Vítimas, Coitados ou Irmãos?

D.R.

Jesus Cristo foi uma vítima, um condenado inocente; aceitou morrer; e não apenas em vez do assassino Barrabás por decisão dos que não sabem o que fazem e chamam de coitados aos que querem humilhar. Ele quis morrer em vez de todos (se alguém não se inclui que se exclua). Cristo foi vítima voluntária, mas não foi um coitado a lastimar. De cabeça levantada anunciou e mostrou quem era. E ressuscitou. Os cristãos, hoje, não são coitados, por estarem com Cristo, como não eram os do tempo de Diogneto (cerca de 200). Os verdadeiros cristãos proclamam-se iguais aos romanos e a toda a gente, mas diferentes. Não adoram ídolos nem são assassinos de bebés, diz o autor da carta. Eram vítimas de injustiças e mártires para não serem idólatras, mas não se envergonhavam de ser de Cristo, nem se consideravam coitados para terem comiseração por eles.  

A nova ordem dos extremistas de hoje não faz justiça às vítimas do seu grupo; recorre antes ao método de substituição: liberta as suas vítimas de discriminação humilhante, e fazem bem; mas discriminam outras que põem no lugar das primeiras. Vingança e injustiça não fazem bem à sociedade nem à alma de cada um, não promovem fraternidade entre irmãos da família humana. Praticam a substituição. Tiram uns de vítimas e de coitados dando-lhe identidade digna; mas põem outros no lugar dos primeiros, mantém as máquinas de ódio de estimação.

Os dizeres dos anos 60-70: “black is beautiful”; e os de hoje “black lives matter” pedem correção: as vidas humanas, de qualquer cor, idade, etnia, nascidas, antes de nascer, toda a vida até à morte natural, todas valem. Fratelli, tutti!, Irmãos todos de uma só família, a de Deus Pai.

Os extremismos, sem ou com o dinheiro dos bilionários, sem ou com o pride, ódio e imaginação secularista anti-cristã, seguem táticas de substituição de «dente por dente» (Mt 5, 38-42). Tratam por coitados e envergonhados os que não aceitam o aborto, os casamentos gays, a ideologia do género, a eutanásia. Nem faltam os que consideram dignos de lástima quem aceita os dez mandamentos, as práticas evangélicas, a Missa dominical, a oração ao Criador. Certa engenharia da ordem mundial, sem dignificar as vítimas de esquerda, centro ou direita, aponta o dedo, troça da fé cristã e destrói os símbolos cristãos católicos. Alguns nem toleram que se creia em Cristo Filho de Deus, único Salvador, os odeiam e martirize.  

Os católicos têm sido empurrados para posições envergonhadas. O novo ímpeto da nova ordem mundial endinheirada, progressista e anti-cristã assemelha-se à ideologia do império romano adoradora de ídolos, niveladora e cheios de vícios. Os novos programadores sopram constante cristianofobia subtil da América e da Europa. Os católicos vão abandonar Cristo ou continuam fiéis como tantos cristãos do fim do século II (cf Carta a Diogneto V 11) amando a todos, mesmo quando perseguidos e lançados às feras? E em Portugal, vão conservar as tradições cristãs de oito séculos e preservar com gratidão a memória da evangelização que fizeram nos cinco continentes? Dá gosto saber que dezenas de países vivem e agradecem a fé que os missionários aí levaram. Os alvos dos iconoclastas são apenas os monumentos, igrejas, museus de arte cristã ou o Evangelho e Cristo que estes proclamam? Mais importante que as estátuas de santos, as igrejas e tantos sinais de fé, são os fiéis a Cristo a quem os cristofóbicos pretendem rotular de coitados. Quem não alinha  nos esquerdismos é olhado com comiseração e pressionado a envergonhar-se disso. 

Contudo, Cristo é muito claro. «Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos» (Mc 8, 38). Neste dia de Misericórdia, o Evangelho lembra que o Senhor perdoa mesmo a esses que se envergonharam, se arrependeram e pedem perdão por não reconhecer Cristo como Pedro em casa do sumo-sacerdote (Mc 14, 66-72), ao contrário de Judas que se negou ao arrependimento, desprezou a misericórdia [ de Cristo] e não quis ser perdoado  (Catarina de Sena, Diálogo, 37).