte por um menino de nome João, de 7 anos de idade. E por sorte saiu o bem-aventurado apóstolo S. Tiago Menor, em honra do qual logo no dito dia se festejou pela cidade, e aos 21 dias de Julho lhe começaram a sua casa, indo a cidade e o dito Cabido em procissão solene, descalços, e o Mestre Escola Gonçalo Martim com o retábulo da imagem do bem-aventurado apóstolo, e deu a primeira enxadada no cunhal da capela da banda do evangelho”. 

Mas não fujamos com subterfúgios históricos à questão central que nos é colocada, aquela primeira a que já nos referimos, e que se mostra de tanta actualidade, dado o tempo de pandemia em que ainda vivemos: faz sentido, num tempo em que a ciência se encontra tão desenvolvida, fazer apelo a Deus e aos santos, para que nos acudam em situações de aflição?

A questão, poderia ser abordada de muitos modos, em particular aquele caminho que nos levaria a mostrar como a fé é importante para um conjunto de dimensões da pessoa humana que a ciência não é capaz de abarcar. A fé seria, deste modo, um supletivo para aquilo que a ciência ainda não seria capaz de conhecer e de resolver. Mas teria os seus dias contados, à medida que a ciência fosse capaz de resolver os enigmas humanos, as suas dores e as suas alegrias.

Tudo, afinal, se veria resolvido a um conjunto de átomos, de energias, de relações entre partes ínfimas do corpo humano, em nada diferente, por isso, de um robot — porventura mais complicado. Esta visão — que está hoje presente em muitos “cientistas” de renome — abriria mesmo a porta a uma possível “eternidade”, através da sucessiva substituição de órgãos por peças artificiais. Pode parecer ficção científica, mas nem tanto.

Para abordarmos o tema, comecemos por verificar se existe ou não compatibilidade entre fé e ciência, para, logo de seguida, nos darmos conta de como a realidade é bem mais rica que a ciência. Por fim, veremos o lugar dos santos na vida cristã, a partir da Exortação apostólica do Papa Francisco “Gaudete et exultate” sobre a vocação universal à santidade.

1. Fé e ciência: realidades que se excluem?

A primeira interrogação a que nos vemos obrigados a responder só poderá ser esta: a realidade será fruto de um acaso ou tem intrinsecamente uma ordem, uma razão? John C. Lennox é um professor catedrático de matemática na prestigiada Universidade de Oxford, e os seus interesses estendem-se — para além da matemática — à filosofia da ciência, à bioética e ao cristianismo. Publicou várias obras não apenas relativas às matemáticas como também de defesa da razoabilidade da fé. Vamos segui-lo na sua obra Has Science buried God?

O ponto de partida de Lennox é a verificação comum: “A ideia de que cada novo avanço científico é mais um prego no caixão de Deus”. É um modo de pensar popularizado por alguns cientistas como Peter Atkins ou Richard Dawkins. Para estes, a fé em Deus não só deixa de ser útil como é olhada como um mal a eliminar porque impede o progresso da ciência.

Lennox, no entanto, defende que não apenas é falso que os cientistas sejam todos ateus (afirma baseado em inquéritos realizados ao universo científico que, em 80 anos, não aumentou a percentagem dos cientistas que se afirmam como ateus), como afirma também que os estudos científicos mais recentes e desenvolvidos nos apontam para a existência de uma Mente criadora do universo.

Neste sentido, cita Colin Russell: “A crença comum de que […] as relações entre religião e ciência foram marcadas durante os últimos séculos por uma profunda e permanente hostilidade […] não só é historicamente inexacta, como constitui uma caricatura tão grotesca que nos obriga a questionar como pode ter adquirido um mínimo de respeitabilidade” (19).

Assim, o verdadeiro conflito não é, segundo Lennox, entre ciência e religião mas entre naturalismo  — a posição segundo a qual “o mundo da natureza é uma esfera isolada, sem incursões externas de almas ou espíritos, divinos ou humanos”(21), encontrando em si todas as forças para a sua existência e desenvolvimento — e teísmo, a posição segundo a qual antes de toda a realidade devemos considerar uma Mente criadora de tudo.

De facto, é importante reconhecer que todos os seres humanos (também os cientistas) têm ideias preconcebidas, ou seja, “uma cosmovisão inerente, que aplicam a cada situação” (23). Existem, portanto, cientistas que defendem uma posição naturalista e outros que acreditam em Deus. Tanto uns como outros desenvolvem e fazem ciência. Isto significa que o mundo se pode estudar objectivamente e que a ciência não é uma mera construção subjectiva. Mas, ao mesmo tempo, não podemos ignorar aquilo que são os “paradigmas” (Th. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, 1970) e que determinam o modo de abordagem a toda a realidade.

