A lição de meu pai

D.R.

No passado dia de São José, quando vinha no carro com o meu marido, a ouvir a Rádio Renascença, em determinado momento, o locutor pediu para os ouvintes lhe responderem a uma pergunta: “Lembra-se de alguma lição importante que tenha aprendido com seu Pai?”

Não pude responder, mas gostava de partilhar convosco uma recordação … sim, lembro-me de uma Grande Lição!

Meu Pai era médico ginecologista e obstetra. Morreu, repentinamente, aos 60 anos, com enfarte do miocárdio. Minha Mãe ficou viúva aos 48 anos. Foram tempos muito difíceis. Eu tinha 13 anos muito infantis… era a mais nova dos meus irmãos e os meus pais, comparados com os pais das minhas colegas de colégio, eram pessoas mais velhas. Minha Mãe, adorava usar chapéu, mesmo quando as senhoras do seu tempo já não usavam (e eu não gostava muito de alguns deles…).

Um dia, foi ao meu colégio, para uma tarde de ‘retiro quaresmal’ à hora em que, terminadas as nossas aulas, muitas de nós já estávamos sentadas na camioneta que nos levava a casa. Ao ver-me à janela, minha Mãe, do lado de fora, veio dizer-me adeus e, carinhosamente, mandou-me um beijinho. Atrás de mim, ouvi então grande risota (tão normal naquelas idades …) por causa do chapéu de minha Mãe. Fiquei gelada, mas nada disse. Ao chegar a casa, fechei a porta do meu quarto, deitei-me em cima da cama e fartei-me de chorar, sozinha… Nunca disse nada a ninguém.

 

Alguns dias mais tarde, num domingo depois da Missa, fiquei no carro com meu Pai, enquanto minha Mãe ia à pastelaria Tim-Tim, comprar uns rissóis e uma sobremesa. Vi então, de repente, umas meninas a atravessarem a rua. Eram algumas das que se tinham rido do chapéu de minha Mãe e ‘desatei’ a dizer mal delas ao meu Pai. Eu teria uns onze ou doze anos, nessa altura. Meu Pai, sentado ao volante, voltou -se para trás, e disse-me apenas, com um ar muito sério: “Minha filha, não se diz mal de ninguém! Se não podes dizer bem, deves ficar calada…”

Nunca mais me esqueci. Infelizmente, não tive muito mais tempo para aprender outras lições da sua boca. Era um homem muito estudioso, trabalhador, acolhedor, reservado, discreto, simples e bondoso. Creio que nunca terá lido o ‘Caminho’, nem sei se terá ouvido falar em S. Josemaria Escrivá de Balaguer. Porém, quando em 1978/79, já casada e mãe, li este livro, pela primeira vez, encontrei um ponto (nº 443), que dizia assim: “Não faças crítica negativa; quando não puderes louvar, cala-te.” E lembrei-me de meu Pai.

Ao ouvir a pergunta do locutor da Rádio Renascença, revivi o episódio da Grande Lição que meu Pai me deu. Voltei a comover-me e a sentir saudades dele…

Fátima Fonseca
Professora