“A Igreja não pode parar”

O cónego Marcos Gonçalves apresentou o programa dos 500 anos da escolha de São Tiago Menor, padroeiro da Diocese do Funchal

No próximo mês, a Diocese do Funchal vai iniciar o programa das comemorações dos 500 anos da escolha de São Tiago Menor. Diversas iniciativas religiosas e culturais vão marcar os meses seguintes.

O Jornal da Madeira falou com o cónego Marcos Gonçalves, pároco da Sé, que apresentou o programa.

O que é o “voto” a São Tiago Menor e qual o significado da celebração dos 500 anos da sua eleição como padroeiro da Diocese do Funchal?

C. Marcos Gonçalves – Em 1521, há 500 anos atrás, a Madeira estava como muita mortandade por causa de uma peste. Por coincidência, 500 anos depois, voltamos a estar no meio de uma pandemia. 

Muita gente desconhece que São Tiago é o padroeiro da Diocese do Funchal. A celebração dos 500 anos é também uma oportunidade pastoral para renovar a devoção ao nosso padroeiro, São Tiago Menor, um dos doze apóstolos de Jesus, para conhecer uma das cartas do Novo Testamento que foi escrita por ele, ou na escola dele, e para renovar a nossa vida cristã e o dinamismo da nossa igreja, mesmo vivendo este tempo de pandemia. 

Há 500 anos atrás, no meio de uma peste que começou em Machico, o povo de Machico escolheu São Roque como padroeiro, exatamente para os proteger da peste, e foi construída aquela capela de São Roque ao pé da praia. 

Nessa altura fizeram cercos sanitários para que as pessoas que viviam naquela capitania não viessem para a capitania do Funchal, mas de alguma forma, a verdade é que, seja pelo mar, seja por terra, a peste acabou por chegar ao Funchal e alastrou-se completamente. Tiveram então a necessidade de escolher um padroeiro. O cabido da Sé e os vereadores da câmara municipal decidiram, no dia 11 de junho de 1521, meter dentro de um chapéu o nome dos dozes apóstolos, São João Batista e Nossa Senhora. Um miúdo, chamado João, tirou o papelinho depois de fazerem a invocação ao Espírito Santo e coube a sorte a São Tiago Menor. E foi assim que ele se tornou, nessa ocasião, protetor contra a peste. Os vereadores deixaram as suas varas diante dele. Mais tarde é que surgiu o voto a São Tiago Menor, a procissão do voto, a capela a São Tiago e depois a paróquia. 

O que estamos a assinalar é esta escolha, ou seja, os 500 anos da escolha do padroeiro da Diocese do Funchal. Quando a Diocese do Funchal se tornou a maior diocese do mundo, muitas dioceses também levaram esta devoção para lá. Celebramos também esta igreja missionária que levou esta devoção a outras igrejas, que foram nascendo a partir da nossa diocese. 

Cónego Marcos Gonçalves | Foto: Jornal da Madeira

Pedras Vivas 28 de março de 2021 (A4)

Pedras Vivas 28 de março de 2021 (A3)

Quaresma com São Tiago – Semana Santa (A5)

Como foi pensado o programa de comemoração?

C. Marcos Gonçalves – Para celebrar 500 anos deste santo, o sr. bispo criou uma comissão formada pelo pároco da Sé, que sou eu, o pároco de Santa Maria Maior, padre Pascoal, o Dr. João Henrique do Museu [de Arte Sacra] e a Dr.ª Graça Alves. E assim nós, com o cabido e com a câmara municipal, delineámos um programa que tem vários eventos, mesmo no meio desta pandemia. Esse programa foi publicado, mas pode vir a ser alterado de acordo com a situação da pandemia. 

Para assinalar esta data dos 500 anos teremos eventos religiosos, como a Missa de abertura. Também está a ser realizada uma nova imagem de São Tiago Menor que vai ser colocada na Sé, porque infelizmente na Sé não temos nenhuma imagem do padroeiro da diocese, então, o cabido vai oferecer uma imagem de São Tiago Menor à diocese, que vai permanecer na Sé do Funchal. Ao longo deste ano essa imagem será benzida. 