Assim, o materialismo é um a priori: longe de ser a conclusão do pensamento científico, é um ponto de partida. Deste modo, em relação à ciência, o materialismo torna-se uma “religião”. Mas notemos que, apesar do ponto de partida diferente de naturalistas e teístas, a esmagadora quantidade das suas investigações e das suas conclusões coincide, qualquer que seja o seu ponto de partida.

“A ciência explica” (27). Essa é a sua função: estudar o como se desenvolvem os fenómenos. “Um dos dogmas fundamentais do materialismo científico é que a ciência pode explicar tudo”, diz Lennox (28). O seu ponto de partida é o de que pensar em Deus é como pensar em fadas ou duendes: até podem as pessoas pensar em Deus que tal não constitui verdadeiro conhecimento; podem as duas coexistir, desde que a religião não invada o terreno da ciência. De resto, apenas a ciência pode estabelecer a verdade. Mas, se assim fosse, interroga-se Lennox, que fazer da literatura, da arte, da música, das ciências sociais? Também a ética se encontra fora da ciência.

Lennox introduz então uma das várias comparações que perpassa todo o seu livro: os pastéis da tia Matilde: a tia Matilde preparou um delicioso pastel, e convida os cientistas de nível mundial a analisá-lo: “O perito em nutrição, há-de informar-nos acerca do seu conteúdo em calorias e do seu efeito nutritivo; o bioquímico há-de falar-nos das proteínas, das gorduras, etc., do pastel; o químico estudará a estrutura atómica e molecular destes componentes; o físico analisará o pastel em termos das suas partículas fundamentais e o matemático proporá eloquentes equações que descrevem o comportamento dessas partículas. […] Mas podemos dizer que o pastel ficou completamente explicado? Evidentemente disporemos de uma boa descrição da natureza do pastel e de como se relacionam entre si os seus diversos constituintes; mas suponhamos que agora coloco ao grupo de peritos uma última pergunta: Porque é que o pastel foi feito? O sorriso no rosto da tia Matilde demonstra que conhece a resposta: fez o pastel e fê-lo com um determinado propósito. […] A única maneira de conseguir a resposta é que a tia Matilde no-la revele. E, se não o fizer, não existe análise científica que possa deitar luz sobre as suas intenções” (29).

Ou, dito de outro modo: “A pretensão de que a ciência é o único caminho para a verdade é indigna da própria ciência” (29). Deixou de fazer ciência e passou a criar mitos.

Uma outra analogia. “Suponhamos um automóvel Ford. Podemos imaginar que alguém de uma parte remota do mundo que o visse pela primeira vez e que não tivesse qualquer ideia de mecânica moderna, pensasse que dentro do motor há um deus (o senhor Ford) que faz com que o carro ande. Poderia até intuir que, se o motor funciona suavemente, é porque o Sr. Ford está bem disposto, e se não funciona é porque o Sr. Ford está em dia não. Claro que se essa pessoa aprendesse mecânica e desmontasse o motor em peças, descobriria que dentro não existe qualquer Sr. Ford, e que não é necessário implicar um tal Sr. Ford no funcionamento do carro. para explicar como funciona o motor, basta uma certa compreensão dos princípios impessoais da combustão interna. Até aqui nenhum problema. Ora bem, se decidisse que a compreensão dos princípios de funcionamento do motor lhe impede de acreditar que existiu um tal Sr. Ford que inventou o motor num princípio, o nosso personagem estaria a equivocar-se. Sem um Sr. Ford que tivesse desenhado o mecanismo, não existiria nada a compreender!” (31).

Acreditar supersticiosamente que o Sr. Ford era o motor, impediria a ciência. Mas não colocar o Sr. Ford no início de tudo, também o impede! “Há uma enorme diferença entre Deus e os deuses” (35).

Mas o universo fala-nos de um acaso ou de uma intenção? Albert Einstein não hesitou em afirmar: “O mais incompreensível do universo é que seja compreensível” (46). E a sua linguagem é a matemática: “a matemática é a linguagem com que Deus escreveu o universo”, dizia Galileu Galilei, também ele um cientista profundamente crente.

