Padre Aires Gameiro fala de “constrangimentos pandémicos”

Padre Aires Gameiro | Foto: Duarte Gomes

O P. Aires Gameiro, doutorado em Pastoral da Saúde e membro da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, há muito que nos habituou a reflexões sérias e oportunas. Com uma vasta experiência em vários campos, o seu trabalho move-se pelo espírito de partilha através de livros, artigos, entrevistas e escritos periódicos. Os temas da sua preferência centram-se na pessoa, na promoção dos direitos e dignidade do ser humano, em consonância com o Evangelho de Cristo, em desfavor dos perigos e alienações que rodeiam a humanidade. No tempo atual, no contexto da “pandemia” ou “Covid-19” que ainda aflige o mundo, voltamos a registar a opinião sábia e o testemunho do P. Aires, numa simples conversa que, com certeza, interessará a muitos.

 1 – Desde o início da “pandemia”, como tem sido a sua rotina diária, que dificuldades tem enfrentado ao nível do seu trabalho, no contacto com os utentes da Casa de Saúde de S. João de Deus (no Funchal, onde reside)? 

AG- Uma delas é um certo estado de insatisfação na pastoral e na ajuda psicológica aos doentes da Casa de Saúde. O constrangimento de não poder aproximar-se, de não apertar a mão quando a estendem, contraria os doentes e a nós. O uso da máscara é um estorvo que embacia os óculos, dificulta o falar e entender. As limitações de circular livremente pela Casa de Saúde entre unidades, ter o bar e a capela fechados desumanizam os ambientes, reduz a comunicação e impõe mais solidão aos utentes. Alguns, confinados às suas unidades, sem circularem, sem poder ocupar-se em pequenas tarefas, sem ter visitas, sem poder participar nos funerais dos amigos incomoda a todos, limita a animação e práticas pastorais. Não há imaginação que possa contornar os obstáculos do confinamento imposto pela pandemia.

Por outro lado, pessoalmente, deixa mais tempo para trabalho de gabinete, escrita, organização de arquivo; para a oração, reflexão, redigir alguns artigos para jornais e amigos. Também deu para preparar mais algum livro e ir completando os que estão em curso, como o dos contos, a sair em breve de colaboração com uma colega psicóloga. Os projetos de dois livros de história da Casa de Saúde S. Miguel e o II volume desta Casa, assim como um opúsculo sobre o Beato Andradas, mártir, que inaugurou esta Casa em 1924 quando era Provincial.

2 – Com tantas notícias sobre o “Covid-19”, sente-se esclarecido, confiante, confuso ou dececionado?

AG – Não há resiliência a tantas informações e opiniões desencontradas. Cada vez mais estou convicto de que esperança plena só a posso ter em Jesus Cristo, o ressuscitado, à maneira do meu fundador, S. João de Deus. Contudo, tento, mas desde outubro-setembro de 2020 sinto tudo mais problemático e incerto. A confiança nas vacinas e nas informações científicas sobre a pandemia vai-se reduzindo. Apesar de estar vacinado, como foram todos aqui na Casa de Saúde, as notícias e a falta de consensos não têm cessado de aumentar. As incertezas com os efeitos, o número de vacinas, a cadeia primeira de transmissão (na China). o uso da máscara, as variedades do coronavírus, o desencontro de opiniões de cientistas, a dificuldade em distinguir a informação segura dos boatos tem aumentado. A confusão é grande e aumenta com as informações e contra informações de um lado e outro. Parece que só há um princípio científico a ter em conta, o das probabilidades, mas não se consegue estabelecer com exatidão o seu alcance; e não faltam as guerras de interesses e de “verdades” que dificultam certezas e confiança. Alguns bem procuram ser líderes de opinião, mas não conseguem, outros vão organizando grupos científicos sérios para informar com segurança, como alguns que circulam nas redes, e logo outros os vem contradizer.

Despertei, entretanto, para a necessidade de lidar com estatísticas e probabilidades, para entender um pouco. Sem alguns conhecimentos muitos ficam desarmados para o que cada um deve fazer para promover o próprio estilo de vida mais saudável. Circula muita fantasia sobre a higiene alimentar, os consumos, as dependências e as relações entre o livre arbítrio e o cérebro e agora sobre a pandemia. E vêm as dúvidas: aceitar não aceitar a vacina, usar não usar a máscara? As manifestações aqui e ali, a favor e contra, também não ajudam. Que fazer? Discernir e tentar acertar o mais possível. Se havia pretensões dogmáticas em relação à ciência desta pandemia, estão a receber um golpe. E as máfias da corrução agravam a situação. Não estou a exagerar.