Outra coisa interessante será a chegada à Madeira de duas relíquias do corpo de São Tiago Menor, que estão em Roma. Foi aprovada esta visita das relíquias de São Tiago, que vão chegar em outubro. Haverá uma missa de acolhimento das relíquias na Sé e depois a relíquia maior irá percorrer os sete arciprestados da diocese. Cada arciprestado vai organizar o programa. A relíquia mais pequena será oferecida à Sé do Funchal. 

Estamos a pensar fazer 5 catequeses para que os padres nas paróquias, da maneira que quiserem, usarem essa ajuda para fazer essa semana de catequeses.

No programa também consta uma dimensão cultural…

C. Marcos Gonçalves – Haverá também uma vertente mais cultural, como um concerto, exatamente no dia dos 500 anos da escolha do padroeiro, que é no dia 11 de junho, na Sé do Funchal. O concerto será realizado pela escola do conservatório e a maestrina Zélia está à frente. Haverá a participação de vários grupos.

Haverá também a publicação de dois livros. Um escrito pelo sr. bispo, sobre são Tiago, e depois outro livro mais histórico sobre como surgiu o voto a São Tiago, uma vez que foi feito ao longo de vários anos. Este livro será um patrocínio da câmara municipal e quem está a organizar é a Dr.ª Graça Alves, com a DRC. 

Haverá também um hino a São Tiago. A música foi escrita pelo padre Ignácio e a letra pela irmã Maria da Cruz.

Haverá também um ciclo de conferências

C. Marcos Gonçalves – Exato, haverá um ciclo de conferências na igreja do colégio, em abril, maio e junho. Se não for possível a participação na igreja do colégio, será transmitido no Facebook e no YouTube da Diocese do Funchal. 

Uma das ideias do ciclo de conferências é falar do tema da fé. Faz sentido, hoje em dia, mesmo em tempo de pandemia, renovar o voto ou pedir a proteção a São Tiago? Na primeira conferência vemos a fé na sua relação com a ciência, com os tempos de hoje. Depois, uma coisa interessante é como se explica o contexto da altura e, ao longo dos anos, a realização do voto, a junção entre o religioso e a cidade. Depois, na última conferência, será apresentado um tema sobre a iconografia de São Tiago Menor na Diocese do Funchal.

Na sua opinião, qual é a atualidade da figura de São Tiago? 

C. Marcos Gonçalves – Neste ano, uma das coisas que queremos é dar a conhecer a carta de São Tiago. Primeiro, muita gente não conhece São Tiago. Na semana de atualização do clero, leigos e consagrados, o sr. bispo falou de São Tiago Menor em duas conferências, no dia 15 e 16 de março e apresentou São Tiago, que foi bispo de Jerusalém e ganhou uma importância muito grande. Foi o terceiro mártir da igreja. O primeiro foi Santo Estevão, depois São Tiago Maior e só depois São Tiago Menor. 

Depois, conhecer a própria carta e meditá-la. Convidar os fiéis a ler a carta, que é muito prática, muito terra a terra. Muita gente diz que deve ser a primeira coisa a ler no evangelho: a carta de São Tiago. A primeira coisa que se destaca é que uma fé sem obras está morta. Esta é uma das frases mais conhecidas de São Tiago. 

Como foi organizar este programa? 

C. Marcos Gonçalves – O mais complicado é projetar uma coisa que depois tem que ser constantemente alterada, porque tudo é incerto. Hoje é uma coisa, daqui a 10 minutos tudo pode mudar. Mas, graças a Deus, quando se fizeram os convites, encontrou-se muita vontade de participar e de colaborar. Se a dificuldade é a incerteza, tudo o resto foi fácil. O conservatório demonstrou logo disponibilidade para participar. A câmara municipal, com aquilo que ela sabe fazer, o governo, a DRC com aquilo que sabem fazer, disponibilizando mão de obra, designers para fazer panfletos, cartazes. Todos aceitaram o convite e quiseram participar.

Mesmo que as coisas sejam muito incertas, a igreja não pode parar, a sociedade não pode parar, mesmo no tempo de pandemia. É programar, é reunir, é rezar, é juntar vários conhecimentos de vários contributos. Fazer alguma coisa é melhor do que não fazer nada.