Podemos falar do “mistério da matemática”. Com efeito, segundo J. Lennox, “grande parte das matemáticas que mostraram ter aplicações úteis surgiram como exercícios abstractos de matemáticos puros, muito antes d encontrar aplicação real” (46). Quer dizer: “A ciência não explica a inteligibilidade matemática do mundo físico porque esta faz parte da crença fundacional da ciência” (47).

Devemos pois afirmar que a “afirmação de que a ciência não depende das crenças ou de que a fé em Deus nada tem a ver com os factos é simplesmente falsa” (47). “Acreditamos que somos seres humanos racionais: este pressuposto é tão fundamental para qualquer raciocínio que é impossível questionar a sua validade sem o aceitar á partida como premissa de qualquer outra reflexão. Qualquer processo intelectual sustenta-se sobre esta base, uma base à qual o teísmo oferece uma justificação racional, algo que o naturalismo parece incapaz de fazer”, afirma Lennox (47).

O universo é, portanto, inteligível. “Parece ter sido construído tendo-nos a nós [seres humanos] em mente” (49). E acrescenta: “Os progressos da física e da cosmologia vão perfilando uma imagem assombrosa: um universo com forças fundamentais, num intrincado e exótico equilíbrio mútuo cujo aparente objectivo é tornar possível a vida humana”, de tal forma que “uma mínima alteração de qualquer desses valores e o universo tornar-se-ia hostil à vida e seria incapaz de a sustentar. As constantes estão ajustadas com suma precisão, e é essa precisão que muitos cientistas (entre outros) crêem que exige explicação” (49).

Os naturalistas dizem, no entanto: o universo é fruto do acaso. Este nosso universo poderá ser apenas um entre biliões de biliões de outros universos onde a vida não é possível. Mas, convenhamos, é necessária muita fé e ter muita imaginação para acreditar nisso! “Nem os universos nem o pastel da tia Matilde se geram a si mesmos”, diz Lennox (59). E acrescenta: “Quanto mais sabemos do universo, da sua inteligibilidade e precisão, a ideia de um Deus criador que o desenhou inteligentemente adquire maior credibilidade como inferência à melhor explicação de porque é que estamos aqui” (61).

E conclui, resumindo todos os debates com os vários cientistas que defende o acaso como realidade inicial do universo e da vida: “Temos considerado porque é que, apesar da forte evidência de desígnio, há tantos cientistas que a recusam em favor de explicações puramente naturalistas da origem e desenvolvimento evolutivo da vida. Descobrimos que as suas explicações não conseguem explicar o que afirmam explicar; e que, para o caso da complexidade irredutível nem sequer parecem capazes de o tentar. Haveria pois que argumentar a verosimilhança do desígnio como a melhor explicação da complexidade biológica” (132). E ainda: “Quando falamos dos elementos constitutivos da vida, corremos o risco de dar a entender que, se os conseguíssemos produzir artificialmente e dispô-los na ordem correcta, teríamos criado a vida. Não é preciso pensar muito para ver que, de novo, estamos perante uma simplificação excessiva. Se, neste mesmo instante, alguém nos matasse, todos os nossos componentes químicos continuariam presentes. O ADN continuaria ali, e as células também; mas já não estaríamos vivos. A geração artificial de uma cópia de um organismo vivo não equivale necessariamente a gerar vida. A vida não é apenas a presença dos componentes químicos concretos numa determinada configuração. Então o que é? Ninguém o parece saber de verdade!” (135).

E conclui Lennox: “A inteligibilidade racional [do universo] aponta para a existência de uma Mente responsável tanto do universo como das nossas próprias mentes. É por isso que podemos fazer ciência e descobrir as maravilhosas estruturas matemáticas que estão por debaixo dos fenómenos observáveis. Não apenas isso, mas também a crescente percepção do fino ajuste do universo em geral, e do planeta Terra em particular, leva-nos a ser conscientes do que significa estar aqui. Esta terra é nosso lar!” (137).

Mantemos, por isso, a questão do “porquê”! E Lennox diz: “A verdadeira ciência não se envergonha da sua incapacidade neste ponto; apenas reconhece que não está equipada para responder a estas perguntas” (138).

O universo só é inteligível se considerarmos um Deus pessoal, criador: o Verbo que se fez carne, de S. João. “Ainda que a ciência não possa explicar-nos estas coisas (e não pretende fazê-lo) elas não apenas são coerentes com o que diz a ciência, como nos proporcionam uma explicação de porque é que esta funciona, ao afirmar que o Deus-Verbo eterno é o arquitecto e o autor do universo. Assim, longe de ter enterrado Deus, proponho que os resultados da ciência não apenas apontam para a sua existência, como essa existência é a que valida a própria empresa científica” (140).

