500 anos do Voto a São Tiago: Bispo do Funchal alerta que comemorações não devem ser apenas “fogo de vista” 

Foto: Duarte Gomes

A Diocese do Funchal deu início este sábado, dia 10 de abril, às Comemorações dos 500 Anos do Voto a São Tiago Menor, Padroeiro da Diocese do Funchal, com uma Eucaristia na Sé. 

Um momento para o bispo do Funchal alertar para a necessidade destas comemorações não serem apenas “fogo de vista” ou “um conjunto de iniciativas culturais a recordar o passado”. Mas antes “contribuir para conhecermos melhor a rica personalidade do nosso Padroeiro”. 

Estas celebraçõesacrescentou D. Nuno Brás, “hão-de judar-nos a olhar para ele com maior devoção e a querer imitá-lo na santidade de vida; hão-de ajudar-nos a viver os ensinamentos tão ricos da Carta que, entre os escritos neotestamentários, traz a sua autoria; hão-de levar-nos a revisitar os acontecimentos da nossa história diocesana e a tomarmos consciência de como Deus se faz presente na nossa vida quotidiana, concreta, oferecendo-nos a salvação, dando-nos a possibilidade de viver em Cristo ressuscitado; hão-de fazer-nos invocá-lo com fervor, pedindo que nos ajude a passar definitivamente por esta pandemia”.  

Sobretudofrisou o preladoesta celebrações “hão-de contribuir para que, também em nós, surja este gritoesta urgência: “Não podemos não falar!”. 

Numa homilia centrada precisamente na ressurreição e no facto de não podermos calar o que vimos e ouvimos, D. Nuno Brás lembrou que “o anúncio da ressurreição é, de verdade, algo bem maior que nós. É algo que nos ultrapassa. É uma feliz notícia que, uma vez escutada e acolhida, nos envolve e toma posse de nós, oferecendo todo o sentido à nossa vida”. 

É deste modo também, explicou, que podemos “entender o convite de S. Tiago, na IIª Leitura (Tg 1,16-25), quando o Apóstolo se refere à “Palavra da Verdade”, com a qual o Pai nos gerou como novas criaturas, e que, plantada em nós, nos conduz à salvação. A Palavra é Jesus ressuscitado que, em nós, faz surgir o Homem novo, nos liberta e nos oferece a bem-aventurança, a felicidade. E como nos liberta, essa Lei de liberdade! E como não podemos calar!”. 

No final da homilia o prelado convidou a assembleia a rezar a forma breve da oração a São Tiago. 

Dois novos acólitos

Mas a celebração desta manhã ficou marcada pela instituição no Ministério dos Acólitos de dois seminaristas, o Alberto Fernandes e o Patrício de Sousa.  

Trata-se, explicou D. Nuno Brás, “de mais uma etapa na resposta que querem dar ao Senhor”, cujo caminho percorrido a Igreja e em particular a Igreja do Funchal reconhece, mas também de “lhes confiar o serviço mais próximo do altar e da Eucaristia, de que passam a ser ministros extraordinários — de lhes entregar o serviço dos seus bens preciosos”.  

“Não deixaremos de rezar por eles e de os acompanhar”, garantiu o bispo do Funchal, como também “não deixaremos de rezar pelos nossos outros seminaristas e por todos aqueles que o Senhor quer chamar para o serviço do mistério de Cristo, como sacerdotes”. 

No final da Eucaristia, D. Nuno Brás retomou a ideia de que estas comemorações que agora se iniciam devem ser plenas de sentido, fazendo votos que os dias e meses que aí vêm sejam “tempo vivido em comunhão, em união de uma forma muito particular com este nosso padroeiro” e que “ele nos ajude a sair bem desta situação de pandemia, quer dizer, a sair mais junto a Deus, mais próximos dos irmãos, mais unidos a São Tiago Menor”. 

Voltou ainda a “dar graças a Deus por estes dois novos acólitos, que são uma promessa”, a apelar que “rezemos para que sejam bons e santos sacerdotes”. Às portas de mais uma Semana de Oração pelas Vocações, desejou ainda “que o senhor continue a chamar e que seja capaz de entrar no coração dos jovens de forma a que possam ter esta disponibilidade para corresponder aos apelos do Senhor. 

