“Há três colunas que me sustentam: oração, silêncio e literatura”

O padre José Luís Rodrigues celebra hoje 25 anos de sacerdócio

O padre José Luís Rodrigues, pároco de S. Roque e S. José, está a celebrar neste domingo as bodas de prata sacerdotais. O Jornal da Madeira falou com este sacerdote sobre temas da atualidade da Igreja e do mundo. 

No final do ano passado publicou o livro de poesia «Pedaços de Esperança». Qual é o lugar da poesia e da literatura na sua vida? 

José Luís Rodrigues – Um lugar central. Há três colunas que me sustentam, oração, silêncio e literatura.

A primeira tem a ver com um alimento que não se diz, mas que se sente o que se é perante a existência material e a existência que nos transcende, a nossa dimensão divina.

A segunda coluna, a do silêncio, é a necessidade de parar para ver por dentro sem falar, só escutar. Esta é a realidade que fala sem dizer, dizendo o essencial e o mais importante. Pois esta é coluna da escuta dos olhos da alma, para nos «colocar no meio das coisas», como diz Camus e também como afere o pensamento de Santo Agostinho: «o ouvido vê através do olho, e o olho escuta através do ouvido».

A terceira coluna que me sustenta é a da literatura, que é um escape libertador da rotineira mediocridade dos dias. Sobre este sustento, faço o que mais gosto de fazer, ler e escrever. Leio todo o género de literatura. Mas também tenho uma paixão pela escrita e, por isso, ensaio alguma reflexão que vou partilhando para quem deseje tomar em alguma conta e na paciência para ler. Nada de pretensiosismos. Pela poesia nutro uma predileção especial, mais para ler do que para escrever, embora também experimente um pouco escrever poesia. A poesia é a viga que liga as três colunas. Porque a poesia permite imensas possibilidades, pois no jogo das palavras diz tudo, dizendo apenas uma parte, acendendo luzes para outros caminhos, pensamentos, sensações, respostas… O poema é o texto mais livre que existe. Por isso, é tão importante para quem procura o centro do sentido para se segurar na confiança e na esperança.

Padre José Luís Rodrigues | Foto: Jornal da Madeira

Pedras Vivas 11 de abril de 2021 (A4)

Pedras Vivas 11 de abril de 2021 (A3)

O Papa Francisco celebrou, no mês passado, 8 anos de pontificado. Na sua opinião, para onde o Papa está a guiar a Igreja e que mensagem quer deixar ao mundo?

José Luís Rodrigues – A meu ver há dois aspetos no Papa Francisco que não se pode descurar. São duas questões muito importantes e que contribuíram para restaurar a credibilidade e presença da Igreja Católica no debate público sobre as inquietações da humanidade. Colocaram a Igreja no centro do debate e isso é muito importante. Falo da ecologia e da fraternidade.

O debate sobre as alterações climáticas e os desequilíbrios da natureza estava muito estanque, partidarizado e obedecia a um pensamento ideológico profundamente manipulado. O Papa teve o condão de mostrar que o problema é sério, há uma ameaça contra a humanidade e a sustentabilidade da diversidade da natureza, porque «a nossa casa comum», o Planeta Terra está em perigo. O problema afeta a humanidade inteira (Laudato Si).

A outra questão é a da fraternidade (Fratelli Tutti). Se temos tido reflexão abundante e grandes iniciativas sobre a igualdade e a liberdade, faltava relevar o outro pilar das sociedades democráticas, a fraternidade, que é também um tema basilar do Cristianismo. A felicidade de ser o Papa a tomar a dianteira veio credibilizar o discurso e a presença da Igreja no mundo. Pois, diz à humanidade que só seremos felizes sob a luz da fraternidade e que só serão vencidos todos os desafios que perseguem os povos, quando for possível a expressão fraternidade, «não deixando ninguém para trás» e que, «ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém».