2. A “razão matemática” pode explicar toda a realidade?

Mas poderá a ciência baseada na matemática explicar tudo? Já vimos que não. A realidade é maior que a ciência. Mesmo a realidade da vida humana, de cada ser humano. Parafraseando Pascal, num ser humano (qualquer que ele seja), existem as razões da razão, existem as “razões sem razão”, e existem as “razões do coração que a razão desconhece”. Quer dizer: existe a razão da fé, pois o coração é o lugar da nossa relação com Deus. A razão humana constitui, assim, uma participação da criatura na “Razão divina”. Para além da maravilha que é a razão humana, capaz de fazer surgir a realidade da matemática, instrumento essencial para o conhecimento da natureza, existe a “razão divina” que não contradiz, mas ultrapassa e envolve a razão humana, e na qual, o próprio Deus, por revelação (quer dizer: por meio da pessoa do Logos feito carne que é Jesus Cristo) nos dá a participar. 

Entenda-se o conceito cristão de revelação, que não tem nada a ver com a transmissão de informações secretas, gnósticas, a alguns escolhidos. O conceito cristão de revelação — veja-se a Constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II — é o de que em Jesus de Nazaré, em toda a Sua Pessoa, Deus revelou tudo quanto tinha para nos comunicar.

Devemos, com efeito, reconhecer os limites da razão humana. As aporias de Zenão de Eleia são preciosas a muitos níveis. Um deles (e que neste momento nos interessa sublinhar) é o facto de constituirem um exercício da razão humana levada ao seu extremo: um certo dia, Aquiles, o guerreiro forte e rápido, persegue uma tartaruga. Entre o veloz Aquiles e o lento animal existe uma distância primeira. Aquiles percorre metade dessa distância mas, claro, ainda lhe falta outra metade. Desta última, percorre uma primeira metade, mas ainda lhe falta a outra metade… E assim até ao infinito: de acordo com a razão humana, Aquiles nunca chegaria a ultrapassar a tartaruga, pois lhe faltaria sempre metade do percurso! Esta é a conclusão da razão humana, quando deixada a si mesma, sem se deixar confrontar com a realidade. 

A razão é preciosa para conhecer o mundo e a realidade (por isso mesmo Deus a criou). É algo que nos distingue de entre o resto da criação. Por isso, não podemos nem devemos passar sem ela — longe de nós negá-la como princípio vital do ser humano! Mas todos sabemos que, no mundo real (bem maior que o mundo da razão), Aquiles irá despender pouco tempo para ultrapassar a tartaruga. A razão humana é admirável mas, abandonada a si mesma e às suas capacidades, pode, não raras vezes, negar a realidade em que vivemos. E quem diz a razão, diz (por maioria de argumentos) os seus melhores “produtos”: a ciência e a técnica.

O próprio J. Lennox se faz eco desta realidade maior. Diz ele: “O Génesis afirma que há um Deus criador que existe independentemente do universo, uma afirmação fundamental do judaísmo, do cristianismo e do islão. O Apóstolo João expressa-o desta maneira: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Este estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele não foi feito nada do que foi feito. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens’ (Jo 1,1-4). Esta proposta merece uma análise detalhada. Já considerámos as suas implicações quanto à prioridade do conceito de informação sobre o de matéria. Mas tem outras implicações. A palavra grega logos, traduzida como Verbo, era habitual ser interpretada pelos filósofos para se referir ao princípio racional que governa o universo. Aqui temos a explicação teológica da inteligibilidade do universo. É produto da Mente, do Logos divino. Porque o que está por detrás do universo é muito mais que um princípio racional: é Deus, o próprio Criador. O que está por detrás do universo não é uma abstração, nem sequer uma força impessoal. É um Deus pessoal. E tal como a tia Matilde não fazia parte do pastel, Deus tão pouco faz parte da matéria do universo (139).

E devemos ir mais longe, citando de novo o próprio Lennox: “As pessoas comunicamos de modo diferente das coisas. Como pessoas, podemos chegar a conhecer as outras pessoas. Portanto, a seguinte questão lógica é: se o Criador é pessoal, terá falado diretamente (de maneira distinta do que podemos aprender dele por meio das estruturas do universo)? Porque, se há um Deus e falou, o que quer que tenha dito será, por definição de tremenda importância para nós na nossa procura da verdade. Neste ponto, uma vez mais, nos deparamos com a afirmação da bíblia de que Deus nos falou da forma mais profunda e direta possível. Ele, o Verbo, que é uma pessoa, fez-se homem para demonstrar plenamente que a verdade última detrás do universo é pessoal” (140).