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:  

500 ANOS DE S. TIAGO PADROEIRO DIOCESANO 
Abertura do ano comemorativo 
Sé do Funchal, 10 de abril de 2021 
Sábado da Semana in albis 

“Não podemos calar o que vimos e ouvimos” (Act 4,20)

  1. O final do Evangelho de S. Marcos, de que acabámos de escutar alguns versículos (Mc 16,9-20), como que nos oferece uma síntese das aparições do Ressuscitado. Por um lado, mostra a pluralidade das aparições — a Maria Madalena, aos discípulos de Emaús e aos Onze — mas, depois, chama-nos também a atenção para a dificuldade que todos tiveram em acreditar na ressurreição: afinal de contas, tinham vivido os acontecimentos da Paixão e a certeza da morte do Mestre e da sua sepultura, e também teriam presente a cobardia com que tinham fugido, voltando as costas ao Senhor, naquele momento central da história — a consciência da sua incapacidade e do seu silêncio culpado.

A notícia da ressurreição de Jesus veio, pois, encontrar os discípulos no meio de um turbilhão de acontecimentos, emoções, dificuldades: talvez por isso, a dificuldade que sentiram em aceitar essa Boa Nova. Como quer que seja, todas estas dificuldades mostram-nos que a ressurreição de Jesus não é o fruto de uma invenção, de um qualquer fenómeno psicológico de grupo, ou do engenho especial de um dos discípulos, capaz de sonhar e de  convencer os demais dessa imaginação exagerada. Bem pelo contrário: a ressurreição constitui algo que ultrapassa o próprio ser dos discípulos e as suas capacidades, tornando-se uma inevitabilidade que se lhes impõe.

Maria Madalena (sabemos pela narração de S. João) confundiu Jesus com o jardineiro; mas logo que reconheceu o Senhor, foi dar conta aos discípulos do que tinha sucedido — aos discípulos, que (diz-nos S. Marcos) estavam “mergulhados em tristeza e pranto”, mas que, mesmo assim, não quiseram acreditar no testemunho daquela mulher.

Os outros dois membros do grupo que encontraram o Senhor quando iam a caminho do campo (e que não nos é difícil identificar como sendo os dois discípulos que S. Lucas coloca a regressar a Emaús), se primeiramente fazem referência ao escuro da noite (“Fica connosco, porque anoitece”), não hesitam, depois de reconhecer o Ressuscitado, em regressar imediatamente a Jerusalém (“correram a anunciar aos outros”, diz S. Marcos). Também o seu testemunho foi mal recebido.

Finalmente, os Onze, estando à mesa, foram, eles próprios, visitados pelo Ressuscitado, que não hesitou em censurá-los pela incredulidade, para logo lhes ordenar: “Ide por todo o mundo”.

Mandava, contudo, o bom senso que, dado o ambiente explosivo que (a todos os níveis) se vivia em Jerusalém, os discípulos ficassem alegres por ver o Mestre mas guardassem para si a boa notícia. Sabemos, no entanto, como o Evangelho não é abundante em prudências humanas. Por isso, não nos espantamos ao verificar como, em todas as narrações do encontro com o Ressuscitado, o que sobressai é antes a urgência, a inevitabilidade do anúncio.

Aliás, a Iª leitura que escutámos, dos Actos dos Apóstolos (4,13-21), afirma isso de um modo muito claro: “Não podemos calar o que vimos e ouvimos” (4,20): não é apenas o bom senso humano que é ignorado; o anúncio da ressurreição é algo sobre o qual os discípulos não têm domínio, mas que antes os domina. Os homens mandam-nos calar; impõem-lhes o silêncio e a tranquilidade. Mas que importa isso? Para Pedro e João, é evidente: podem os homens ficar a discutir o que é justo; podem os homens perder-se em argumentos acerca do que é prudente. Para os discípulos é claro: “Não somos capazes de não falar” — diz o texto grego tomado à letra. Ou, a tradução latina, o célebre: “Non possumus!”.

Porquê esta urgência, quando tudo convidava a ser discreto? Porquê esta necessidade de correr, de ir apressadamente — este “ter de falar”?

Certamente porque tinham recebido da parte de Deus o mandamento para o fazer: “Ide […] e proclamai o Evangelho a toda a criatura” — trata-se de obedecer a Deus e não aos homens e às suas regras. Mas, precisamente: a Boa Notícia ultrapassava-os e, ao mesmo tempo, envolvia-os; era algo que brotava do interior do seu coração, e que os ultrapassava infinitamente. O acontecimento de que davam testemunho e o seu significado para a inteira humanidade era bem maior do que eles, mas precisava da sua vida — da sua boca, dos seus pés, das suas mãos, da sua inteligência e ousadia! Não podiam guardar ciosamente para si a notícia: era urgente que todos a conhecessem, era urgente que todos se pudessem confrontar com uma nova saída, um novo horizonte para a existência, um novo modo de viver!