Estes dois pontos são para mim as marcas mais importantes, que vão ficar bem vincadas para o futuro no pensamento, não só da Igreja Católica, mas de toda a humanidade. Esta marca do Papa Francisco tem sido crucial para reposicionar a Igreja Católica no meio do mundo e no coração das pessoas concretas.

3 – A pandemia da Covid-19 está a deixar marcas profundas na nossa Região. Ao nível eclesial, quais os desafios da pandemia para a Diocese do Funchal? 

José Luís Rodrigues – Como ponto prévio, gostava de saber se há uma sensação geral de que a pandemia lançou desafios. É que vai ser preciso responder a eles cabalmente… Mas, às vezes fico com a sensação que a pandemia parece ser um interregno e que depois volta tudo ao que era. Enfim, vou limitar-me a responder telegraficamente a alguns desafios que considero advirem do contexto da pandemia, ou melhor, já existia, a pandemia só os agravou e tornou-os mais notórios:

– A insignificância da Igreja cresceu. E não é coisa pouca…

– A indiferença geral aumentou em relação ao que a Igreja diz e como se apresenta.

– Renovação da linguagem sem medos que nos travem a ousadia de ir contra o que é costume.

– Realce da espiritualidade como função prioritária da dimensão da vida religiosa.

– Abertura à sociedade num diálogo aberto e sincero sem manias clericalistas, com humildade e simplicidade de quem não sabe tudo e precisa também de ouvir para aprender.

– Este tempo sem catequese vai trazer consequências que não conseguimos prever. Era preciso repensar a modalidade da catequese, tirar-lhe a carapaça escolarizada que ela apresenta e torná-la numa experiência vivencial.

– Face à pandemia era importante fazer um debate generalizado sobre a identidade do ser igreja nestes tempos. Que perfil deve assumir a Diocese, como se deve comportar, que linguagem deve utilizar, que atitude deve ter perante o sofrimento, a morte e que proposta faz para que o Cristianismo deixe de ser uma obrigação, para ser uma escolha consciente para que suscite mais gente comprometida.

– O que fazer e como fazer numa pastoral contra a pobreza além ser só distribuição de alimentos e roupas aos pobres, coisa que faz tão profissionalmente as várias instituições governamentais e não-governamentais que existem na nossa terra, dedicadas à distribuição de géneros aos pobres…

– Uma igreja Diocesana que seja exemplo de fraternidade, isto é, que mostre como se faz isso de ser fraterno.

4 – Está a celebrar as bodas de prata de ordenação sacerdotal. Para si, que caraterísticas considera importantes num sacerdote, atendendo à sociedade atual?

José Luís Rodrigues – As principais características de um padre nos tempos atuais devem ser aquelas que o Evangelho prescreve: humildade, sinceridade e foco na fraternidade. 

Os tempos actuais não colam com o clericalismo, mas acolhem padres como pessoas próximas e normais, sem esquisitices de serem melhores do que os outros, compreendem a vida concreta das outras pessoas, porque falam a sua linguagem, transmitem-lhes paz e esperança. 

Penso que não basta um sacerdócio hoje que se limita a organizar cerimónias herméticas e hierarquizadas onde as pessoas só assistem como se fosse a um espectáculo cultural. Não precisamos de espectadores nas igrejas, mas de peregrinos que caminham juntos, com as suas misérias e virtudes em busca do bem maior que é Deus. 

Não podemos viver como se fôssemos peças de museus ou conservadores de museus. O padre tem que ter um perfil adequado ao pensar e sentir do vento que passa. Tem que ser do mundo sem ser mundano. Embora seja um equilíbrio difícil de conjugar. Enfim, tem que encontrar sabedoria para ser para todos sem ser de ninguém. E deve estar permanentemente em atualização e formação cultural, teológica e pastoralmente. Porque, «Um anúncio renovado proporciona aos crentes, mesmo tíbios ou não praticantes, uma nova alegria na fé e uma fecundidade evangelizadora» (Evangelii Gaudium, nº 11).