3 – Mas não acha que há sinais de esperança para se vencer esta doença, tendo em conta o conhecimento científico sobre a mesmo? Ou corre-se o risco de ter muitas “soluções” para a cura?

AG – Vive-se, apesar de tudo, uma mistura estimulante de que a vida vai vencer, mas não se sabe como, nem quando. E que as atitudes vão deslizando em várias direções. Menos confiança e mais medo de que as ciências, sem humanismo, sem fraternidade, sem valores cristãos, não chega, mas não se pode dispensar. A pandemia, com exceção da solidariedade e a enorme dedicação de tantos profissionais e tantos outros, está a deixar tudo mais frágil e a pedir mais ajuda recíproca. As certezas só aumentam nas máquinas mais simples, ninguém sabe tudo de um facto, nem desta pandemia nem como funcionam os processos biológicos e as probabilidades dos efeitos positivos e negativos da máscara, dos testes, das vacinas, da imunidade. Já se sabe o que aconselham os cientistas, e com razão: é preciso mais conhecimento; estamos na idade do conhecimento; as incertezas só se reduzem com mais conhecimento e confiança na ciência. Contudo, não é para todos nem sempre funciona.  

Por outro lado, estamos a gerar mais procura de outros apoios para além das ciências humanas. Para uns, são mesmo apoios da fé cristã e oração pessoal e em grupo. Alguns procuram voltar à prática religiosa que tinham posto de parte. Outros persistem no seu afastamento.

Nem falta a busca de apoios de crendice e ídolos, não como os da antiguidade grega e romana, mas modernos, tipo New Age, ou mesmo na procura de alguns placebos  e consumos doentios, dinheiro, prazeres encarniçados, ou  aventuras de desespero e para-suicídios. As ideologias da moda oferecem uma avalanche de orientações anticristãs que denotam um certo desespero e entrega ao aqui e agora de tudo experimentar de máfias de crime organizado antes que se morra. Não é por acaso que as queixas de solidão e depressão, como esta, coincidem com a decadência na prática de valores e práticas cristãs. As contrainformações pseudocientíficas, de cariz pagão, pululam ao lado da desinformação face à pandemia. Penso, contudo, que também há os que vão avançando para a procura de mais maturidade realista e menos ingenuidade de acreditar em tudo que o circula nas redes e esquinas, e procuram resposta global à pandemia incluindo valores da fé cristã.      

4 – O Papa Francisco pediu “uma vacinação solidária em que não prevaleça a lei do mercado”, concorda? 

AG – Tem toda a lógica, assim o consiga, porque as crises e corrução fazem crescer os ricos e a sua riqueza. Circulam notícias que nesta pandemia, os trabalhadores perderam cerca de 4 biliões de euros, enquanto os milionários ganharam quase 4 biliões. Parece magia, esta transferência de riqueza de pobres para ricos, a maior na história. A Forbes confirmou que, em 2020, os muito ricos cresceram de 660 para 2755 com os lucros fabulosos “durante este negro período”. (Cf. JOana Amaral Dias, DN online, 11 Abril 2021)

5 – Escreveu o ano passado (2020) um livro de testemunhos sobre o “coronavírus”… Tenciona publicar mais  alguns textos sobre o tema?

AG – Por enquanto, não. 

6 – Se fosse possível voltar atrás no tempo, em que época da História gostaria de viver? Ou entende que não devemos deixar de viver o tempo que nos foi dado, com todas as causas e consequências?

AG – Gostaria de viver nesta. A minha experiência já vai longa: enormes desilusões das miragens catastróficas das ideologias liberalistas republicanas e ateias do dobrar dos séculos. XIX e XX e das duas Grandes Guerras Mundiais; dos pesadelos do Nazismo, Comunismo marxista e do espalhar dos seus erros por todo o mundo e agora no jihads

querdismo. E ainda a guerra civil de Espanha, o Salazarismo, o turbilhão do 25 de Abril de entusiamo na “matança do pai” (Freud), medo e apreensão do longo período de desilusão e corrupção, em Portugal e na UE. Tem sido uma época muito especial de promessas, pesadelos e de lutas acesas entre ateísmos/paganismos e a cultura cristã. Contudo, nunca a fé cristã se difundira tanto pelo mundo e nunca foi tão combatida. Não é espuma nem ópio como especulou Marx. É agora que melhor se pode entender: e as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja de Jesus Cristo. Época de Cristo e dos Anti-Cristos, que continua exacerbada com o espalhar de erros e violências à espera, na linha das aparições de Fátima, de uma viragem de fraternidade humano-divina baseada nos dez mandamentos e no Evangelho. Esta pandemia promete ser estímulo e esperança.

Entrevista conduzida por Vitória Menezes, jornalista, RoinesxxI, blog, 14.04.2021