Por causa de Deus; mas, também, por causa dos homens! É, de verdade, questão de vida ou de morte: em Jesus de Nazaré, Deus tinha derrubado o muro que nos separava da vida. Jesus ressuscitado tinha aberto uma brecha na morada dos mortos, pela qual toda a humanidade podia, agora, fazer caminho. Em Jesus, Deus tinha terminado com o domínio da morte. Doravante o horizonte da vida humana era a vida eterna, a vida de Deus e com Deus. Era urgente anunciá-lo! Era bem mais urgente que qualquer prudência humana!

O anúncio da ressurreição é, de verdade, algo bem maior que nós. É algo que nos ultrapassa. É uma feliz notícia que, uma vez escutada e acolhida, nos envolve e toma posse de nós, oferecendo todo o sentido à nossa vida.

É deste modo, também, que podemos entender o convite de S. Tiago, na IIª Leitura (Tg 1,16-25), quando o Apóstolo se refere à “Palavra da Verdade”, com a qual o Pai nos gerou como novas criaturas, e que, plantada em nós, nos conduz à salvação. A Palavra é Jesus ressuscitado que, em nós, faz surgir o Homem novo, nos liberta e nos oferece a bem-aventurança, a felicidade. E como nos liberta, essa Lei de liberdade! E como não podemos calar!

  1. Quando, há quase 500 anos, os madeirenses se confiaram à intercessão de S. Tiago Menor — consagração renovada por diversas vezes ao longo da história — fizeram-no num momento de aflição. Fizeram-no repetindo o gesto com que, logo depois da ressurreição do Senhor, os discípulos de Jerusalém escolheram Matias para o lugar que Judas tinha deixado vazio no grupo dos Doze (Act 1,23-26): depois de rezar, pediram a uma criança (sabemos que se chamava João) que retirasse de um barrete o nome do nosso Padroeiro. A sorte (que aqui não tem o significado de “acaso” mas de disponibilidade para a vontade divina) recaiu em S. Tiago Menor.

As comemorações do sucedido há quase 500 anos, precisamente aqui onde estamos a celebrar, e que hoje iniciamos, não podem constituir, simplesmente, “fogo de vista” ou um conjunto de iniciativas culturais a recordar o passado. Hão-de antes contribuir para conhecermos melhor a rica personalidade do nosso Padroeiro; hão-de ajudar-nos a olhar para ele com maior devoção e a querer emitá-lo na santidade de vida; hão-de ajudar-nos a viver os ensinamentos tão ricos da Carta que, entre os escritos neotestamentários, traz a sua autoria; hão-de levar-nos a revisitar os acontecimentos da nossa história diocesana e a tomarmos consciência de como Deus se faz presente na nossa vida quotidiana, concreta, oferecendo-nos a salvação, dando-nos a possibilidade de viver em Cristo ressuscitado; hão-de fazer-nos invocá-lo com fervor, pedindo que nos ajude a passar dedinitivamente por esta pandemia. Mas, sobretudo, hão-de contribuir para que, também em nós, surja este grito, esta urgência: “Não podemos não falar!”.

  1. Também nesta celebração dois dos nossos seminaristas, o José Alberto e o Patrício, recebem o ministério dos acólitos. Para eles, trata-se de mais uma etapa na resposta que querem dar ao Senhor que, hoje como outrora, nos diz a todos: “Ide pelo mundo inteiro”. Para a Igreja, em particular para a nossa Igreja do Funchal que, deste modo, reconhece o caminho por eles percorrido até aqui, trata-se também de lhes confiar o serviço mais próximo do altar e da Eucaristia, de que passam a ser ministros extraordinários — de lhes entregar o serviço dos seus bens preciosos.

Não deixaremos de rezar por eles e de os acompanhar, tal como não deixaremos de rezar pelos nossos outros seminaristas e por todos aqueles que o Senhor quer chamar para o serviço do mistério de Cristo, como sacerdotes.

Tudo quanto vivemos, caros irmãos, ultrapassa-nos, é maior que nós. Mas a Sua presença em nós faz surgir no nosso coração a urgência do Evangelho: “Não podemos não falar!”.