3. Os santos e a nossa vida cristã

Um dos textos menos conhecidos do Papa Francisco é a sua Exortação Apostólica “Gaudete et exultate” (“Alegrai-vos e exultai”), “sobre o chamamento à santidade no mundo actual”. Com efeito, é um texto que vai contra-corrente (como o próprio Papa reconhece); um texto que não aborda nenhum tema “politicamente correcto”, mas que é essencial porque nos recorda em que consiste o modo de viver do cristão: a santidade.

E, se é verdade que o Papa nos convida a todos à santidade e a reconhecer a “santidade da porta ao lado”, a santidade da “gente comum”, nem por isso deixa de referir o exemplo dos grandes santos.

Olhemos, por isso, este texto do Papa Francisco para nele procurarmos as razões para propor (repropôr) a figura de S. Tiago Menor como exemplo de vida cristã e intercessor junto de Deus para os cristãos da nossa diocese do Funchal.

O objectivo do Papa Francisco ao colocar a santidade diante dos olhos de todos os cristãos é simples. Ele próprio o confessa logo no início: “O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa. Com efeito, a chamada à santidade está patente, de várias maneiras, desde as primeiras páginas da Bíblia; a Abraão, o Senhor propô-la nestes termos: «anda na minha presença e sê perfeito» (Gn 17, 1)” (GE 1).

Olhemos, de um modo mais detalhado, o Primeiro capítulo (“A chamada à santidade”), deixando o convite a que todos, depois, se deliciem com a leitura, simples, do resto do documento.

A primeira afirmação é a de que a vida dos santos não foi, toda ela, completamente exemplar. Isso mesmo nos diz a Sagrada Escritura — em particular a Carta aos Hebreus (Heb 12) — a apresentar-nos como modelos de vida personagens cuja existência foi marcada pelo pecado. E o Papa Francisco comenta: “A sua vida talvez não tenha sido sempre perfeita, mas, mesmo no meio de imperfeições e quedas, continuaram a caminhar e agradaram ao Senhor” (GE 3).

O n. 4 da GE começa por nos dar a razão da importância dos santos e da sua invocação na nossa vida cristã: “Os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm connosco laços de amor e comunhão. Atesta-o o livro do Apocalipse, quando fala dos mártires intercessores: «Vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido mortos, por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que deram. E clamavam em alta voz: “Tu, que és o Poderoso, o Santo, o Verdadeiro! Até quando esperarás para julgar?”» (6, 9-10). Podemos dizer que «estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. (…) Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me», diz o Papa Francisco, citando Bento XVI.

No n. 6 o Papa chama a nossa atenção para uma realidade central na vida de santidade: a dimensão comunitária. “O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus, porque «aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em povo que O conhecesse na verdade e O servisse santamente»”. E o Papa faz uma afirmação que retomou na meditação da Praça de S. Pedro vazia por causa da pandemia: “Ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana” (GE 6).

“A santidade — diz o Papa Francisco — é o rosto mais belo da Igreja” (GE 9). E Deus chama a todos à santidade, como nos recordou o Concílio Vaticano II, cada um pelo seu caminho. Afirma o Papa: “Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (GE 14). E logo acrescenta: “Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade” (GE 15).

O Papa sublinha ainda que “cada santo é uma missão; é um projecto do Pai” (GE 19). Mas diz também que “Esta missão tem o seu sentido pleno em Cristo e só se compreende a partir dele” (GE 20). E, logo a seguir, diz em que consiste a santidade: “a santidade é viver em união com Ele os mistérios da sua vida; consiste em associar-se duma maneira única e pessoal à morte e ressurreição do Senhor, em morrer e ressuscitar continuamente com Ele. Mas pode também envolver a reprodução na própria existência de diferentes aspetos da vida terrena de Jesus: a vida oculta, a vida comunitária, a proximidade aos últimos, a pobreza e outras manifestações da sua doação por amor” (GE 20).

E resume: “Cada santo é uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao seu povo” (GE 21).

O Papa Francisco termina: “Não tenhas medo da santidade. Não te tirará forças, nem vida nem alegria. Muito pelo contrário, porque chegarás a ser o que o Pai pensou quando te criou e serás fiel ao teu próprio ser. Depender d’Ele liberta-nos das escravidões e leva-nos a reconhecer a nossa dignidade” (GE 32).

E ainda: “Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida «existe apenas uma tristeza: a de não ser santo»” (GE 34).